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SAÚDE

O poder do leite materno

Bancos de leite possibilitam que bebês prematuros e com patologias, que não podem ser amamentados diretamente, recebam o leite materno de forma segura

O poder do leite materno
Nos bancos de leite, toda doação é analisada, pasteurizada e passa por um rigoroso controle de qualidade (Foto: Pixabay)

Antigamente, amas de leite amamentavam bebês que não podiam receber o leite direto da mãe. A ciência, entretanto, já comprovou que esse processo, chamado amamentação cruzada (quando uma mulher amamenta um filho que não é seu), é extremamente arriscado tanto para o bebê quanto para mulher. Por isso, atualmente, o banco de leite é a solução para muitos bebês prematuros internados de baixo peso (menos de 2,5 kg) e/ou com patologias, principalmente do trato gastrointestinal, e que não podem ser alimentados diretamente pelas próprias mães.

Dentro do Instituto Fernandes Figueira, no Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro, há um dos mais de 200 bancos de leite do Brasil. O banco de leite é um centro de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno.

Qualquer mulher, em boa condição de saúde, que percebe que produz mais leite do que seu filho consome, pode doar. O banco de leite verifica as condições de saúde da mulher, já que doenças infectocontagiosas, que passam pelo leite, e alguns medicamentos podem impedir a doação. Por isso, a mulher deve entrar em contato com o banco caso comece a usar algum medicamento.

O banco de leite atua com segurança alimentar e nutricional. Todo o leite é analisado, pasteurizado e passa por um rigoroso controle de qualidade. “A pasteurização é o que realmente faz o processo de doação chegar de uma forma segura. É um processamento térmico, o mesmo aplicado dentro da indústria de laticínio. Quando você compra um leite de caixinha, ele foi pasteurizado. O processo da indústria é um processo super rápido. O nosso é uma pasteurização lenta, realizada num banho-maria, mas de forma segura. Além de passar pela pasteurização para inativação de micro-organismos indesejáveis, todo leite que é doado a um banco de leite, passa por um controle de qualidade sensorial, controle de qualidade fisco-químico e um controle de qualidade microbiológico”, explica Danielle Aparecida, gerente do Centro de Referência para Bancos de Leite Humano do Instituto Fernandes Figueira, em entrevista ao Opinião e Notícia. Após passar por todas as etapas, o leite ganha uma etiqueta com os valores nutricionais e as condições fisiológicas.

Todo banco de leite está alojado dentro de um hospital que tem uma maternidade e uma unidade neonatal. “Se uma mãe tem um bebê internado numa UTI neonatal numa unidade onde não tem banco de leite, ela pode buscar o mais próximo. Ela então leva o leite pasteurizado para ser usado na unidade onde o bebê está internado”, explica Danielle.

Para doar, é preciso ligar para o banco de leite mais próximo, tendo em mãos, os últimos exames realizados no pré-natal. Um pré-cadastro será realizado e o banco vai fornecer as orientações necessárias para coleta e armazenamento. Assim que um médico avaliar os dados e a mulher for considerada apta para doar, a equipe entrará em contato com ela na véspera de cada visita para pegar o leite. “Uma vez por semana a gente passa na casa da doadora, sendo que um dia antes a gente liga para confirmar se ela coletou o leite. Se ela disser que sim, a gente vê quantos frascos ela está precisando para entregar no mesmo dia do recolhimento do leite coletado. Se ela disser que não, a gente liga na próxima semana. Ela pode fazer uma única doação ou continuar doando enquanto produzir leite”. Desde o início deste ano, 910 bebês já receberam doação de leite de 2.018 doadoras no estado do Rio de Janeiro.

A primeira ‘vacina’ do bebê

A médica Rosa Maria Negri Rodrigues Alves, do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ressalta que o leite materno traz inúmeras vantagens para a saúde do bebê, como a prevenção de doenças infecciosas. Além disso, a amamentação também ajuda na prevenção de doenças na mãe, como câncer de mama e de ovário e anemia no pós-parto.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, bebês de até seis meses de idade não precisam consumir nada além do leite materno. No entanto, apenas 40% dessas crianças recebem a amamentação exclusiva ao redor do mundo. Segundo Danielle, as mães não precisam se preocupar, porque o leite é mais do que o suficiente. “O leite quando sai do peito da mãe, sai em fases. Primeiro, é uma fase mais aquosa, para o bebê matar a sede; depois mais proteica, para nutrição do bebê; e só no final que vem a gordura, para saciar a fome”.

Segundo a OMS, o leite humano é também uma importante fonte de energia e nutrientes para crianças de 6 a 23 meses. Ele pode proporcionar metade ou mais da energia da criança entre 6 e 12 meses e um terço da energia entre 12 e 24 meses. A amamentação poderia salvar mais de 820 mil vidas de crianças menores de cinco anos a cada ano.

A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e Mulher de 2006 mostrou que a prática da amamentação progrediu no país em comparação com a pesquisa anterior de 1996, especialmente em relação à duração total da amamentação. No entanto, o aleitamento materno exclusivo continua sendo uma prática pouco frequente de curta duração.

Em 2012, a Resolução 65.6 da Assembleia Mundial de Saúde especificou o aumento da taxa de aleitamento materno exclusivo para bebês de até seis meses como um dos objetivos globais a serem alcançados até 2025. O plano é aumentar a taxa para pelo menos 50% até o ano citado.

O que o Brasil está fazendo para atingir o objetivo?

Segundo um relatório da OMS de 2016, o aumento das taxas de aleitamento materno exclusivo em bebês menores de seis meses poderia economizar pelo menos US$ 6 milhões (cerca de R$ 20,7 milhões) no sistema de saúde brasileiro. Por isso, políticas públicas são essenciais para alcançar o objetivo.

Em nota ao O&N, o Ministério da Saúde informou que, segundo a pesquisa de prevalência de aleitamento materno nas capitais brasileiras e DF, realizada em 2008, a taxa de aleitamento materno exclusivo no Brasil é de 41%. “Para incentivar o aleitamento materno, além de incentivo à realização de pesquisas, elaboração de manuais técnicos e campanhas publicitárias anuais (como a Semana Mundial da Amamentação e Doação de Leite Humano), o Ministério tem uma série de iniciativas de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno”. Dentre as medidas estão: os Bancos de Leite Humano, a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, e o programa Mulher Trabalhadora que Amamenta.

Regulamentação do marketing

Segundo o ministério, o Brasil é um dos seis países a incorporar o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno. O Decreto nº 8552 de 03 de novembro de 2015 regulamentou a Lei nº 11.265 sobre a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, bicos, chupetas e mamadeiras.

A lei reforçou o compromisso brasileiro assumido em 1981, na 34ª Assembleia Mundial de Saúde, de promover e proteger a amamentação por meio do controle do marketing não ético utilizado para promover produtos apresentados como substitutos do leite materno.

Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC)

Este é um selo de qualidade, conferido pelo ministério aos hospitais, que incentivam o aleitamento materno e o cuidado humanizado à mulher, criança e família na gestação, pré-parto, parto, nascimento e pós-parto. Atualmente, são 324 maternidades no Brasil com o selo, em todos os estados. “Para ser amigo da criança, o hospital deve cumprir os 10 passos para o sucesso do aleitamento materno, o cuidado respeitoso e humanizado à mulher durante o pré-parto, parto e o pós-parto (Cuidado Amigo da Mulher), garantir livre acesso à mãe e ao pai e permanência deles junto ao recém-nascido em caso de internação, durante 24 horas, e cumprir a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças na Primeira Infância”, explica a nota do ministério.

Segundo a pasta, nascer em Hospital Amigo da Criança faz diferença nos indicadores de aleitamento materno. De acordo com a II Pesquisa de Prevalência em Aleitamento Materno, de 2008, a duração média do aleitamento materno exclusivo em crianças que nasceram nesses hospitais foi de 60,2 dias, contra 48,1 dias em crianças que não nasceram em Hospital Amigo da Criança.

Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil

A estratégia visa capacitar profissionais das Unidades Básicas de Saúde sobre o aleitamento materno. Segundo o ministério, o programa já capacitou 37.711 profissionais da atenção básica de diversas categorias como enfermeiros, médicos, e nutricionistas.

Mulher Trabalhadora que Amamenta

O programa visa criar uma cultura de respeito e apoio à amamentação nas empresas públicas e privadas. A estratégia é capacitar profissionais para apoiarem a implantação de Salas de Apoio à Amamentação (um espaço onde a mulher poderia coletar e armazenar seu leite, durante a jornada de trabalho, para seu próprio filho ou para doação) nas empresas, além de incentivarem a oferta da licença maternidade de 180 dias e a criação de creches próximas aos locais do trabalho da mulher.

No Brasil, já existem 209 salas de apoio à amamentação certificadas pelo Ministério da Saúde. O ministério e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicaram, em 2015, um guia para implantação de salas de apoio à amamentação para a mulher trabalhadora. O guia, entretanto, não tem caráter regulamentário e o seu cumprimento não é obrigatório.

Licença-maternidade

A Organização Internacional do Trabalho recomendou, em 2000, que os países deveriam estender a duração da licença maternidade remunerada para 18 semanas (126 dias). Atualmente, as mulheres contratadas sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) têm direito a licença-maternidade de 120 dias, enquanto os pais, de cinco dias, garantidos pela Constituição. No entanto, a PEC 1/2018, em tramitação, quer aumentar o prazo para 180 dias, para as mães, e 20 dias, para os pais.

Políticas públicas ajudam a fazer a diferença na hora de conscientizar a população sobre o poder do leite materno e sobre a importância do aleitamento materno exclusivo durante os primeiros seis meses do bebê. Afinal, amamentar é muito mais do que um ato de amor, é um ato de vida.

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