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VIOLÊNCIA SEXUAL

O Brasil tem uma cultura do estupro?

O estupro no Brasil ainda é prevalente, subnotificado e ignorado pela mídia a menos que envolva circunstâncias macabras ou turistas

O Brasil tem uma cultura do estupro?
Campanha em redes sociais pede conscientização sobre o estupro no Brasil (Foto: Redes Sociais)

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Estatísticas mostram que a violência sexual contra mulheres no Brasil é prevalente, mas tende a escapar a atenção da mídia a menos que envolva um incidente macabro, como o caso recente de estupro coletivo de uma adolescente praticado por mais de 30 homens em uma favela do Rio, ou uma turista vitimada. Há uma subnotificação de ocorrências e até mesmo os episódios que chegam aos jornais são facilmente deslocados por outras novidades, como a Olimpíada ou confrontos entre traficantes e a polícia.

Leia também: ONU pede tolerância zero a todas as formas de violência contra a mulher no Brasil

Até 2009, o Código Penal brasileiro caracterizava o estupro como “um crime contra a dignidade social” – um insulto dirigido à integridade da família (o marido ou o pai de uma mulher, por exemplo). A noção de “justiça” diante de um crime de estupro era baseada na imagem da “mulher honesta”, de modo que a proteção integral da lei valia apenas para virgens solteiras e mulheres casadas.

Em 2009, o Código Penal foi alterado e passou a definir o estupro como um crime contra a dignidade e a liberdade sexual. Desde então, um estudo produzido pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro registrou um aumento de 24% nos casos de estupro entre 2011 e 2012, indicando que mais pessoas passaram a denunciar o crime à polícia.

Mas a decisão de denunciar um estupro ainda esbarra em tabus sociais. Um estudo do Ipea de 2014 estimou que existem 527 mil tentativas de estupro por ano no Brasil, dos quais apenas 10% são relatados.

O estudo também revelou atitudes preocupantes do público em relação ao estupro. Publicado no final de março de 2014, o estudo inicialmente informara que 65,1% dos brasileiros acreditavam que as mulheres que se vestiam com roupas reveladoras mereciam ser estupradas. Surpreendentemente, dos pesquisados, 65% eram mulheres.

O estudo repercutiu amplamente nas mídias sociais, mas, em seguida, o IPEA anunciou um erro nos números publicados. As porcentagens representadas pelas respostas a duas das perguntas da pesquisa haviam sido acidentalmente invertidas: em vez de 65%,  a porcentagem de brasileiros que acreditavam que mulheres que usam roupas provocantes merecem ser estuprada era de 26% – um erro gritante, embora o número correto ainda seja bastante alto. No entanto, a crítica da mídia ao IPEA e à pesquisa foi tão dura que os resultados do estudo como um todo foram desacreditados.

Mas foi tolice descartar o estudo com base em um erro de publicação infeliz. O restante dos resultados continua a ser relevante e sublinha crenças retrógradas e preocupantes sobre as mulheres. Por exemplo, 58,5% concordaram que, se as mulheres soubessem se comportar adequadamente haveria menos casos de estupro. A maioria, ou 58,4% dos brasileiros, também disse que os casos de violência doméstica devem ser resolvidos dentro da família.

Chamar a atenção para tais estatísticas pode ajudar a provocar um debate público sobre a violência sexual no Brasil e desfazer a fortaleza de sexismo na psique brasileira coletiva. Embora o conceito de “mulher honesta” tenha sido retirado do código penal nacional, essa linguagem deixou uma marca nas atitudes culturais. Os casos de estupro que são destacados pela mídia abordam uma mera fração das atitudes machistas entrincheiradas que moldam a vida das mulheres. Essa atmosfera desencoraja as mulheres a tomarem decisões autônomas sobre seus direitos sexuais ou às vezes até mesmo as roupas que vestem.

Há um nível inaceitável de tolerância social com o comportamento sexista e a violência contra as mulheres. Há uma profunda necessidade de novos discursos que priorizem o combate ao estupro. Só então, o Brasil vai ser capaz de erradicar uma infraestrutura social que continua a reforçar atitudes sexistas e patriarcais.

Fontes:
Al Jazeera - Macho notions of rape linger in Brazil

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6 Opiniões

  1. vitafer disse:

    É preciso combater e punir todo tipo de abuso sexualidade.

  2. Ludwig Von Drake disse:

    Não, o Brasil não tem uma cultura do estupro, porque na nossa cultura, estupro é Crime e são criminosos os que o praticam.

    Destaquei algumas pérolas:

    “Campanha em redes sociais pede conscientização sobre a normatização do estupro no Brasil (Foto: Redes Sociais)”
    A mensagem sugere que o estupro precisa ter . . . normas. O estupro Não precisa de normas, porque a Norma diz que não pode ter estupro. Compreendem?

    “Há uma profunda necessidade de novos discursos que priorizem o combate ao estupro”

    Precisa de Mais discurso. Viram o absurdo ?

    As autoridades não conseguem se expressar sobre o problema, que dirá combatê-lo.

  3. Roberto1776 disse:

    Gostaria de ouvir o que a polícia tem a dizer sobre este caso específico já julgado pela mídia e pela sociedade. Também espero que esta enorme badalação não inaugure esta prática, introduzida pelo estupro coletivo na Índia há puco tempo atrás, como atividade corriqueira.

  4. Áureo Ramos de Souza disse:

    Se nossas leis fossem mais rígidas CORTARIA O B*#@ de todos.

  5. Thomas Toth disse:

    Em Cingapura, a mulher que saísse as ruas eram estupradas. Hoje é o lugar mais seguro do mundo, porque lá pensam na solução. Aqui só pensam no problema e nunca solucionam nada.Se o Brasil resolver acabar com a violência, é só imitar Cingapura, “ípsis Lítteris”, e seremos todos felizes.

  6. Lauran disse:

    Opiniões da sociedade , opiniões de machista , de quem “acha” que esta certo.
    – ” Num sei pra que sair na rua assim também ”
    – ” Claro que ela ta querendo ser estrupada olha esse short , olha essa saia , num sei pra que esse decote ”

    Repare e Reflita ,
    Não uso decote pra me estruparem
    Não uso Short algum pra me estruparem
    Não uso mini saia alguma pra me estruparem

    Posso usar porque gosto de como fico gosto de mostrar sim minhas curvas pra quem sabe valoriza – lás e olharas sim porque afinal ” Tudo que e bonito e pra se olhar ” Mais não pra se tocar.
    Gostamos de receber elogios.
    Gostamos de andar bem vestidas , do curto ao longo do decote V a decotes fechados.

    Nenhuma mulher e nem ningue merece ser estrupada ,
    “Tatabem ,tira a roupa curta !! Mais eram 2:00da manhã e ela sozinha na rua também tava querendo ”

    Não , nao estava querendo , estava voltando de uma festa para casa ou a onde fosse , e liberdade de ir e vim , vou onde quizer com a roupa que quizer .

    Nenhuma mulher ” ta querendo ”
    Os erros não estam nas mulheres num tente achar erros onde não ha ,
    Nao esta em voce ser : ” gostosa ” ” delicia ” ( Isso pra mim nao sao elogios mais isso cabe a casa feitice de pessoas que gostam de ouvir elogios desses tipos )
    Mais ou erros nao esta em voce fisicamente . Comportamente e Vistimentas?? Menos ainda

    Esta no impecil que pensa que voce esta querendo que acha que as 2hs da manha por esta sozinha com algum sort e mini blusa voce tem que ” está querendo”

    Não generalizar jamais .

    Mais ainda temos esses tipos de animais que acham isso.
    Se fui ao um baile funk
    De shortinho e blusinha nao estou querendo ( so queria dançar com meus amigos )
    Se fui ao um barzinho relaxa com uma cervejinhas , nao estou querendo ( so estava querendo relaxa a semana tensa )
    Se fui ao Supermercado ” Nao estou querendo ”
    Se fui a uma festa ” Nao estou querendo”
    Se fui a uma igreja ” Não estou querendo ”

    NAO MUDE SUA VIDA , NAO MUDE SUAS POSTURA MUDE O JEITO DE PENSAR NA SUA MUDANÇA QUEM MUDA NAO E VOCÊ QUEM MUDA E O PENSAMENTO HOSTIL DE PESSOAS HÓSTIS.

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