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Vandalismo é o foco

Nos protestos, só o quebra-quebra ganha destaque nos jornais

Professor diz que noticiários dão foco apenas para a baderna e ignoram o movimento dos professores

Nos protestos, só o quebra-quebra ganha destaque nos jornais
A imprensa separa o joio do trigo e publica o joio, diz professor (Reprodução/Internet)

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Na última segunda-feira, 7, o Rio de Janeiro foi palco de mais uma manifestação. Professores indignados com o Plano de Cargos aprovado pela Câmara dos Vereadores seguiram em passeata da Candelária até a Cinelândia, gritando palavras de ordem contra o governador Sérgio Cabral (PMDB) e o prefeito Eduardo Paes (PMDB).

No final da passeata, já na Cinelândia, os professores começaram a se dispersar, por volta das 19h30, enquanto um grupo estourava bombas e tentava invadir a Câmara dos Vereadores. Esse mesmo grupo costuma aparecer nos finais das passeatas e entrar em confronto com a polícia, se apropriando de manifestações pacíficas quando a noite cai. O quebra-quebra acaba sufocando a essência do protesto, e alguns críticos comparam a ação do grupo com a de policiais que se infiltram nas passeatas para fazer baderna, desqualificar os manifestantes e reduzir o número de participantes em passeatas futuras.

Atendendo ao pedido de sua filha Cecília, de 11 anos, o professor Mauro resolveu se juntar ao protesto na última segunda-feira. Pai e filha percorreram a passeata de forma tranquila e consideraram a manifestação um sucesso. Porém, ao chegar em casa, o professor ficou revoltado com a cobertura feita pelos canais de televisão, que focavam apenas nas cenas de vandalismo. Segundo o professor, em nenhum momento foi mencionado o sucesso do protesto.

O professor resolveu desabafar e escreveu uma carta a amigos. Leia abaixo o texto de Mauro, publicado originalmente na revista Carta Capital.

Acabo de chegar da manifestação em favor da Educação. Lá fui por insistência de minha filha de 11 anos, empolgada com a possibilidade de se juntar aos seus professores e participar do que imaginava ser um momento importante da história.

E foi realmente um belo ato da cidadania. Crianças carregando cartazes, muita ironia, muito humor e muita convicção da importância do evento. Essa foi a verdadeira atmosfera da Avenida Rio Branco, totalmente tomada, da Presidente Vargas à Cinelândia, na maior parte do tempo.

Chegamos às 17 horas e fomos embora às 19:30 quando percebi que um grupo de jovens que soltava rojões poderia comprometer a nossa segurança. Mas a missão de todos que tomaram a Rio Branco, de protestar contra o prefeito Eduardo Paes e o governador Cabral, em favor da Educação Pública, me pareceu cumprida.

Chegamos em casa a tempo de assistir ao telejornal e, como imaginei, aquele pequeno grupo de jovens que soltava os rojões se apropriou do fim da manifestação. Mas o que mais chocou foi não foram as cenas dos recorrentes quebra-quebras; foi o tom e a cobertura da televisão.

Novamente, omitiram o principal, do significado de tanta gente na rua, para mostrar desordem, lixeiras incendiadas e vitrines depredadas, dando a entender que aquele fim de tarde e início da noite foram um erro. Afirmaram que o Sindicato dos Professores estimou 50 mil pessoas na rua e que a PM nem chegava a tanto. Custo a crer que o Sindicato dos Professores tenha fornecido esse número. Havia muito, muito mais.

Enfim… Não sou de partido bolivariano nem adepto do patrulhamento da imprensa. Sou um cidadão comum. Mas a cobertura da televisão sobre a manifestação ocorrida horas atrás me deu náuseas. Imediatamente lembrei-me de uma frase repetida por um querido amigo jornalista, uma frase do político americano Adlai Stevenson: “a imprensa separa o joio do trigo e publica o joio”. Sérgio Cabral e Eduardo Paes agradecem imensamente. Quem não esteve lá só viu o joio.”

 


 

 

Fontes:
Carta Capital-Destaque só para a baderna

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4 Opiniões

  1. Hugo disse:

    Eu estive lá e o que vi foi um bando de vândalos se aproveitando do protesto pra fazer baderna e agir com violência. E nesse caso, eu acho que a Polícia teve a postura correta sim. Não estamos nas ruas pra isso, não se deve permitir que esses infiltrados toquem o terror não. Parabéns aos PM’s!

  2. Carlos U. Pozzobon disse:

    Fui a três manifestações em junho e na de sete de setembro. Nas de junho ainda mostraram alguma coisa da manifestação nos telejornais, mas tudo muito abreviado e apenas pela grande adesão de pessoas. Ocorreu a mesma coisa: durante o evento, não houve maiores tumulto, salvo alguns rojões. Quando o povo saía, os baderneiros entravam em ação. Chegando em casa dava para ver que se tratava de outra manifestação, completamente diferente da que havia comparecido. Na manifestação de 7 de setembro ocorreu a mesma coisa. Só mostraram os baderneiros, que estavam em outro lugar. Foi como se não houvesse manifestação cívica. Desde 2010, quando ocorreram as primeiras manifestações pelo julgamento do mensalão, em conjunto com o início da campanha contra a corrupção generalizada que tomou conta do aparelho de estado, nunca houve interesse da imprensa em notificar seus leitores acerca dos eventos. Mesmo quando se chegou a ver de 3 a 5 mil pessoas se manifestando na av. Paulista no pico. Creio que o motivo é o mesmo apontado pelo professor em sua nota: não havia baderna, não havia o espetáculo pirotécnico de carros, ônibus e agências bancárias incendiadas e tampouco quebradas, imagens que os telejornais se esmeram em apresentar. E não existe qualquer entrevista relevante com participantes de quaisquer manifestações que apareçam nos cadernos da imprensa escrita. Esta é a principal razão pela qual a imprensa é malfalada nas redes sociais.

  3. Pedro disse:

    Lembram do caso Brizola no Rio de Janeiro, quantas notícias previamente elaboradas com montagem grosseira, mas no fim conseguiram alcançar o objetivo?
    Da lição um aprimoramento, talvez, mas pode dar certo da mesma forma.
    A quem interessa a baderna para atingir a opinião de todos, um prato perfeito.

  4. helo disse:

    Felizmente os professores se manifestam contra os “vândalos”, que fazem a festa e causam comoção. Gostaria de ir a um protesto de médicos contra o desrespeito do governo federal, mas creio que os sindicatos chapa branca não manifestam qualquer interesse (?). Essas manifestações sobretudo no Rio são atraentes para criminosos varridos de seus feudos, e para o uso político dos sindicatos que querem que Cabral, criação do Lula/Dilma, seja o alvo único do crime da Delta que atuou em todo o PAC, nenhuma bandeira ou pichações contra os seus criadores. Estamos vivendo momentos difíceis e de campanha eleitoral. Há uma hora em que a greve deve se alternar com negociações, para reavivar o foco e impedir que alunos fiquem 2 meses sem aula, um tempo irreparável.

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