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O poder do black

Meninas e mulheres falam sobre a luta contra o racismo e a aceitação do cabelo crespo

O poder do black
A estudante Zahra Fayola Dias decidiu manter o black power (Foto: Arquivo Pessoal)

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Zahra, Carolina e Neusa não se conhecem. Elas nem mesmo moram no mesmo estado. No entanto, as três já passaram por situações semelhantes, episódios de humilhação, fruto do racismo.

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As tranças da estudante e modelo (Foto: Agência Bravo Model)

Zahra adora tirar foto, frequentemente posta cliques nas redes sociais. Mas durante uma semana, a estudante e modelo de 17 anos, se viu sem vontade de aparecer. Por conta de um trabalho, ele teve que trocar as tranças que usava pelo black power. Ao aparecer na escola, ela não notou a movimentação estranha que ali ocorria. Assim que colegas perceberam a mudança de visual de Zahra, eles começaram a chamar a atenção de mais gente para “zoar” o cabelo dela. Um grupo se revoltou contra o preconceito e em pouco tempo a confusão já estava formada. A jovem conheceu de frente o racismo aos 17, mas muitos outros lutam contra esses episódios bem mais cedo. Ela chorou, passou mal e não queria mais aparecer em fotos. Durante uma semana, achou que a causa disso era o cabelo novo, pensou em mudar, mas desistiu da ideia com tanto apoio que recebeu.

Depois do episódio, Zahra Fayola Dias, que é de Nova Iguaçu, contou com muito apoio da família e dos amigos, recebeu cerca de 270 solicitações de amizade no Facebook de pessoas que ficaram sabendo do caso, e uma quantidade enorme de textos em solidariedade. “Foi um momento que eu vi que eu não estava sozinha”, conta.

A estudante disse que apesar do episódio ter sido duro, ele serviu para que ela amadurecesse. “Por que eu tenho que ser o que a sociedade quer que eu seja, por que eu preciso usar cabelo liso para ser aceita? Por que quando eu uso meu cabelo, tem gente que ri de mim? Eu não sou diferente de ninguém”, diz. “Foi um aprendizado pra mim, me fortaleceu, e me ensinou a me aceitar também.”

Carolina tem nove anos e mora em Divinópolis, Minas Gerais. Mesmo com a pouca idade, ela já deu o que falar com um vídeo no Youtube de resposta aqueles que falam mal de seu cabelo e/ou de sua cor. Sua mãe Patrícia Kelly dos Santos conta que a filha sempre chegava contando episódios de racismo que tinha sofrido na escola, desde que entrou para o ensino fundamental. Mas Patrícia sempre conversou muito com a menina sobre o assunto, incentivando a leitura de livros infantis com personagens negros e de cabelo crespo, além de bonecas com o mesmo perfil, que a menina inclusive mostra em seus vídeos. Carolina Monteiro tem só nove anos, mas já ensina em seu canal de Youtube que o cabelo dela não é duro, duro é o racismo dos outros.

“Aqui em casa eu trago muita referência para Carolina, trago muito livro para ela, revista com destaque para crianças e adultos negros. Sempre quis passar essa visão positiva sobre negritude”, conta Patrícia. “A boneca é como se fosse uma amiga, uma irmã da criança. E no contexto que a gente vive, as bonecas costumam ser brancas. E por que não é normal ter uma boneca negra? A boneca é uma referência”, explica.

(Arquivo pessoal)

Patrícia Kelly dos Santos e sua filha Carolina Monteiro (Foto: Arquivo Pessoal)

Há dez anos, Neusa Baptista lançava o livro “Cabelo Ruim? – A história de três meninas aprendendo a se aceitar“, que também tem uma versão em quadrinhos. Cada personagem tem uma reação diferente com o preconceito: uma se magoa e chora, outra parte para violência física e a terceira não tem consciência de que está sendo ofendida. A autora quis questionar este estranhamento em relação ao cabelo que existe e por isso criou histórias baseada em experiências pessoais e de amigas.

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Neusa  Baptista, autora do livro infantil sobre aceitação do cabelo crespo (Foto: Rai Reis)

Neusa tem seis irmãs e diz que passou por situações semelhantes das do livro, principalmente no quesito “piadinhas” de escola. “Os penteados que nossa mãe fazia eram alvo de piada.”

Até o final da faculdade a autora disse que apenas suportava as situações, mas que seu questionamento de forma direta, de escrever e falar em público sobre o assunto, só veio depois. “Eu achava que era normal, que tinha que aguentar aquilo. Não existia um comercial de xampu que falasse bem do cabelo crespo, por exemplo.”

O livro é fruto do “Projeto Pixaim: nem bom nem ruim, só diferente: estímulo à valorização do cabelo crespo entre crianças da periferia de Cuiabá”, que já teve várias ações de 2006 para cá, como doação de livro e bate-papo. A obra chegou a virar peça teatral e foi apresentada em 30 cidades do Mato Grosso. A proposta deste ano é de realizar três oficinas: uma roda de conversa com os professores sobre a obrigatoriedade do tema “História e Cultura Afro-brasileira e Africana” pela lei 10.639; a oficina Pedagogia do Olhar que trabalha com referenciais de beleza contemporânea; e a oficina de trança afro. O projeto já está confirmado para acontecer em três escolas municipais e autora corre atrás para emplacar o projeto também em escolas estaduais.

“O acesso à internet e às redes sociais da classe C e D está ampliando o espaço para discutir a questão do cabelo.” Ela explica que é importante ter um referencial positivo na infância, principalmente, sobre sua herança cultural. “Eu não tinha bonecas negras quando pequena, então eu ficava me procurando ali e não me encontrava.”

Para jovens como Zhara e Carolina, que viram o preconceito de frente, Neusa dá um conselho. “Uma das coisas mais importantes é você buscar informação, conhecer sua história, participar dos movimentos, se aproximar de pessoas que tenham mais informações que você. Agora tem vários blogs sobre o assunto. Ainda bem que hoje em dia as pessoas têm bastante opção, criar uma rede é bem mais fácil.” Patrícia, por sua vez, fala sobre a importância da identidade. “É preciso querer ser você mesma, por mais que seja difícil… É preciso entender que cada um é um, e se conscientizar disso. Tem muita gente que quer deixar o cabelo natural por conta de moda, mas isso é meio que uma armadilha, quando você deixa o cabelo natural por consciência é outra coisa.”

Caro leitor,

Qual a melhor forma de combater o racismo?

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8 Opiniões

  1. Patricia disse:

    Adorei a matéria. Ficou excelente!

  2. Fernando Castro disse:

    Sensacional! Excelente matéria. Parabéns Mariana Mauro!.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    O racismo se divide em preconceito e discriminação: preconceito é subjetivo, difícil de combater; discriminação é objetiva, se resolve com o uso da Lei.
    E acho as negras maravilhosas com seus crespos; e os homens negros ficam bem carecas.

  4. Áureo Ramos de Souza disse:

    Nasci de um pai preto de cabelo de TUIM e minha mãe branca de cabelos liso que batiam na cintura. Muito bem, cresci e fui a escola e o meu modo de enfrentar a cor lá nos anos 1955 eu pagava com a mesma moeda, por exemplo: Paulo era branco, muito branco e certa vez quando fomos no recreio bater uma pelada e Pelo foi chamar quem seria do seu time e quando ele me escolheu disse o negão Áureo é do meu time, então eu lhe respondi, eu não vou participar do lado de sabão amarelo, escorrega muito e o que aconteceu ele passou a ser chamado de Paulo do sabão amarelo. Nunca liguei, sei que não devia revidar daquele jeito e o outro foi mostrar que eu era o mais inteligente e ganhava todas meninas pois era o melhor da classe, representante, eu sabia desenhar e também fui o escolhido para ser presidente da caixa escolar.Essa lição levei ao ginásio e ciêntifico e na faculdade isso não aconteceu pelo meu destaque. P*@# ao que me chamares de negão pois são os sabão amarelo que tem medo de sol e o cabelo se molha.

  5. Áureo Ramos de Souza disse:

    Eu sou datilografo e escrevo com todos os dedos e tenho um raciocínio rápido após após a leitura.
    Voltando a estória: sempre me destaquei por ser o mais inteligente da classe e certa vez o Paulo na hora do recreio formou o time e disse eu quero o negão Áureo e eu retruquei dizendo: NÃO JOGO NO TIME DE SABÃO AMARELO e o Paulo ficou com o apelido de sabão amarelo. Sempre fui destaque na Grupo Escolar Vidal de Negreiros, Amauri de Medeiros e Colégio Estadual Joaquim Nabuco. Era sempre o mais inteligente (GRAÇAS AO MEU BOM DEUS) passei bons bocado me destacando sendo negro pois para os brancos eu tinha sempre uma resposta na língua e o sabão amarelo era meu trunfo com os branco, sei estava errando mais era meu trunfo. Sempre fui o representante de classe, presidente da caixa escolar com 9 anos, no Ginásio criei o Jornal o Riscado e na Faculdade o Jornal a Onça e hoje com 70 anos tenho o meu NOTICIÁUREO e distribuo na comunidade onde não á racismo. ESTE NEGÃO NUNCA PISOU NA BOLA. Seria bom que Zahra e Carolina com seu “C” lessem esta minha opinião. Abçs. deste negrão Áureo o nome que brilha.

  6. Telmo disse:

    “Qual a melhor forma de combater o racismo?”
    O melhor é que tivéssemos várias maneiras de enfrentar os racistas e com isso prevenir o racismo

  7. André Luiz D. Queiroz disse:

    Como se combate o racismo? Com miscigenação!, que tal? Seria ótimo se fôssemos uma sociedade toda de mulatos! rsrsrs
    Agora, tentando falar mais sério: racismo se combate com cultura, com educação que valorize as qualidades morais e intelectuais. Quanto aos padrões de beleza, seria bom não nos prendermos a apenas o padrão de beleza ‘caucasiano’, de cabelo liso, nariz afilado! Mulher negra tem que ter sim seu cabelo crespo natural, nariz largo e boca carnuda!
    Não existe ‘cabelo ruim’ (como sinônimo de cabelo crespo/encarapinhado), o que existe é cabelo “mal tratado” (e eu acho feio cabelo alisado com henê!)
    Abraços!

  8. Eliahu Feldman disse:

    Racismo é indicio de disturbio emocional/mental

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