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SAÚDE

O atual desafio na doação de medula óssea

Encontrar leito e equipe médica disponíveis estão entre os grandes novos obstáculos

O atual desafio na doação de medula óssea
No Brasil, todos os custos envolvidos na doação de medula óssea são pagos pelo Sistema Único de Saúde

Já foi tempo em que o único problema do transplante de medula óssea era encontrar um doador compatível. Hoje, a questão é ter leito e equipe disponíveis imediatamente após o doador ser encontrado. “Há dez anos, o foco era achar um doador. Na época, não tinha uma pressão tão grande sobre os leitos e as equipes. À medida que ficou mais fácil encontrar um doador, a pressão mudou”, explica Luis Fernando Bouzas, médico e coordenador do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula óssea (REDOME), que é coordenado pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), no Rio de Janeiro.

Em junho, o Inca ganhou mais quatro leitos disponíveis para a população. Considerando os 12 já disponíveis, houve um crescimento de 30%. No ano passado, o Brasil teve 381 transplantes não-aparentados (quando as células precursoras da medula óssea não vêm de um familiar). Segundo Bouzas, hoje já é possível encontrar doador para quase 80 ou 90% dos pacientes. No entanto, muitos pacientes não conseguem receber a doação por conta do timing. “Muitas vezes, o paciente perde a condição de poder fazer o transplante, porque o processo [de disponibilidade de leito e equipe] demorou muito. Em outros países, isso acontece também, mas não é tão grave como no Brasil”, explica o médico.

O Brasil é hoje o terceiro maior registro do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos (1°) e a Alemanha (2°). No caso brasileiro, há mais de 4,3 milhões de doadores para uma média de 850 pacientes em busca de doador não-aparentado.

Segundo o ministério da Saúde, há 95 Centros de Transplantes de medula óssea com autorização vigente. Em nota ao Opinião e Notícia, o ministério informa que todos estes centros fazem o transplante autólogo (quando as células precursoras da medula óssea vêm do próprio paciente), 59 deles fazem o transplante alogênico aparentado (quando as células vêm de um familiar) e 35 fazem o alogênico não-aparentado (quando as células vêm de um doador voluntário que não é da família). “De acordo com o Inventário Nacional sobre os Serviços de Transplantes de Medula Óssea no Brasil realizado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT/MS), existem 636 leitos nas três modalidades”, explica a nota.

No Brasil, todos os custos envolvidos na doação de medula óssea são pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Em 2016, o governo federal investiu R$ 122 milhões com os procedimentos de cadastramento de doadores. De janeiro a março de 2017, o SUS já financiou 419 transplantes de medula óssea a um custo de R$ 21,05 milhões”, diz o ministério.

A pasta ainda afirma que já está em andamento um projeto para aprimorar o processo de gerenciamento da distribuição de leitos aos pacientes que já possuem doador identificado. “Os centros que têm interesse em ampliar a capacidade instalada serão visitados e analisados por equipes técnicas do Governo Federal. Existe ainda a portaria nº 2.758/2014, que institui financiamento para criação de novos leitos para realização de transplantes de medula óssea e traz aspectos regulatórios importantes sobre a utilização desses recursos, que podem ser usados, inclusive, para habilitação de novos leitos e equipes”, explica a nota. Enquanto os projetos não saem do papel, o número de leitos é muito baixo para um país tão grande quanto o Brasil.

Como funciona a doação?

medula info 1A medula óssea é um tecido líquido-gelatinoso que fica no interior dos ossos, é basicamente o “tutano” do osso. Esse tecido se regenera em 10 ou 15 dias. Ou seja, uma mesma pessoa pode doar medula óssea mais de uma vez. A doação é necessária em cerca de 80 doenças como leucemia, linfoma e anemia grave.

Para ocorrer um transplante de medula óssea é essencial haver compatibilidade entre o doador e o receptor. Ela deve ser idêntica (100%) ou próxima de 90%. Ou seja, entre milhões de doadores, é possível encontrar um ou dois totalmente compatíveis com o paciente e alguns parcialmente compatíveis. Como a compatibilidade está relacionada com os genes localizados no cromossomo 6, o doador totalmente compatível mais comum é o irmão do paciente. Mesmo assim, a probabilidade disso acontecer é de 25%. Como cada vez mais as famílias estão tendo menos filhos, a situação complica. Por isso, a importância de doadores não-aparentados.

A probabilidade de achar um doador compatível com um paciente vai depender de cada caso, porque varia segundo a característica genética de cada um. “Se o paciente é um brasileiro, oriundo da Bahia, onde houve miscigenação entre negros, índios e europeus, e o doador for procurado na Alemanha, por exemplo, a chance de achar alguém compatível vai ser praticamente zero. Mas se a procura for feita na própria Bahia, há mais chances”, explica Luis Fernando Bouzas.

Como doar medula óssea?

medula info 2No primeiro momento é necessário fazer um cadastro num hemocentro, onde é feita a coleta de uma amostra de sangue (no Rio de Janeiro, apenas o INCA está fazendo o cadastro). Neste momento, os dados pessoais do doador são registrados no REDOME. Esta coleta de sangue não é a doação de medula, ela serve apenas para identificar as características genéticas do doador. São estas características que vão definir quem é compatível com o paciente.

É essencial que o doador mantenha esses dados cadastrais sempre atualizados, caso contrário ele pode não ser achado se um dia um paciente compatível aparecer. O doador permanece no registro até completar 60 anos de idade. Se um exame clínico comprovar que ele está em boa saúde para o procedimento, o doador segue para a coleta.

Há duas formas de coleta de medula. Uma é a punção com agulhas nos ossos da bacia. Este procedimento é feito no centro cirúrgico, sob anestesia geral ou peridural. A outra é chamada de coleta por aférese. O doador toma um medicamento, conhecido como fator de crescimento, que faz com que as células saiam da medula óssea e circulem no sangue do doador. A pessoa então faz uma doação por meio de uma máquina, que funciona como um filtro, coletando as células necessárias e devolvendo ao doador os elementos que não são necessários ao paciente. Neste caso, não é preciso internação nem anestesia. Quem define qual é o procedimento adequado para cada caso é o médico.

A medula óssea pode ser levada para outro estado e até para outro país, já que o Brasil faz parte de uma rede de solidariedade de doação de medula. Da mesma forma, um paciente brasileiro também pode receber uma doação do exterior.

O grupo NeoMedula e a luta contra a desinformação

O NeoMedula promove campanhas de conscientização sobre a importância da doação de medula óssea. O grupo começou oficialmente em setembro de 2016. No entanto, a história dele é muito mais antiga, como explica Renato Leite, de 36 anos, um dos fundadores do grupo.

Quando Renato estava na faixa dos 20, seu primo Gabriel Dutra, de 9 anos, foi diagnosticado com leucemia. Renato mobilizou várias pessoas porque Gabriel precisava de um transplante de medula óssea. “Meu primo encontrou o doador, mas foi um tratamento muito longo. Ele já estava fraquinho. Não chegou a receber o transplante e se despediu da gente”.

Dez anos depois foi a vez de Renato ser diagnosticado com leucemia, seus amigos se mobilizaram e a campanha alcançou 60 mil pessoas. Renato não precisou de transplante e sua doença entrou em remissão.

Um ano depois, seu amigo e professor de dança, Vitor Saru, foi diagnosticado com leucemia. Na nova campanha, eles fizeram um vídeo que se tornou viral nas redes sociais, alcançando 30 milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Saru encontrou seu doador e fez o transplante. No entanto, sua internação foi muito longa. “Depois de uma infecção, ele não resistiu e também se despediu da gente (…) Depois disso, eu tive certeza que tinha que começar o projeto (…) Era uma ideia que já habitava em mim desde a época do meu primo (…) Junto com a minha esposa criamos uma página no Facebook”, conta.

O grupo faz palestras e leva as pessoas para se cadastrar no REDOME. A luta deles é contra a desinformação. “A gente criou o projeto para conscientizar as pessoas do que elas realmente estão fazendo quando se cadastram no REDOME. A gente quer atrair doadores mais conscientes”, explica Renato.

A doação de medula óssea pode salvar uma vida. Mas os mitos em torno deste ato de amor fazem com que muitos deixem de ajudar, por isso a luta contra a desinformação é tão importante.

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