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INCLUSÃO

O desafio da educação dos surdos no Brasil

Os obstáculos de uma criança surda desde o diagnóstico até a entrada no Instituto Nacional de Educação de Surdos

O desafio da educação dos surdos no Brasil
Pierre França fez implante coclear em 2014 (Foto: Arquivo pessoal/Mardejan França)

Em 2011, Mardejan França deu à luz a Pierre numa maternidade pública, em Madureira, zona norte do Rio de Janeiro. Mãe e filho ficaram esperando para fazer o teste da orelhinha, que examina a audição da criança. Desde 2010, hospitais e maternidades têm de fazer o exame gratuitamente nos bebês que ali nasceram. No entanto, por um descaso da fonoaudióloga do hospital, Pierre não fez o exame naquele dia. Ela pediu que a mãe retornasse com o bebê na semana seguinte. Como ele tinha nascido sem complicações no parto, Mardejan não voltou para fazer o exame devido à vida complicada de mãe solo (quando as responsabilidades de pai e mãe não são divididas e fica a cargo apenas da mãe).

Aos sete meses, Pierre não olhava quando Mardejan o chamava. Ele era muito observador e não se incomodava com barulho nenhum, nem com música alta. Para bancar os dois, Mardejan trabalhava muito e contava com a ajuda de amigas para levá-lo ao médico. Depois de muito tempo esperando, ela conseguiu uma consulta com um otorrinolaringologista pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na ocasião, o médico fez uma limpeza no ouvido dele, dizendo que este era o problema. No entanto, o procedimento não deu resultado, já que o menino continuou não olhando ao ser chamado.

Aos dois anos, o pequeno Pierre ganhou um plano de saúde. Na época, apesar da burocracia, ele passou por uma bateria de exames, que durou quase um ano. Um deles confirmou que o que Pierre tinha era surdez bilateral profunda. Até então, a comunicação entre mãe e filho ocorria a partir de mímicas.

Pierre e Mardejan França (Foto: Arquivo pessoal/Mardejan França)

Em janeiro de 2014, Pierre fez um implante coclear, no qual uma prótese é colocada na parte interna do ouvido em uma cirurgia e outra é presa ao redor da orelha. “Com o implante, a gente tem a ilusão de que a criança é uma ouvinte, o que não é o caso. Nunca tive problema em ter um filho surdo, a única coisa que me preocupava era a maldade alheia, a maldade da sociedade, o que ele poderia vir a sofrer”, afirma Mardejan, em entrevista ao Opinião e Notícia.

O implante quebrou várias vezes e Pierre nem sempre queria usá-lo. Mardejan passou a explicar para o filho que o implante é uma espécie de “super poder” que ele pode usar quando quiser ouvir. O menino gostou da ideia. Mas a mãe ressalta que foi muito importante o implante ter quebrado, para desmistificar a ideia de que é um “milagre”.

A importância da Língua Brasileira de Sinais

Pierre passou por várias escolas públicas de ouvintes, onde foi alvo de muita exclusão. Entre os vários episódios, ficou em sala sem interagir com ninguém e já foi impedido de assistir aula por falta de intérprete na escola. A situação mudou quando ele foi para o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), em Laranjeiras, onde se adaptou e está aprendendo a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A diretora do Colégio de Aplicação (CAp-INES) e do Departamento de Educação Básica do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), Amanda Ribeiro, conta que a comunidade surda enfrentou ao longo da história diversos estigmas e preconceitos. “Não raramente a pessoa surda era segregada do convívio familiar e social, enclausurada muitas vezes em instituições psiquiátricas. Ainda hoje é grande o número de surdos que não frequentam os bancos escolares, restringido sua existência aos afazeres domésticos, utilizando para a comunicação cotidiana sinais caseiros combinados com seus familiares. Muitos desconhecem, inclusive, que a denominação ‘surdo-mudo’ já não deveria mais ser usada, uma vez que a pessoa surda não necessariamente terá incapacidade de falar”, explica.

Instituto Nacional de Educação de Surdos (Foto: Divulgação)

O Colégio de Aplicação do INES recebe apenas alunos com surdez profunda bilateral comprovada por laudo audiológico. “Atualmente atendemos a cerca de 450 alunos, só na educação básica. Além desse público, o INES realiza capacitação de profissionais de diversas áreas com o Curso de Libras, assessorias técnicas às redes de todo o Brasil, cursos de extensão, além da graduação e pós-graduação na área de Pedagogia Bilíngue, tanto presencial quanto a distância. Tanto no Curso de Libras, que é aberto à comunidade, quanto no curso superior, é aceita a entrada de alunos surdos e ouvintes”, diz.

Hoje, aos sete anos, Pierre ajuda a mãe a aprender Libras, já que ela ainda não conseguiu fazer o curso formal. Ela conta que optou por uma escola de surdos em vez de uma de ouvinte, porque já não aguentava mais a exclusão do filho, mas ressalta a importância do acesso à educação. “Eu acho que todo mundo tem direito à educação, eu já morei em Campos de Goytacazes, lá não tem escola de surdos. Não é uma coisa simples, não tem escola de surdos em qualquer lugar, mas tem escola de ouvintes em qualquer esquina. Claro que qualquer escola deveria ter um suporte eficiente no geral”, comenta.

Mardejan e Pierre moram numa favela em Laranjeiras, perto da escola. Mas a mãe conta que muitos alunos do instituto moram bem longe e não têm como se mudar. “Tem muita gente que mora longe, vem todo dia de Magé, Maricá, Queimados. Eu admiro muito essas pessoas, a maioria dos pais são muito humildes”. Para piorar, muitas famílias não sabem Libras, o que “cria um abismo gigantesco entre pais e filhos”. Para ela, todo mundo deveria aprender a língua na escola, não só os surdos. Afinal de contas, a Língua Brasileira de Sinais é reconhecida desde 2002 como oficial no Brasil.

Segundo Amanda Ribeiro, o ideal é que a criança comece a ser estimulada em Libras assim que a surdez for diagnosticada. “É preciso entender que a aquisição da língua funciona para o bebê surdo da mesma maneira que um bebê ouvinte aprende a falar. Como o desenvolvimento linguístico acompanha o cognitivo, o quanto antes a criança tiver uma língua estruturada, tanto melhor para seu desenvolvimento global”, explica.

As políticas públicas vêm evoluindo, embora ainda haja muitos obstáculos. “Apesar de todo o desconhecimento e preconceitos, é na Constituição Brasileira que a comunidade surda encontra base legal para suas reivindicações, sobretudo para a criação de políticas públicas exclusivas para surdos. Como fruto de mobilização por seus direitos, conseguiu, em 2002, o reconhecimento oficial da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio legal de comunicação e expressão das pessoas surdas (Lei nº 10.436/2002), bem como o direito a um ensino bilíngue regulamentado pelo Decreto nº 5.626/2005 e o reconhecimento da atividade de Tradutor Intérprete de Língua de Sinais, em 2010”, explica Amanda.

O ensino bilíngue de Libras e Português

De acordo com a diretora do CAp-INES, a proposta de educação bilíngue para surdos pode ser aplicada tanto em escolas especiais para surdos, quanto em escolas inclusivas (escolas de ouvintes que recebem os surdos em classes regulares, podendo ou não haver atendimento em classes especializadas). “Em ambos os espaços, o que se devem considerar são as especificidades linguísticas do estudante surdo, com a acessibilidade necessária para atendê-lo. O ensino bilíngue prevê o direito de instrução do surdo em sua primeira língua (Libras), sendo a língua portuguesa ensinada como segunda língua na modalidade escrita. Além disso, a proposta pedagógica deve considerar a especificidade do surdo com relação ao aprendizado pautado em aspectos eminentemente visuais. A presença de professores proficientes em Libras e/ou tradutores-intérpretes também se faz imprescindível, assim como materiais didáticos com foco no ensino para surdos”, diz Amanda.

Entre os obstáculos para o avanço das políticas públicas, ela destaca: “o diagnóstico tardio da surdez, que dificulta o desenvolvimento cognitivo de crianças surdas nas etapas adequadas ao seu desenvolvimento; a falta de informação quanto às possibilidades de acompanhamento educacional dessa criança; a carência de acesso a escolas ou classes especializadas na oferta do ensino bilíngue para surdos; e a escassez de recursos humanos e materiais nas classes inclusivas, onde nem sempre há capacitação da equipe docente, material pedagógico adequado ou tradutores-intérpretes de Libras disponíveis para o atendimento educacional necessário”.

Em nota ao Opinião e Notícia, a Secretaria Municipal de Educação informou que todas as unidades da rede estão aptas para atender alunos surdos e/ou com deficiência auditiva. “A Secretaria Municipal de Educação, por meio do Instituto Municipal Helena Antipoff (IHA), referência na Educação Inclusiva, vem projetando uma política educacional de implementação da proposta bilíngue (Língua Brasileira de Sinais – Libras e Língua Portuguesa). O aluno surdo e/ou com deficiência auditiva conta com uma rede de apoio composta de: Tradutor Intérprete de Libras-Língua Portuguesa (TILSP) e Professor de Atendimento Educacional Especializado (AEE), que o atende no contraturno na Sala de Recursos. Neste espaço, há a presença de um profissional surdo para desenvolver o aprendizado da língua de sinais, da língua de instrução e da língua portuguesa, considerada a sua segunda língua. Hoje, há cerca de 670 alunos surdos e/ou com deficiência auditiva matriculados na rede”, diz a nota.

A esperança é que todas as 9,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva que existem no Brasil, segundo o Censo de 2010 realizado pelo IBGE, tenham a oportunidade de estudar num ambiente adequado, e que a história do pequeno Pierre seja apenas uma entre muitas de sucesso.

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3 Opiniões

  1. Vandith Vieira disse:

    Sou professora e conheço o Pierre. Pierre é um menino alegre, simpático, inteligente e encantador. Possui um carisma como poucos. É um verdadeiro cavalheiro. Quer sempre nos ajudar se estamos carregando peso.Ele brinca, interage com os outros, faz piadas( ao seu modo) e não rejeita uma pizza.Esta criança nos ensina que superar desafios e vencer obstáculos não é tarefa fácil, mas tambêm não é impossível.Amamos o Pierre e a cada conquista dele vibramos e torcemos para que ele vença mais a cada dia .

  2. GISELA ALVES disse:

    ESSA MULHER, MÃE E TRABALHADORA É O RETRATO DE MUITAS MULHERES NO BRASIL E NO MUNDO QUE
    ACABAM TENDO QUE ARCAR COM TODA A RESPONSABILIDADE, MUITAS VEZES SEM O APOIO DA FAMÍLIA E DO PAI DA CRIANÇA, SÃO MÃES E PAIS OU MESMO TEMPO. INFELIZMENTE, HÁ AINDA MUITO JULGAMENTO DE PRECONCEITO NA NOSSA SOCIEDADE, ENTRETENDO SÃO RELATOS COMO ESTE DE BUSCA E SUPERAÇÃO, QUE RENOVA A ESPERANÇA DE UM MUNDO MAIS HUMANO E COM MAIS RESPEITO A DIVERSIDADE HUMANA.

  3. mauro disse:

    Olá, meu nome é mauro, eu gostaria de saber se vocês poderiam fazer uma matéria que mostrasse o fim da Cil – centro de interpretação de libras, aqui na cidade de queimados, no rio de janeiro.
    No ano de 2015 foi inaugurada a central, e muito foi noticiado sobre; contudo, o seu fim foi silencioso e imperceptível.
    A cil queimados era a única no estado do rio de janeiro, e isso prejudicou muito a vida dos surdos da região, que sem o serviço ficam impossibilitados de se comunicar nos órgão públicos da cidade.
    Surdos que nascem ou que vão morar na cidade precisam peregrinar para outras cidades para terem sua educação.
    Entrei em contato com o secretário de educação, que disse abraçar a inclusão social na cidade, ele disse apenas que com relação à educação o município possui intérpretes; mas na verdade o que eu pude ver que a realidade é diferente.
    Há sim interprete para auxiliar na escola leopoldo machado, no centro de queimados, mas apenas um.
    o ideal com respeito à educação é o ensino básico possuir a matéria fixa.
    Quanto ao fechamento da central, ninguém se pronunciou.
    Queimados é lembrada quase sempre pela dificuldade que a prefeitura tem de manter convênios com ongs que ajudam a cidade, como é o caso do antigo CECAMAM, hoje chamado IENSA

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