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O Brasil está preparado para um futuro mais quente?

Manobra para tirar o maior programa de adaptação à mudança climática já feito no país, o 'Brasil 2040', da agenda de desenvolvimento nacional sinaliza que o tema deixou de ser considerado estratégico

O Brasil está preparado para um futuro mais quente?
Visão aérea de Mata Atlântica beirando a cidade do Rio de Janeiro (Foto: Franz Lanting/National Geographic Creative)

Em dezembro de 2013, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência (SAE) deu início a uma agenda de sustentabilidade focada na questão da adaptação à mudança climática. Pela primeira vez no país, cenários climáticos regionalizados — todos projetando um futuro mais quente — seriam atrelados às estratégias de desenvolvimento nacional de longo prazo do país.

Uma equipe de técnicos foi montada pelo então sub-secretário de Desenvolvimento da pasta, o economista Sérgio Margulis, para coordenar o Brasil 2040: Cenários e Alternativas de Adaptação à Mudança do Clima, um programa de governo, financiado com dinheiro do orçamento, que produziria o maior e mais ambicioso estudo de adaptação à mudança climática já feito no Brasil.

O projeto envolveu algumas das melhores instituições de pesquisa do país, entre elas Inpe e Coppe-UFRJ, contratadas pela SAE para desenvolver análises de impacto baseadas em modelos climáticos regionalizados e estratégias de adaptação voltadas para cinco áreas: recursos hídricos, infraestrutura urbana e costeira, agricultura, energia e saúde humana. A ideia era gerar inteligência sobre os efeitos da mudança do clima para repassar aos planejadores de políticas públicas.

A princípio, os estudos setorizados serviriam de insumos para a formulação de um “estudão”, chamado pelos técnicos de global study, que alimentaria o Plano Nacional de Adaptação, o documento que  a presidente Dilma Rousseff vai apresentar na próxima Conferência do Clima em Paris, a COP-21, em dezembro.

Mas a SAE mudou de rumo em fevereiro deste ano, com a nomeação do professor Mangabeira Unger para chefiar a pasta. Menos de um mês depois de assumir o posto, Unger demitiu Margulis, a diretora do Programa Brasil 2040, Natalie Unterstell, e a maior parte dos técnicos em cargos de coordenação, sem qualquer comunicação prévia ou programa de transição. Acéfalo, o Brasil 2040, que deveria ser entregue em abril, não teve conclusão nem foi entregue à sociedade até hoje. Segundo Natalie, faltou completar a etapa do “estudão” e interligar os estudos contratados com dinheiro público, via PNUD, num conjunto de propostas e prioridades para apresentar à presidente.

“O global study nunca foi feito porque a equipe foi mandada embora,” diz Natalie, “e a equipe que ficou lá não tinha condições de fazê-lo. São pessoas que nunca trabalharam com o tema”.

Procurada pelo Opinião e Notícia, a SAE afirma que o Brasil 2040 “prossegue inalterado” e que a demissão de Margolis e Unterstell foi “fato corriqueiro”. Entretanto, da equipe original de técnicos que coordenavam os diferentes setores do estudo, apenas um permanece na SAE, e até ele não ficará por muito mais tempo. Estaria de saída da pasta, segundo fontes do site.

Antes de ser demitida do Programa Brasil 2040, Priscila Santos era gerente de projetos, responsável pelas equipes técnicas de dois setores: agricultura e saúde humana. Uma das conquistas de seu trabalho foi ter participado da criação de uma plataforma de conhecimento em adaptação às mudanças climáticas (conhecida por “knowledge hub” de adaptação), com foco em infraestrutura, que funcionou durante um ano. Mas, apesar de ter recursos garantidos para a continuação do projeto, Patrícia conta que a SAE optou por não dar continuidade a ele após a mudança de chefia na pasta.

“Acho que vale destacar que mesmo tendo relevante carga de responsabilidade no Brasil 2040 não fui em nenhum momento chamada para uma conversa sobre a possibilidade de colaborar em um processo de transição ou continuidade das atividades exercidas. Minha exoneração se deu sem qualquer aviso prévio formal e fui pega de surpresa ao chegar para trabalhar e ser informada, in loco, de que a mesma havia sido publicada no Diário Oficial da União”, conta Priscila.

Batata quente

Como para se livrar de uma dor de cabeça, a SAE pretende entregar, sabe-se lá quando, o projeto à Secretaria de Ações Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, um claro sinal de que o clima deixou a lista de prioridades estratégias da pasta.

De fato, a SAE afirma que hoje suas prioridades “se estruturam em torno de dois eixos temáticos”: a “geração de oportunidades educacionais” e “a geração de oportunidades produtivas”. Assuntos relacionados ao tema da mudança climática devem ser dirigidos à Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

Veja aqui uma série de slides de apresentações sobre o programa Brasil 2040.

2 Opiniões

  1. Joaquim Caldas disse:

    Brasil político já começa a derreter.

  2. Roberto1776 disse:

    O Mangabeira é fogo! Não diz coisa com coisa, mas estudou em Harvard (berço da esquerda americana e lá também lecionou). É difícil entender o que a rainha da “cassava” tinha em mente quando o nomeou. Talvez um agradecimento à “memória do Brizola? Os três, Briza, Cassava e Hungryman, eram do mesmo partido!
    No final, certamente esse episódio não vai representar muita coisa, pois ninguém consegue controlar a natureza. Uma grande erupção de vulcão em Sumatra, destrói o trabalho contra o aquecimento global de 100 anos. É um trabalho de Sísifo.

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