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CULTURA E ARTE

O desafio brasileiro da preservação da memória da arte

Mônica Xexéo fala sobre os desafios da preservação da memória no Museu Nacional de Belas Artes

O desafio brasileiro da preservação da memória da arte
Atualmente, o museu conta com um acervo de cerca de 70 mil obras, incluindo pinturas, desenhos, esculturas, documentos e livros (Foto: Mariana Mauro)

O Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) é considerado o museu de arte mais importante do país. No entanto, a preservação nacional da memória da arte é um desafio permanente. Apesar do orçamento 2015 de toda a União já ter sido aprovado pelo Congresso Nacional, ainda é necessário um decreto presidencial para que os valores sejam distribuídos entre os Ministérios. Diante de uma crise econômica, há a expectativa de cortes nas pastas. Segundo a diretora do MNBA, Mônica Xexéo, os recursos repassados ao museu em 2014 já não foram suficientes para o planejamento da instituição

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Mônica Xexéo, diretora do Museu Nacional de Belas Artes (Foto: Mariana Mauro)

Projetado em 1908, o prédio da avenida Rio Branco foi feito com o intuito de ser a Escola Nacional de Belas Artes, herdeira da Academia Imperial de Belas Artes, e não um museu. Portanto, não foi projetado para abrigar peças de arte. As paredes têm cerca de um metro e meio de espessura e o prédio não tinha instalações para telefone nem computadores. Além disso, o fato da construção ser tombada também dificulta o trabalho da instituição. “É um grande desafio. É um prazer enorme, mas é um grande desafio, porque você tem que estar acompanhando a questão da preservação e da manutenção. Não é você fazer uma coisa ‘fiz, pronto, acabou’, é permanente.”

Segundo a diretora, é preciso transmitir e sensibilizar a sociedade que essas instituições como o Museu Nacional de Belas Artes, são casas de cultura. Não é um lugar de coisa velha que você está simplesmente guardando objetos, na verdade, a ideia é preservar a memória. “Você preserva o passado, atuando, hoje, no presente para o futuro”, comenta.  “Você precisa mostrar que não é uma casa velha, é uma casa atuante, é uma casa viva. E isso vai levar a nossa história para gerações futuras”. Atualmente, o museu conta com um acervo de cerca de 70 mil obras, incluindo pinturas, desenhos, esculturas, documentos e livros.

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Obra de Antony Gormley apreendida e doada ao museu pela Receita Federal (Foto: Mariana Mauro)

O tamanho do espaço físico também é uma questão relevante. Com doações e aquisições de novas peças, o museu esbarra na questão do patrimônio histórico do prédio. “Como é um prédio tombado, não é possível fazer nenhum acréscimo. Então a ideia é que a gente tenha um braço do museu em outro espaço”, explica.  “Numa perspectiva há longo prazo, dentro de quatro anos, [o espaço] vai estar saturado, então, você precisa de um planejamento.” A ideia é que dentro deste período haja um novo prédio para abrigar as peças. “Estamos aguardando, é uma questão política para gente conseguir receber um prédio no centro da cidade. Mas não tem nenhum prédio definido”, diz. Além do acervo próprio, o Museu Nacional de Belas Artes é depositário da Polícia Federal e da Receita Federal.

Nem todas as doações vão para o museu. Há um conselho que verifica essa demanda de entrada de obras e escolhe quais que entram de acordo com vários critérios. Da mesma forma, algumas obras do próprio acervo do museu nunca foram expostas ao público, não por falta de qualidade da obra, nem necessariamente por falta de espaço, mas por uma questão de conceito do que deve ser apresentado dentro de uma política curadorial. Além disso, há outros critérios para a exposição ou não de uma obra, como o momento e o estado de conservação da peça. De 3 a 4% do acervo do Museu Nacional de Belas Artes são expostos ao mesmo tempo ao público. No entanto, estas obras podem ser emprestadas para outros museus do Brasil e do exterior. “Em março, nós já temos mais de 12 pedidos de empréstimos de obras de arte”, conta. “Este é o museu para fora, além das suas paredes, além das suas fronteiras.”

Da mesma forma, o MNBA também recebe empréstimos de peças, que ficam nas exposições temporárias. Em média, ocorrem cinco exposições ao ano deste tipo no museu. Já no acervo permanente há uma rotatividade que, geralmente, é feita a cada cinco anos. “Algumas não saem, porque são obras emblemáticas. São obras ícones da instituição, e aí você não retira.” Essas peças também não são emprestadas.

Conservação, preservação e restauração das obras

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Obra de Candido Portinari, que ficava no interior da Capela Mayrink (no Parque Nacional da Tijuca), doada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade/Ministério do Meio Ambiente, ao museu (Foto: Mariana Mauro)

A diretora explica que os acervos permanentes são todos monitorados com data loggers, um aparelho que emite dados de umidade e temperatura para os computadores da reserva técnica (onde as obras que não estão expostas ficam guardadas). Além disso, há dentro da equipe, um meteorologista que prevê chuvas e mudanças de temperatura para que a questão da climatização seja regulada.

Atualmente, a equipe de conservação, preservação e restauração é composta por quatro pessoas. Entretanto, o museu contrata equipes externas de restauração através de projetos, ou seja, a restauração de uma peça específica. Enquanto a coordenação desses projetos é feita pelo próprio museu, a verba vem do governo e de inciativas privadas. “Às vezes entra também recursos externos e privados, que são muito bem-vindos. Hoje, o governo não pode trabalhar sozinho. A iniciativa privada precisa dessas instituições culturais e precisa do governo federal. Então tem que ter um casamento para um ajudar o outro”, explica.

Cada tipo de peça tem uma técnica específica de conservação e preservação. O MNBA conta com trainéis (espécie de gavetas verticais, onde você pendura as pinturas), armários, arquivos deslizantes (uma espécie de móvel que se movimenta sobre trilhos para reduzir o espaço utilizado) e mapotecas (armários com gavetas horizontais). Essas técnicas seguem critérios internacionais. “Cada vez mais estamos aprimorando, a questão da preservação do patrimônio nunca está parada.”

O museu tem uma média de visitação que varia de 17 a 18 mil por mês. A fotografia do acervo próprio é permitida desde quem sem o uso de flash. Mas, no caso de exposições temporárias, o museu precisa de uma declaração de autorização do proprietário para que as fotos sejam permitidas, caso contrário, elas são proibidas. Até o final deste mês, o uso de outros equipamentos como o “pau de selfie” não será permitido no museu por questões de segurança.

 

 

 

1 Opinião

  1. Áureo Ramos de Souza disse:

    Nos Museus não jorra petróleo, portanto não se preocupam em preserva-lo.

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