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O caminho dos brasileiros que escolhem estudar no exterior

Em um mercado cada vez mais competitivo, alguns brasileiros optam por enriquecer o currículo com um diploma internacional

O caminho dos brasileiros que escolhem estudar no exterior
A jornalista Andressa Fontes fez um mestrado na Universidade de Coventry, na Inglaterra (Foto: Andressa Fontes/Acervo pessoal)

A vida estudantil é permeada por decisões. No ensino médio, os adolescentes, aos 15 anos, em média, já devem começar a pensar no futuro de forma mais prática e direcionar suas escolhas mirando em um objetivo: a profissão que vão ter pelo resto da vida.

A dedicação à escola, a escolha de uma carreira, a concentração no vestibular, a faculdade ideal. Todos esses são processos que moldam a vida acadêmica e profissional do brasileiro desde muito cedo. E, em muitos casos, o sonho de estudar fora do país.

Para Arthur Abrantes, de Paracatu (MG), a vontade de estudar fora do Brasil nasceu em 2012, por acaso, enquanto assistia televisão.

“Estava assistindo a um programa em que estavam contando a história da Tábata Amaral, uma garota com uma história de vida incrível que havia acabado de ser aceita em algumas das melhores universidades do mundo, incluindo Harvard. Sua história me inspirou tanto que eu decidi que queria aquilo para mim e comecei a planejar os passos que eu deveria dar para alcançar tal feito também.”

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Arthur fará parte da turma de 2020 de Harvard (Foto: Arthur Abrantes/Acervo pessoal)

Arthur se formou na rede pública de ensino de Paracatu. Em março deste ano, ele foi um dos dois brasileiros aceitos na Universidade de Harvard, nos EUA. Trata-se uma das universidades mais prestigiadas do país. Ele conversou com o O&N sobre o assunto.

“O processo de seleção das universidades americanas é mais complexo e holístico que o brasileiro. Além de ter que fazer provas, o candidato também tem que enviar seu histórico escolar do Ensino Médio, lista de atividades extracurriculares que tenha feito, eventuais prêmios que tenha recebido, redações pessoais, cartas de recomendação de professores, entre outros documentos. Nesse sentido, minha preparação envolveu estudar mais para tirar notas boas na escola, me envolver em atividades fora da sala de aula que me interessavam (teatro, robótica, grêmio, etc.) e aprender inglês.”

Para o mineiro, o sistema de ensino brasileiro ainda tem um longo caminho a percorrer.

“Não consigo entender como um país com uma das maiores economias do mundo está no 60° lugar entre 76 países no ranking de qualidade de educação da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico]. É claro que existem, sim, escolas públicas de alta qualidade no Brasil, em particular os institutos federais e colégios militares, que têm uma estrutura muito boa e que oferecem uma educação de ponta. No entanto ainda desperdiçamos muitos talentos com a qualidade não tão boa de muitas escolas públicas.”

Arthur se diz ansioso para estudar em Harvard.

“Espero me descobrir com essa experiência. Eu sempre fui muito indeciso em relação a que curso fazer na universidade. Essa, inclusive, foi uma das razões pelas quais eu busquei estudar fora, devido à grande flexibilidade que o aluno tem para escolher seu curso em uma universidade americana. Basicamente, terei quatro anos de estudo lá, sendo os dois primeiros dedicados a explorar as áreas que me interessam antes de fazer uma decisão final.”

Outro aspecto da experiência que ele espera com ansiedade é explorar o ambiente acadêmico diversificado.

“Estou particularmente ansioso em conhecer pessoas novas. As universidades americanas são casa para gente de todos os cantos do planeta e que vêm de ambientes totalmente diferentes. Você pode encontrar desde o filho do presidente de um país, até alguém que vêm de um background desfavorecido, mas que fez algo muito incrível. Não só os alunos são excepcionais, mas também os professores. Muitos deles são autores dos meus livros favoritos ou são personalidades que admiro muito. Fico muito ansioso em conhecer toda essa gente, aprender e, porque não, ensinar algo a eles.”

Na opinião de Arthur, não existe segredo para conseguir uma vaga em uma universidade internacional de prestígio.

“O método não é nenhum segredo: planejar, acreditar e, principalmente, trabalhar duro.”

DEPOIS DO ENSINO SUPERIOR 

A jornalista Andressa Fontes participava de um projeto de pesquisa em legados de megaeventos chamado Carnival Project, que tem financiamento da União Europeia e reúne universidades de cinco países: Reino Unido, Alemanha, EUA , África do Sul e Brasil. Já no exterior enquanto participava da pesquisa, ficou sabendo de oportunidades na Universidade de Coventry.

“Fiz um mestrado em Peacebuilding (Construção da Paz). O curso era semipresencial, tive duas semanas de estudo na Inglaterra em janeiro e duas semanas na Turquia em junho. Mas optei por ficar e aproveitar os eventos da Universidade, a biblioteca, o contato com os professores e demais pesquisadores do centro e até mesmo para melhorar o inglês. A escolha foi motivada pelo próprio contexto do grupo de pesquisa, porque eu estava realizando uma investigação sobre megaeventos e paz.”

Para ela, a preparação foi corrida.

“Normalmente, na Inglaterra, para a candidatura do mestrado é necessário preencher uma ficha chamada application form no qual você insere seus dados pessoais e profissionais, seguido de uma carta de motivação, currículo e duas cartas de referência. Fui chamada para duas entrevistas presenciais, mas para candidato internacional o processo ocorre via Skype. O maior obstáculo foi a entrevista, sem dúvida, porque seus conhecimentos são postos à prova, sua conduta, seu domínio da língua e outros elementos.”

Sobre a experiência de estudar fora, Andressa ressalta as oportunidades de aumentar o conhecimento, networking, atender outras conferências e eventos internacionais como algumas das principais vantagens, além de conhecer outras culturas. Ela conta que, na Turquia, experimentou usar o hijab – lenço para esconder o cabelo – e percebeu que quando saía na rua mais coberta, era mais respeitada e não recebia tantos olhares curiosos.

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Conhecer novas culturas está entre as vantagens de estudar fora do país (Foto: Andressa Fontes/Acervo pessoal)

A jornalista realizou todo o processo por conta própria. Fez um curso particular onde conseguiu desconto pelo fato de o Brasil se encaixar na categoria de países em desenvolvimento. Ela conta que as dificuldades financeiras, motivadas pela variação cambial do Real e a instabilidade econômica no Brasil dificultaram a sua estadia na Inglaterra. “Mas o desejo de crescer profissionalmente me fez reestruturar não só o planejamento acadêmico, mas também a organização do lado econômico.”

Quando questionada em relação às oportunidades de emprego para brasileiros na Inglaterra, Andressa diz que não é fácil. Para conseguir um emprego no país, é necessário um visto que só pode ser adquirido por brasileiros que ganhem o valor acima de 25 mil libras por ano.

“Normalmente você só consegue ser empregado se você justificar que aquela vaga pode ser ocupada porque, além de preencher todos os requisitos, você traz um diferencial por sua experiência, cultura e outros elementos.”

Quanto aos principais requisitos para estudar fora do país, Andressa diz que quatro características são indispensáveis: “Domínio da língua estrangeira, estar preparado para as novos desafios em uma nova cultura e em outro ambiente acadêmico, se organizar financeiramente, ler bastante e acompanhar os prazos e uma vontade infinita de aprender.”

NO FUTURO

Arthur quer utilizar o que aprender em Harvard em prol do Brasil.

“Acho que seria egoísmo ter uma oportunidade como essa, que pouquíssimos têm, e não contribuir de alguma forma para o meu país.”

Andressa diz que está sempre em busca de cursos inovadores que não temos no Brasil, então está aberta a oportunidades onde quer que elas estejam.

“O profissional do sec XXI, assim como a internet, é um navegador sem fronteiras. Há de se buscar as oportunidades onde quer que elas estejam, seja na sua rua, no bairro, na sua cidade ou ainda em outro continente.”

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1 Opinião

  1. Joma Bastos disse:

    Não escreveram sobre Portugal, o País que tem mais brasileiros em suas universidades e que têm um acordo bilateral com o Brasil, para poderem eliminar todas as burocracias de ingresso em escolas superiores portuguesas.

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