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ESTÔNIA

O ‘país inteligente’ que tem até residência digital

A maior 'democracia digital' do planeta é uma pequena República báltica que parece querer ir muito além da mera 'burocracia a distância'

O ‘país inteligente’ que tem até residência digital
A Estônia parece empenhada ir além da 'governança digital' (Foto: Flickr/Paulius)

Recentemente, quando o governo brasileiro lançou a versão eletrônica da Carteira Nacional de Habilitação, a Folha de S.Paulo enviou o repórter Diogo Bercito a Tallin, a cidade medieval mais preservada do mundo, posto que capital de um país em franca “disparada digital”, maior “smart country” do planeta: a pequena República da Estônia. E foi o enviado especial da Folha a Tallin quem muito bem ilustrou a natureza da vanguarda estoniana: “A Estônia colocou um ‘e’ na frente de quase tudo. O país transformou a polícia em e-polícia, a escola em e-escola e o cartório em e-cartório”.

A expressão “e-cartório”, porém, soa como coisa do século XX quando se tem conhecimento de que na Estônia já se colocou um “e” até mesmo na frente do nome de uma coalização governamental, a “e-minded”, e isso já há longínquos 16 anos, no primeiro do século XXI. Foi graças à coalização “e-minded”, aliás, que a Estônia realizou a primeira eleição geral com voto pela internet da história da humanidade, em 2007. Desde 2011 os estonianos podem votar para primeiro-ministro via smartphone.

Enquanto muitos países ainda estão pouco à vontade como uso de moedas digitais, como a bitcoin, a Estônia já pensa em lançar a sua própria, a “estcoin”. É também estoniano o internacionalmente celebrado programa “e-residency”: qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, pode hoje se tornar um residente da Estônia sem necessidade de morar lá, o que, por exemplo, permite a esse “residente-remoto” abrir uma empresa na União Europeia sem ser cidadão europeu.

Além do mais, quem, senão a Estônia, poderia inaugurar a era das “e-saias justas diplomáticas”? Em pleno exercício da Estônia na presidência da União Europeia (durante a qual o país pretende lançar as bases de um “mercado comum digital”), e no auge do imbróglio com o separatismo da Catalunha, surgiu a notícia, em meados de outubro, de que a Generalitat, o governo regional catalão, vinha há dois anos desenvolvendo em segredo, “em estreita colaboração com a Estônia”, um “Estado digital independente”, com um novo registro de pessoas e bens e possibilidade de cobrança de impostos à revelia do governo de Madri.

‘País inteligente’, mesmo

Mas a Estônia parece empenhada ir além da “governança digital”, essa expressão que em muitos lugares significa que o governo fica satisfeito e se julga conectado, por assim dizer, com o que há de mais avançado em tecnologia quando logra fazer menos atendimentos de balcão e mais processos remotos, numa espécie de “burocracia a distância”; o país báltico, ao contrário, parece avançar sob a compreensão de que colocar a tecnologia a serviço dos seus 1,3 milhão de cidadãos significa muito mais do que permitir-lhes pagar multas e impostos online.

Vem causando sensação nas redes sociais uma entrevista dada ao jornal El País por Conrad Wolfram, matemático formado pela Universidade de Cambridge e fundador da empresa Computer Based Math, que, como o próprio nome indica, tem como foco a reinvenção do ensino de matemática à luz da compreensão de que é necessário antes saber ler dados do que manejar números em equações complexas, o que, segundo ele defende, pode-se deixar a cargo da inteligência artificial que hoje está literalmente à mão de qualquer um, pelo menos na Estônia. E não por acaso foi com o governo da Estônia que Wolfram fechou uma parceria para desenvolver o projeto piloto da Computer Based Math em 10% das escolas públicas do país, com foco em probabilidade e estatística.

“Os matemáticos vão me odiar por dizer isto, mas antes da existência dos computadores a matemática não era muito útil no dia a dia, para a vida em geral. Como em qualquer campo em que se utilizam muitos dados, como a física, a biologia ou a saúde, a computação elevou a matemática a um novo patamar. Os problemas reais do século XXI só podem ser solucionados com o uso do computador, por isso ele deve entrar no sistema educacional como uma parte fundamental da disciplina de matemática. Não tem mais sentido que as crianças façam cálculos de equações de segundo grau em sala de aula; é preciso ensiná-las a interpretar os dados e a explorar a matemática em toda a sua utilidade”, disse Conrad Wolfram ao El País, ressaltando que, no último relatório PISA, a Estônia ultrapassou a Finlândia em matéria de excelência do ensino de ciências e matemática, tornando-se, nessas áreas, a mais nova referência internacional em Educação.

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4 Opiniões

  1. Jorge Hidalgo disse:

    parabéns ao seja lá quem for “Anedox Anedox”…pela tirada…e-presidente com e-moeda e, aproveitando, seja feliz independente a e-Catalunha…kkkkkkkkkkkk

  2. Anedox anedox disse:

    Queremos e-presidente. e-já!

  3. Markut disse:

    Caramba! O futuro chegou antes, na Estônia ?

  4. Marisa Motta disse:

    Ótimo artigo. Extremamente interessante.

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