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ELEIÇÕES 2018

Notícias falsas ditam o rumo das eleições de 2018

Boatos, que há dez anos não passariam de piadas ruins, têm corrido pelos celulares de milhões de eleitores e influenciado escolhas de candidatos nas eleições de 2018

Notícias falsas ditam o rumo das eleições de 2018
O WhatsApp vem sendo o meio preferencial para divulgação de notícias falsas (Foto: Olhar Digital/Wikimedia)

O Partido dos Trabalhadores mandou distribuir ‘mamadeiras eróticas’ para recém-nascidos pobres; se eleito, Fernando Haddad pretende livrar Lula da prisão, reconduzindo-o à presidência da República; também nessa eventual gestão petista, as crianças serão declaradas propriedade do Estado, que as doutrinará segundo sua perversa “ideologia de gênero”. Boatos como esses, que há dez anos não passariam de piadas ruins mesmo entre os anti-petistas mais convictos, têm corrido pelos celulares de milhões de brasileiros e brasileiras e influenciado em suas escolhas de candidatos nas eleições de 2018.

João, de 30 anos, mecânico em uma oficina de carros em São Paulo, por exemplo, não votará em Haddad em hipótese alguma: “Se o PT ganhar, [o deputado] Jean Wyllis vai virar ministro da Educação. As professoras não vão mais poder tratar as crianças por menino ou menina, cada um vai decidir seu próprio sexo”.

Apresentado como informação séria, esse boato chegou a João pelo celular. Para conferir verossimilhança à pretensa notícia, a indicação ministerial é creditada a Manuela D´Ávila, candidata à vice-presidenta na chapa do PT. Em um vídeo que, para olhos treinados, é evidentemente uma edição de má qualidade, a candidata surge ainda vestindo uma camisa com os dizeres “Jesus é travesti” estampado no lugar da inscrição original “Rebele-se”.

A notícia e as imagens falsas, bem como as citadas no início deste texto, constam em um dos 68 links caluniosos denunciados pelo Partido dos Trabalhadores ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os juízes mandaram que o Facebook e o Google removessem o conteúdo de seus domínios, mas a decisão não foi o bastante para conter o compartilhamento das mentiras pelo WhatsApp, meio preferencial onde prolifera a campanha política subterrânea destas eleições. Com sede em Miami, as autoridades brasileiras têm pouca ou nenhuma gerência sobre esse que é atualmente um dos principais meios de comunicação da população.

Uma pesquisa empreendida pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) dá a dimensão do sentimento que persegue o eleitor em 2018: 75% dos três mil entrevistados se preocupam em ter o voto influenciado pelas chamadas “fake news”. Entre os mais jovens, com até 34 anos, o receio sobe para 82%.

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Antes das eleições começarem de fato – quando parte dos eleitores ainda acreditava que Lula seria candidato e Bolsonaro não havia sido esfaqueado por um homem que, em sua página no Facebook, replicava textos atribuindo o atentado contra as Torres Gêmeas de Nova York à ação da maçonaria – o ministro Luiz Fux, na época presidente do TSE, disse que a prioridade do tribunal em 2018 seria coibir a proliferação de mentiras na internet durante o período eleitoral. E ameaçou: a Justiça poderia, inclusive, anular a eleição se verificasse que o seu resultado fora decorrente da difusão massiva de “fake news”.

Não foi, contudo, o que se viu. A fala do ministro logo foi contemporizada por colegas – Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, disse que a criação de uma norma específica para coibir notícias falsas poderia ser interpretada como censura prévia, o que é vedado pela Constituição.

Uma comissão especial para combater os boatos virtuais foi criada no TSE, mas, até a conclusão do primeiro turno das eleições, o grupo de juízes e procuradores não se reuniu uma única vez. Prevaleceu a avaliação do ministro Mello, para quem o TSE só pode agir quando provocado, como aconteceu com as fake news denunciadas pelo PT e, posteriormente, apagadas da internet. A eficácia do método, contudo, é discutível, já que milhões de eleitores já haviam sido alcançados pelos boatos quando o tribunal enfim agiu.

De acordo com o instituto de pesquisas Datafolha, 10% dos eleitores em 2018 escolheram seu candidato faltando 15 dias para as eleições; outros 8% decidiram uma semana antes; 6% tomaram a decisão há um dia do pleito, e 12 % o fizeram momentos antes de chegar à urna.

A julgar pelo resultado do primeiro turno, amplamente favorável aos partidos de extrema-direita vinculados a Jair Bolsonaro, grande parcela desse contingente decidiu por apoiá-lo. E a decisão pode ter sido, em parte, guiada por calúnias e notícias falsas: dos dez boatos mais compartilhados na internet antes do primeiro turno, nove foram favoráveis ao capitão reformado e negativos para os seus opositores. Os dados, devidamente checados, são do projeto Comprova, que reúne jornalistas da agência France Press, Exame, Folha de S.Paulo, SBT, Piauí e Estadão, entre outros veículos.

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Antes de nós, os norte-americanos souberam como é ter uma eleição presidencial pautada por notícias falsas. Cientistas políticos das universidades de Princenton, Darmouth e Exeter, nos EUA, que analisaram os dados de tráfego na internet de 2.525 americanos, com mais de 18 anos, durante a eleição que levou Donald Trump ao poder, apontaram que 27% do eleitorado – 65 milhões de pessoas – leu pelo menos uma notícia falsa durante o período eleitoral.

Cruzando as informações com questionários anônimos respondidos pelos internautas, concluiu-se, ainda, que independentemente do nível educacional, eleitores com posicionamentos políticos extremados têm maior propensão a acreditar nas mentiras que leem no celular, computador ou tablet. Os eleitores de Trump, no caso, acessavam conteúdos de notícias falsas três vezes mais frequentemente que os eleitores de Hillary Clinton, sua opositora na época.

A resposta oferecida pelo jornalismo profissional – as agências de checagem de fatos –  foi de pouca serventia na eleição dos EUA: de acordo com a mesma pesquisa, só uma porcentagem irrisória, menos de 1% dos eleitores que acessaram páginas de fake news tiveram contato com informações que as desmentissem.

Ciente do mal que as notícias falsas têm causado a sua candidatura, Fernando Haddad só se manifestou sobre o tema dias antes do primeiro turno. Ele acusou a campanha de Bolsonaro de agir “fortemente” contra sua família e sua atuação no Ministério da Educação, divulgando boatos “muito vulgares, com imagens vulgares”.

Dias depois do primeiro turno, o petista, talvez ingenuamente, sugeriu que ambas as candidaturas assinassem um termo se comprometendo a não divulgar conteúdos mentirosos. O capitão respondeu Haddad com um breve comentário em sua conta no Twitter: “Canalha”, escreveu Bolsonaro.

Depois do primeiro turno, o conselho consultivo do TSE para o combate às fake news finalmente tornou a se reunir. De efetivo, os ministros conseguiram apenas agendar uma reunião com executivos do WhatsApp, informou Estêvão Waterloo, secretário-geral do tribunal. E em meio a boatos mentirosos sobre fraudes na urnas eletrônicas, que colocam em questão a própria confiabilidade do TSE, Waterloo afirmou que “a avaliação do tribunal lá atrás é de que o cenário seria muito pior”.

Donde conclui-se que talvez também a fala do ministro Fux sobre o empenho do TSE em combater as notícias falsas seja, ela também, uma mentira.

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3 Opiniões

  1. HENRIQUE O MOTTA disse:

    Ler notícias não quer, necessariamente, acreditar no que está sendo noticiado. A presunção do blog de que este ou aquele leitor será influenciado pelo que lê é no mínimo preconceituosa, partindo do princípio de que tal leitor não terá a capacidade intelectual para diferenciar o certo do errado ou o falso do verdadeiro. Além disso, a verdade de uns não será sempre a verdade de outros ou mesmo de todos. Recentemente vi uma jornalista muito capaz nas suas análises sobre economia fazer a seguinte afirmativa: “O PT sempre respeitou a democracia”. Quero crer que ela “acredita” nesta afirmativa, mas eu a contestei com os seguintes fatos: roubar do contribuinte é respeitar a democracia? usar o dinheiro roubado do contribuinte para sustentar candidaturas milionárias com o objetivo de se perpetuar no poder é respeitar a democracia? pretender desmoralizar as instituições do Estado (leia-se Ministério Público e Judiciário”) é respeitar a democracia? Bem, eu acho que não e, portanto, esta não é a minha verdade, e eu poderia tranquilamente considerar esta afirmativa da conceituada jornalista como “fake news” (notícia falsa). Portanto, cuidado ao imaginar que notícias, falsas ou não, são aceitas de coração aberto e motivam o eleitor. Alguns analistas políticos afirmam que Bolsonaro e seus eleitores são o resultado dos 12 anos de desgoverno e não motivados por esta ou aquela notícia. Seriam tais afirmativas “fake news”?

  2. Raimundo Soares disse:

    Brilhante comentário Henrique!

  3. ERNESTO VENTURA disse:

    Bastante procedente a argumentação de Henrique Motta, não esquecendo que se práticas questionáveis tiveram lugar nestas eleições, certamente não foram utilizadas apenas por um lado. Lembre-mo-nos também do que foi feito contra a candidatura da Marina nas eleições de 2014. No mínimo, Lula fez escola.

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