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O desequilíbrio do pêndulo do câmbio

O 'valorizado' ou 'desvalorizado' se referem à misteriosa fórmula secreta revelada apenas aos ministros da Fazenda

O desequilíbrio do pêndulo do câmbio
Comentários sobre a taxa de câmbio sempre se referem a um câmbio hipoteticamente certo (Reprodução/Internet)

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O ministro da fazenda afirmou na semana passada que o câmbio no país “esteve muito valorizado” afirmando ainda que a taxa de câmbio de 22 de março a R$ 2,01 “é mais competitiva e estimula o setor de manufaturados”.

Os comentários sobre a taxa de câmbio sempre se referem a um câmbio hipoteticamente certo, ou seja, em algum lugar do planeta estaria a fórmula secreta que deve ter sido revelada somente aos ministros da fazenda; assim, o “valorizado” ou “desvalorizado” se referem a este mistério.

A política econômica que prevaleceu na segunda metade da década de 1960 e que veio predominando até o Plano Real, era de que a taxa era continuamente reajustada segundo a inflação brasileira, descontada a inflação americana. Assim, na época do império da correção monetária, os preços eram reajustados basicamente seguindo esta dinâmica e o câmbio assim seguia, como o preço geral dos importados. Se continuássemos neste sistema, de janeiro de 1999 até fevereiro de 2013 o câmbio precisaria ser reajustado pelo IPCA em 147%, ou seja, teríamos a divisa valendo R$ 4,95 hoje.

De outra forma, havia sempre a questão da taxa de juros no Brasil ser positiva, isto é, acima da inflação, de modo a atrair capitais – ou evitar sua fuga – para equilibrar as reservas brasileiras; o custo destes juros mais altos, naturalmente, era descarregado no orçamento fiscal, em que você, leitor, tanto participa, sendo sempre chamado quando há faltas.

No Plano Real perdurou a feitiçaria do câmbio abaixo da paridade, ou seja, US$ 1,00 era convertido inicialmente a R$ 0,83 centavos: numa contabilidade rápida, todos estavam mais afortunados em dólar. Este patamar foi mantido por longo tempo, subindo gradualmente até R$ 1,22 em 1998, às vésperas do segundo mandato do então presidente. Todos os importados estavam muito baratos, e viajar a Disneyworld era mais barato do que um fim de semana em Cambuquira.

Em janeiro de 1999, não dando para segurar mais a barragem, o câmbio salta dos R$ 1,22 para R$ 2,00, dando um sobressalto na economia. Quatorze anos depois, a taxa de cambio desta semana está no mesmo patamar e há filas de jovens gestantes viajando para Miami para comprar o enxoval do futuro bebê, para ficar nas mesmas imagens mais próximas.

Muitos devem pensar que, pela teoria, o câmbio deveria se equilibrar somente pelo comércio exterior: caso as importações subissem muito e as exportações caíssem, haveria mais demanda pelo dólar, que faria a cotação subir e por consequência as importações cairiam. Porém estes analistas apressados se esquecem de considerar que, para contrabalançar, há a conta de capitais, as remessas de investimentos do exterior, seja para capital fixo ou para especulação para fazer a chamada arbitragem, isto é, ganhar juros em real mais altos e depois transferi-los com ganho de volta para os países de origem.

A partir do início da década de 2000, o fenômeno do grande crescimento da China fez aumentar bruscamente as exportações de commodities brasileiras e, assim, as reservas brasileiras sob controle do governo subiram para a estratosfera (US$377 bilhões em fevereiro 2013, para uma dívida de US$316 bilhões, estamos confortavemente credores de US$ 61 bilhões). Observa-se que esta política de altas reservas é um custo para o pais, pois os juros da dívida são mais altos do que os juros dos dólares aplicados; dirá o governo que é o custo da tranquilidade.

O volume de reservas dá um poder inédito ao governo de interferir politicamente na taxa de câmbio, como agora vem acontecendo, para diminuir o custo das importações, por sua vez tentando com intuitos políticos – a reeleição em 2014.

Se analisarmos a evolução do saldo comercial brasileiro, como a seguir, é fácil perceber que nos últimos meses as importações avançam em ritmo maior do que as exportações, com danos para nossa competitividade industrial, também afogada no custo Brasil da infraestrutura precária.

É alarmante o aumento de gastos de brasileiros no exterior, tendo atingido US$ 2,3 bilhões em janeiro deste ano, o maior patamar da história (desde quando o Banco Central passou a registrar os dados em 1947).

Desta forma, o retorno deste equilíbrio de comércio exterior e serviços (viagens incluídas) é afetado pelo poder das altas reservas no exterior e grande entrada de capitais, mas em algum momento a indústria brasileira – que perde competitividade com os importados – ou reclama fortemente ou simplesmente vai desaparecendo.

As estimativas do mercado, divulgadas pela pesquisa do Banco Central, apontam que o saldo da balança comercial continuará baixo em 2013 e 2014, nada muito além de US$ 13 bilhões (como já está mostrando o gráfico acima); juntando os serviços, ficaremos negativos em US$ 65 bilhões em 2013 e US$ 70,5 bilhões em 2014, tudo resolvido pelos investimentos diretos estrangeiros, positivos em R$ 60 bilhões por ano; com esta entradas e saídas a previsão da taxa de câmbio é ficar no mesmo patamar de R$ 2,00/2,02, tal com quer o ministro da fazenda. Em outras épocas, dá para imaginar o corre-corre se o Brasil não tivesse um valor tão expressivo de investimentos diretos, o movimento do pêndulo do câmbio teria de seguir as exportações e importações e nossa propensão a viajar para o exterior.

Para o economista apressado, decidir pelas férias em Cambuquira, pela questão de distância, deveria ser mais natural que o passeio em Orlando, porém o pêndulo do câmbio tem seu curso de equilíbrio afetado mais pela entrada de capitais do que pelo movimento do comércio exterior e dos serviços.

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2 Opiniões

  1. Carlos Marques disse:

    Na verdade o ministro não quer saber da situação da indústria embora os desempregados – que de forma espantosa são poucos – também votam; tudo para controlar a inflação para reeleger Dilma Poste, digo Rousseff. 20 anos de PT, quem diria, nada a comemorar.

  2. helo disse:

    Carlos, o número pequeno de desempregados é realmente espantoso. Me parece ter sido uma criação pra agradar o governo, a indústria e sobretudo os eleitores.

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