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ARTE CONTEMPORÂNEA

O que faz o mercado de arte brasileiro resistir tão bem à crise?

Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte, explica por que, na contramão da maioria dos setores, o mercado de arte vem se expandindo cada vez mais

O que faz o mercado de arte brasileiro resistir tão bem à crise?
A última edição da feira ocorreu em abril deste ano, batendo recorde de público com 23 mil visitantes (Foto: Flickr)

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O Brasil enfrenta a maior crise desde o fim do período da hiperinflação. Em meio a corte de custos, demissões se tornaram rotina entre os mais variados setores. No entanto, um em especial vem demonstrando uma surpreendente resistência à crise: o mercado de arte.

Na contramão da maioria dos setores, o mercado de arte vem registrando um contínuo crescimento, como apontou um relatório divulgado em setembro deste ano, pela organização Latitude, uma parceria entre a Associação Brasileira de Arte Contemporânea e Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos.

Segundo o relatório, das 41 galerias de arte contemporânea pesquisadas, 51,2% atestaram continuidade no crescimento, sendo que 47% também aumentaram a equipe de trabalho. Em 2014, não ocorreram demissões em nenhuma das galerias pesquisadas.

O relatório também deixou clara a importância das feiras de arte nesse cenário, já que responderam por 40% do total das 5.750 vendas no período analisado. Três feiras tiveram o desempenho destacado pelo relatório: a SP-Arte, a ArtRio e a ArtBasel Miami Beach.

Para entender esse fenômeno, o Opinião e Notícia conversou com Fernanda Feitosa, diretora e idealizadora da SP-Arte. A última edição da feira ocorreu em abril deste ano, batendo recorde de público com 23 mil visitantes.

Fernanda Feitosa

Fernanda Feitosa é diretora e idealizadora da SP-Arte (Foto: Divulgação/SP-Arte)

Segundo Fernanda, o sucesso atual é uma soma de vários fatores. Houve uma expansão e diversificação na quantidade e no perfil dos colecionadores, estimulada pelo crescimento econômico da última década e pelo desenvolvimento das feiras. Segundo ela, a soma desses fatores cria uma cadeia virtuosa que atinge “tanto um público de altíssimo poder aquisitivo, quanto jovens colecionadores entrantes no mercado”.

O mercado de arte brasileiro também passa por um forte processo de internacionalização. “Na última SP-Arte estiveram presentes diversos colecionadores internacionais como o casal Rubell, que vive em Miami e são um dos maiores colecionadores e mecenas do mundo, e o casal Christian & Karen Boros, de Berlim. Além da presença de profissionais de peso como Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística da dOCUMENTA(13) e criadora da mostra da 14ª Bienal de Istambul; Iria Candela, curadora do Metropolitan Museum of Art; José Roca, diretor artístico do FLORA ars+natura, de Bogotá; e Flavia Frigeri, curadora de Arte Internacional do Tate Modern, de Londres”, explicou Fernanda.

Além disso, Fernanda lembra que “a arte brasileira, como um todo, vive um grande momento na cena internacional”. “Temos artistas como Adriana Varejão e Beatriz Milhazes entre as mais valorizadas do mundo; os Gêmeos na Tate Gallery, em Londres, e com exposição em Nova York; e Sonia Gomes no setor principal da Bienal de Veneza, a principal do mundo, e, agora, vai expor em Miami.”

O público presente nas feiras de arte também cresceu, demonstrando um maior interesse pelas artes no país. Segundo Fernanda, esse aumento vem sendo sentido de forma paulatina “Em 2015, foram 23 mil pessoas na feira. Há dez anos, na primeira edição, o público foi de 6 mil pessoas. Nesses últimos dez anos quadriplicamos nosso público além de ampliar o perfil e alcance de nossos visitantes. Antes, era um público adulto, colecionador tradicional de arte, com idade entre 40 e 60 anos. Hoje, metade do público da SP-Arte é composto por pessoas com idade entre 18 e 40 anos.”

Fernanda afirma que hoje há mais instituições voltadas à difusão da arte e que o número de exposições aumentou. Além disso, “os museus tornaram-se mais ativos, tanto na difusão de seu acervo quanto de acervos de outras instituições ao redor do mundo”.

“Há, também, uma nova cultura, iniciada com a SP-Arte, da doação de obras para museus e instituições, obras adquiridas pelo colecionador privado, estabelecendo uma relação entre a aquisição para fins privados e o caráter público da arte.”

Fernanda também afirmou que a diversificação do conteúdo é uma aposta bem sucedida da SP-Arte. “Estamos sempre em busca de novas linguagens, o que explica o sucesso dos novos setores Open Plan, dedicado a obras de grande porte e instalações, e Performance, em que exploramos mais sobre o universo de performances, em parceria com a universidade Belas Artes. Temos também o setor principal em que as galerias apresentam obras de artistas consolidados e dos grandes mestres, assim como os setores que buscam destacar jovens talentos e novos olhares – como o Showcase e o Solo.”

Apesar do enorme sucesso, ainda há muito a ser feito. Fernanda finaliza a entrevista listando ao O&N os principais desafios atuais a serem superados pelo setor. “Manter-se em processo de profissionalização e internacionalização, batalhar por uma carga tributária menos onerosa para a venda e a importação e exportação de artes e por uma política pública que vise a internacionalização deste mercado no longo prazo.”

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2 Opiniões

  1. helo disse:

    A diretora da SPArte talvez poderia acrescentar que em tempos de crise aplicar nas artes plásticas é uma boa fórmula tanto aqui quanto lá fora. Na operação lava-jato o número de quadros comprados nesses eventos pelos srs. Barusco e Renato Duque foi realmente espantoso.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    A pergunta tem uma simples resposta: NÓS SOFRE MAIS NÓS GOZA E TEMOS ARTE MESMO SOFRENDO.

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