Início » Brasil » O ensino deve ser remodelado?
TENDÊNCIAS E DEBATES

O ensino deve ser remodelado?

Uma das coordenadoras de um projeto paulista e a gerente educacional da capital da Finlândia contam ao O&N um pouco sobre propostas inovadoras em educação

O ensino deve ser remodelado?
O modelo convencional é o melhor caminho para a aprendizagem? (Foto: Pixabay)

Provas, alunos sentados em fileiras e professor no quadro: este é um cenário comum nas escolas brasileiras. Mas será este o melhor caminho para a aprendizagem? Um projeto em São Paulo desafia o convencional e usa práticas inovadoras para ensinar os alunos, enquanto isso, a Finlândia, modelo internacional em educação, começa a repensar a metodologia de ensino.

Na cidade de Cotia, em São Paulo, a Escola Projeto Âncora reúne alunos de diferentes idades em espaços de aprendizagem, que podem ser salas, o banco debaixo da árvore ou até mesmo o refeitório. Ou seja, não há séries como no sistema educacional convencional. O professor José Pacheco, fundador da Escola da Ponte de Portugal, referência mundial em educação, é o mentor da escola. “Nós não somos uma cópia da Ponte, porque somos outras pessoas em outra localidade com outras necessidades. Mas a Ponte é uma referência muito grande, primeiro porque ela mostra que é possível, e segundo porque nós acreditamos em toda a filosofia que ela traz”, explica Claudia Duarte, uma das cordenadoras do projeto.

O projeto conta com três núcleos de aprendizagem: iniciação, desenvolvimento e aprofundamento. Qualquer criança que chegue ao projeto, independente da idade que ela tenha, vai para a iniciação, porque é lá que vai aprender os princípios do projeto. “É uma fase mais direcionada até que ela possa atingir um nível de autonomia”, explica.

metodo

Metodologia da escola (Reprodução/Escola Projeto Âncora)

Metodologia da escola

A coordenadora explica que como há crianças que já sabem ler com 4, 5 anos, também há aquelas de 9 e 10 que não sabem. “Na vida, as pessoas são de idades diferentes e elas aprendem juntas. Então, na realidade, não deveria existir nenhuma surpresa quanto a isso”, diz. Portanto, uma criança mais nova pode sim ensinar a uma mais velha, não só em relações a conteúdos, mas em questões de atitude e relações humanas. “Em grandes trocas entre crianças de diferentes idades, a aprendizagem se amplia. São educadores reconhecidos que dizem isso, é uma questão científica, mas a gente comprova isso dia após dia.” O adulto, por sua vez, seja o educador ou a família, também faz parte da aprendizagem. As crianças ficam nos espaços de aprendizagem com um grupo de educadores, que tem toda uma bagagem para fazer mediação pedagógica.

a1

Educandos na escola (Foto: Ana Alcantara/Projeto Âncora)

“Se um menino briga com o outro, no lugar de eu chegar e falar ‘isso está errado, pede desculpas’, nós sentamos e vamos fazer uma mediação pedagógica. Eu vou perguntar o que foi que aconteceu e as crianças vão querer falar juntas. Mas o educador vai explicar que tem uma coisa chamada respeito e que cada um vai ter seu tempo de falar. Então, como mediadora, eu estou garantindo que cada um respeite o momento de fala do outro. Quando a criança começa a falar, ela normalmente olha para o adulto, aí a entra outra mediação, que é o educador falar ‘seu problema é com ele, olhe nos olhos dele e fale com ele’”, explica.

As crianças definem seus interesses e juntamente com seus tutores organizam seu roteiro de estudos quinzenal. Todo dia quando elas chegam, elas organizam o planejamento do seu dia, baseado nos roteiros. Depois elas voltam para tutor, que vai avaliar o que elas cumpriram ou deixaram de cumprir. Ele também vai ver o que elas aprenderam e se precisam de mais ajuda, além de fazer orientações do que mais elas devem procurar. “A criança pode estar fazendo um projeto sobre plantas medicinais e ali estudar ciências, geografia, matemática… As áreas de conhecimento vão aparecendo e vão sendo apontadas pelo tutor para que a criança perceba que todas essas coisas fazem sentido, mas não como blocos que ela vai decorar e depois esquecer.”

imgedjpg

Educando reunidos (Ana Alcantara/Projeto Âncora)

A avaliação na escola é constante. “A gente acha que prova não prova nada, a prova só traz uma coisa chamada desonestidade. A criança aprende a ludibriar, a tentar enganar, a colar. Nós buscamos que ela se encante pela sua própria busca pelo conhecimento, o que não quer dizer que ela não faça atividades escritas.” Cada educador é tutor de um grupo de em média 15 crianças. “Se eu não for tutora de uma criança e ela estiver precisando de ajuda, eu vou ajudá-la, eu não vou falar ‘vai com seu tutor’.”

Segundo Marsyl Bulkool Mettrau, professora do programa de Mestrado em Psicologia Social da Universidade Salgado de Oliveira, em Niterói, e membro da Associação Brasileira de Educação, o auxílio ao desenvolvimento dos alunos, a autocrítica deles e suas escolhas e decisões sobre os temas são os pontos positivos do projeto. Além disso, para ela, a mediação realizada pelos professores é uma orientação didática oportuna e adequada para todo o grupo da aprendizagem. “É uma proposta interessante, pois como está hoje em dia: não dá mais!”, diz.

A Escola Projeto Âncora existe há três anos e meio e faz parte da ONG Projeto Âncora, que já existe há 20. Para a ONG, há alguns critérios para as crianças participarem do projeto: elas têm que vir de famílias que tenham uma renda de até três salários mínimos e devem morar num raio de 3 km do espaço. “As crianças podem entrar aqui aos três anos de idade e ficar até o equivalente ao final do fundamental 2 e nós estamos organizando o equivalente ao ensino médio, mas ainda não começamos.”

Mas será que uma proposta como essa seria capaz de tornar um educando apto a fazer uma prova como o Enem? Segundo a coordenadora, sim. “Nós temos muitas crianças aqui que ainda estão no equivalente ao fundamental 1 que já dominam conteúdos do ensino médio. Não temos ainda estaticamente uma amostragem, porque nós começamos o projeto recentemente, mas pelos resultados que temos avaliado aqui, essas crianças vão além.”

Aprendendo com a Finlândia

A Finlândia é um país modelo em educação e está no topo da avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, em inglês) desde 2000. O estudo é uma iniciativa de avaliação comparada, que ocorre de três em três anos, aplicada a estudantes na faixa dos 15 anos. O programa é desenvolvido e coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Segundo a gerente educacional da capital Helsínquia, Marjo Kyllönen, o sistema educacional finlandês é muito igualitário e a diferença no desempenho dos alunos é a menor entre os países da OCDE. “Independente de onde você viva, você pode ter um ensino de alta qualidade”, diz.

A inovação no ensino

O país tem um currículo educacional nacional com os objetivos e conteúdos de cada disciplina, no entanto, as autoridades locais podem decidir a abordagem de ensino. Em Helsínquia, a metodologia chamada de Phenomena- based learning é o carro-chefe de uma mudança educacional, segundo Marjo. A metodologia consiste nos alunos estudando de forma colaborativa, lidando com problemas reais e fenômenos mundiais. O processo integra habilidades, objetivos e conteúdos de múltiplas disciplinas, conectando a sociedade. “A longo prazo, acreditamos que esta abordagem vai mudar toda a mentalidade de ensino. Isto não significa que nós não ensinamos aos alunos os conceitos básicos das diferentes disciplinas, mas a abordagem é diferente. Phenomena learning é um exemplo prático de como ajustar a sala de aula e redesenhar a educação para o futuro”, explica.

classroom

Exemplo de sala de aula na Finlândia (Foto: Marjo Kyllönen)

Portanto, mais de um professor de diferentes disciplinas podem estar presentes em uma aula sobre um determinado assunto. “Nós temos esse modelo de co-ensino em todas as escolas, mas não em todas as aulas. Quando o professor planeja, ensina e avalia junto com outro, os alunos se beneficiam com uma abordagem profissional múltipla, em vez de um único professor tentando resolver todas as questões e desafios em sala.” Além disso, a arrumação da sala de aula também conta. A ideia é que, a longo prazo, seja possível se livrar das carteiras tradicionais.

Segundo Marsyl Bulkool Mettrau, o ponto positivo da proposta é a formação dos professores para atingir esta etapa de conhecimento nas aulas. “Serão necessárias muitos encontros e discussões para tal proposta ser realizada.” O desafio seria a alteração da zona de conforto dos professores, mas segundo a professora, a proposta é válida.

A profissão de professor é altamente valorizada no país. Segundo Marjo, todos os professores tem mestrado, inclusive professores de ensino fundamental 1. “Nós confiamos em nossos professores. E eu acredito que isso também reflita nos estudantes.”

Ela diz que o sistema educacional atual foi projetado para as necessidades da sociedade da era industrial, e que agora é preciso reprojetar a educação para as competências necessárias para o futuro (as habilidades do século XXI). “Nós entedemos que não podemos continuar da mesma forma que fazíamos antes. O mundo está mudando e nós precisamos remodelar nossa escola e suas práticas. Nosso ambiente está muito mais complexo e multicultural do que nunca.” Para ela, as mudanças acontecem mais rápido nas capitais, e Helsínquia quer ser a capital líder em educação. “Nós queremos aprender a sermos significativos para os alunos, o que deve ser divertido e motivacional, além de ser integrado com a vida real. Nós estamos enfatizando a importância do aprendizado em vez da do ensino.”

Mas, segundo a gerente educacional, isso não deve acontecer apenas na Finlândia, mas em todo o mundo. “Eu acredito fortemente que para as sociedades terem sucesso no futuro, nós devemos repensar mundialmente no que as escolas significam.”

Portanto, a lição que a gerente acredita que o sistema educacional finlandês pode ensinar ao resto do mundo é como renovar a educação para que ela realmente proporcione as competências necessárias para o futuro, além da bravura de fazer as coisas de forma diferente.

 

Caro leitor,

O que acha das propostas inovadoras? A educação deve ser remodelada de acordo com o tempo?

 

 

 

 

 

 

10 Opiniões

  1. mariana santino disse:

    Nos, estudantes, não temos o interesse em estudar, ficamos preso em um modelo de ensino que não corresponde as nossas necessidades, que não desperta de forma alguma o interesse em estudar e ainda precisamos fazer uma revisão geral durante um ano para prestar os vestibulares que se chama cursinho, o que mais uma vez prova que a educação não funciona. Não aprendemos, copiamos, e de forma alguma sabemos agir em sociedade quando saímos, da escola. Não desenvolvemos senso critico, e não respeitamos o nosso meio-ambiente. Isso são pequenas provas de que os modelos utilizados nas escolas tanto publicas quanto particulares não funciona. Acredito que são projetos assim que vão funcionar e criar verdadeiros cidadãos no Brasil e no mundo.

    Mariana Santino, estudante da Escola Projeto Ancora, 12 anos

  2. Afrânio Dantas disse:

    Acho tudo isso uma grande bobagem. Qualquer escola é boa se a pessoa quer aprender; se ela não quer, não tem professor que de jeito.

  3. André Luiz D. Queiroz disse:

    Como dito em alguns dos mentários anteriores, há muito ‘modismo’, muita teoria, muita ideologia e pouco foco no que realmente interessa: que os alunos ‘aprendam’! Exemplo: ““Se um menino briga com o outro, no lugar de eu chegar e falar ‘isso está errado, pede desculpas’, nós sentamos e vamos fazer uma mediação pedagógica.” — “mediação pedagógica” ?! Peraí, qual é o papel primordial do docente? Eu entendo que seja ensinar a disciplina escolar de sua especialidade! Educar (em termos de modos, valores, civilidade) é papel da família, e é errado transferir essa responsabilidade para a escola! Se for por aí, novamente o ensino brasileiro irá pela esparrela de doutrinação ideológica ao invés de focar no aprendizado das disciplinas básicas (matemática e português). Continuaremos gastando muitos recurso público para formar apenas semianalfabetos e analfabetos funcionais, com pouca qualificação profissional, e nenhum senso crítico da realidade que os cerca…! Continuaremos condenando as gerações futuras ao atraso…!

  4. Joma Bastos disse:

    Há que reestruturar o Ensino Educacional! A Finlândia é uma excelente base de apoio, com a finalidade de criar um sistema de ensino suficientemente bom para desenvolver esta Nação.

  5. Áureo Ramos de Souza disse:

    Primeiro quem ganha no Brasil 3 salários minimo que é R$ 2.364.00 e os que só ganham um salário de R$788.00 onde fica e os pais não participam em nada de tudo que foi escrito acima. Acredito que a presença dos pais seria também primordial ao menos 4 vezes por ano.

  6. Wliana disse:

    Acredito que a proposta é boa mas, enquanto o a educação não se desvincular da política não vai para frente. Quando digo desvincular da política quero dizer deixar de politicagem. Cada Governo quer deixar sua marca. Sendo assim, cada mandato novos projetos são impostos. Basta estudar um pouco a história para ver. Lembram se do Mobral, projeto IPE, escola integral, Escola de tempo Integral, Escola Padrão, escola seriada, escola por ciclo e progressão “automatica”, classe de recuperação ciclo classe de aceleração, etc …

  7. Vitafer disse:

    O novo é sempre assustador. Mas a situação do ensino, no Brasil, é precária, vergonhosa.

  8. helo disse:

    Existem várias propostas novas de ensino por aqui e pelo mundo, muitas já com bons resultados. São métodos novos de ensino para se combater o atual tédio experimentado pelos alunos nas escolas. Entretanto o conteúdo das disciplinas não pode servir a ideologias quaisquer que elas sejam. Infelizmente 80 anos depois ainda existem quem questione o ensino público laico. Talvez com atrasos e avanços possamos atingir uma escola atraente e inclusiva. Mudanças sempre causam desconforto inicial entre alguns pais e mestres. Quando o resultado de um novo método se mostrar bom, sem ferir os conteúdos fundamentais, ele acabará por se impor.

  9. Ana Alcantara disse:

    Praticamos uma educação do séc 19, com profissionais do séc 20 para humanos do séc 21. A defasagem do sistema de ensino está em todos os poros da sociedade. Apenas com esta renovação teremos um verdadeiro Desenvolvimento Social.

  10. Braziliano disse:

    Com relação a essa miríade de “métodos pedagógicos” o que preocupa é a falta de compromisso com os INTERESSES NACIONAIS de um país.
    :::
    Ficamos focados em casos de corrupção e esquecemos de vigiar outras formas de fragilizar as nações e por consequência as suas populações. Ex. O continente africano. Seremos o próximos!?
    :::
    Dominaram o meio acadêmico, que de fonte de conhecimento e debate, foi transformado em centro de produção de radicalismos ideológicos internacionalistas e quejandos. Estatísticas são manipuladas se necessário para corroborar a teoria proposta. Exemplos contrários são ignorados e/ou minimizados, quando não escarnecidos sem cerimônia.
    :::
    Como exemplo, experimente falar de “homeschooling” para essa turma de “ishpecialistas” pedagógicos. Se te chamarem de direitista é pouco.
    :::
    Temos que nos libertar desse condicionamento mental de acatar feito “cordeirinhos” todas as teorias criadas por essas pessoas, que sem a menor cerimônia, escarnecem de métodos que há séculos vem sendo utilizados. Acreditamos sem contestar, em modismos passageiros, cujos danos, vão sendo acumulados e já estão “fazendo água”. Mas na nossa cegueira, não reagimos a eles.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *