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EMPREENDEDORISMO

O ônibus-balada não se move pela força do querer

Comercial da nova maquininha de crédito e débito do Banco Santander cita a crise, o desemprego e garante: 'Essa é a sua nova carteira de trabalho!'

O ônibus-balada não se move pela força do querer
Seis em cada dez novas empresas fecham ainda nos primeiros anos de atividade (Foto: Santander)

Na noite do último 27 de julho o banco Santander uniu uma ação de merchandising em uma novela da Rede Globo exibida em horário nobre, “A Força do Querer”, com um comercial que entraria no ar na sequência da cena com product placement, exibida imediatamente antes do break. O site Meios e Mensagens, especializado em mercado publicitário, contou em primeira mão como tudo iria acontecer, em matéria publicada poucas horas antes da ação que visava promover a nova maquininha de débito e crédito da GetNet, empresa de captura e processamento de transações eletrônicas comprada há poucos anos por pouco mais de R$ 1 bilhão pela subsidiária brasileira do banco espanhol:

“Na cena, o personagem Guto (interpretado pelo ator Antonio Carlos Santana) conversará com Zeca (personagem do ator Marco Pigossi) sobre a importância de ter a máquina para receber pagamentos com cartão em seu ônibus-balada. O personagem ainda irá descrever as facilidades para solicitar a Vermelhinha”.

“Assim que o break comercial começar, entrará no ar a nova campanha do banco, que destaca como as iniciativas empreendedoras estão se sobrepondo aos empregos formais e como a máquina da Getnet pode ajudar as pessoas nesse contexto. A locução do comercial será feita pelo próprio ator Antonio Carlos Santana, que protagonizou o merchandising”.

Dizia assim a locução do comercial que desse modo foi ao ar pela primeira vez: “pode ser por vocação sua, ou culpa da crise. Pode ser por causa de um empurrãozinho, ou uma puxada de tapete. Fato é: você virou empreendedor”. Acompanhando as palavras de Guto, o bem-sucedido dono do ônibus-balada, as imagens iam mostrando várias carteiras de trabalho sendo arremessadas em profusão para dentro de gavetas de móveis lúgubres, além de uma implacável carimbada da palavra “demitido” em uma ficha de RH.

Momentos depois, tudo se ilumina e aparece um lindo criado-mudo em estilo provençal. Alguém abre a gaveta de cima, mostrando lá dentro a Vermelhinha do Santander. É quando a voz de Guto sacramenta: “Essa é a sua nova carteira de trabalho!”, não importando, diz o empreendedor da ficção, “o que te trouxe até aqui”.

Mas talvez importe, e muito, ao contrário do que promete a novilíngua do empreendedorismo, que não por acaso cada vez mais recorre ao discurso motivacional para continuar na crista da onda, não sem advertir, é verdade, e no melhor idioma “sebraês”, sobre o que é necessário ter em conta antes de abrir qualquer negócio, com tudo aquilo de definir público-alvo, reservar capital de giro, e, não menos importante, nada de entrar despreparado na selva inóspita onde seis em cada dez novas empresas fecham as portas ainda nos primeiros anos de atividade.

Caindo de paraquedas ou sem ele no próprio negócio

De fato, haja motivação para encontrar um público para chamar de alvo em um quadro de desemprego recorde e salários congelados, quando não depreciados; para levantar capital em um cenário de arrastada recessão em um país que tem o crédito entre os mais caros do planeta; e, quando se está no olho da rua, acossado pelas contas, pela geladeira e pelo fim do tempo de seguro-desemprego, haja tempo hábil e recursos o suficiente com que se armar do adequado e necessário know-how para matar um leão por dia no mundo dos negócios — para, afinal, esquecer de vez a carteira de trabalho, trocando-a pela maquininha.

Começar um negócio, por exemplo, como o de ônibus-balada, como o do Guto, pode requisitar, antes de se requisitar a Vermelhinha, um investimento inicial de até R$ 1 milhão, nada mal à luz da vida lá fora (das telas), onde sete em cada dez brasileiros não conseguem guardar sequer um real no fim do mês para, talvez, no futuro, se for o caso, atirar-se à empreitada de trazer para o Brasil e levar para o busão o luxo das limousines de aluguel de Las Vegas, quando, de repente, se vir engrossando as estatísticas do desemprego.

Pois no dia em que informou sobre o mais atualizado número de desempregados no Brasil, 13,3 milhões de “potenciais empreendedores”, o Jornal Hoje, programa de não-ficção da Rede Globo, mostrou o caso de uma mulher de 46 anos e que há oito trabalhava como gerente de uma mesma loja, até ser dispensada de repente e, ato contínuo, cair de paraquedas, como se diz, no mundo do empreendedorismo: Lucia Helena Magalhães da Luz resolveu fabricar t-shirts para vender, e contou à reportagem do Hoje como andavam as coisas na empresa:

“Não tenho a mesma vida que eu tinha antes, quando eu tinha carteira assinada, tudo estabilizado. Mas eu estou indo em busca disso. Anúncios que surgem, eu mando currículo. E sempre fazendo cursos, me aperfeiçoando, pra tentar novamente me inserir no mercado de trabalho. Não desisti”.

Por aqueles mesmos dias, no fim de agosto, foi inaugurada no Rio de Janeiro, às margens da lagoa Rodrigo de Freitas, uma filial da famosíssima casa de jazz novaiorquina Blue Note. O responsável pela empreitada é o carioca nascido na Suíça Luis Calainho, prodígio do empreendedorismo brasileiro que aos 11 anos de idade já tinha montado uma equipe de som que agitava as festinhas da rapeize. Ex-executivo da Brahma, ex-vice-presidente da Sony Music, ex-namorado de Angélica Huck, “da confortável cadeira de alto gestor de uma multinacional pulou sem paraquedas no próprio negócio”, que hoje é uma holding de mais de 10 empresas de entretenimento.

“Não importa o que te trouxe até aqui”? Talvez importe, e muito.

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1 Opinião

  1. Patricia disse:

    Lamento o ponto de vista do autor do artigo. Sou micro empresária a vida toda e acho que essa É SIM a saída para o brasil pouco qualificado. Se, nos últimos 13 anos o país tivesse investido na AUTONOMIA de seus cidadãos, não estaríamos todos tão desesperados por emprego. ENSINO TÉCNICO, INVESTIMENTO MACIÇO EM MICRO-EMPRESAS, TREINAMENTO EM GESTÃO, SUPORTE TÉCNICO, ETC. teria feito a revolução nesse país. Ao invés disso, se correu atrás do diploma universitário, porque só assim se ganha um salário “decente”, como se uma empresa precisasse de 200 engenheiros e 10 profissionais de nível médio!!! Esse país é uma piada e vai na contra mão do mundo. No Brasil apenas 25% dos jovens fazem curso técnico, enquanto no mundo desenvolvido esse número chega a 95%. Para mim, o dia que investirmos sério na AUTONOMIA dos cidadãos até o salário será melhor porque as empresas não terão tanta gente dependendo de EMPREGO. Somos empreendedores por natureza, nos viramos vendendo bolo, dando aula, fazendo consultoria, manutenção… deveríamos ser melhor preparados, só isso. A propaganda do Santander é fantástica, a melhor mensagem da crise até agora. A única que joga um pouco de otimismo no povo.

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