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SAÚDE

O que se sabe sobre o vírus de gado BVDV e a microcefalia

Humanos não são susceptíveis a infecção natural pelo BVDV, mas existe pelo menos um relato de infecções por meio de vacinas contaminadas

O que se sabe sobre o vírus de gado BVDV e a microcefalia
Ilustração do CDC mostrando um bebê com microcefalia (à esquerda) comparado a um bebê com perímetro cefálico normal (Foto: Wikipédia)

Na sexta-feira passada, 1º, uma reportagem do Estadão vazou dados de um estudo preliminar que identificou traços do vírus da diarreia bovina viral (BVDV, na sigla em inglês) em três amostras por necropsia do tecido cerebral de fetos e recém-nascidos com microcefalia. O vazamento do estudo, elaborado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq) em Campina Grande, na Paraíba, em colaboração com virologistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), causou estranheza na comunidade científica e a suspeita de que se tratava de uma notícia alarmista, perigosa e injustificável.

Em rebanhos bovinos, o BVDV, vírus da mesma família do zika (Flaviviridae), pode causar abortos e malformações congênitas, principalmente no primeiro trimestre de gestação dos bovinos. O vírus está presente em rebanhos em todo o mundo, mas não há evidências de transmissão natural para pessoas. Existe, no entanto, pelo menos um estudo científico publicado relatando casos de BVDV em humanos infectados por meio de vacinas contaminadas com o vírus.

Essas vacinas humanas foram contaminadas pelo soro fetal bovino usado nas culturas de células para produzi-las. Essa contaminação acidental não trouxe consequências clínicas ou virológicas nas pessoas vacinadas, segundo o estudo.

Vale ressaltar que humanos convivem com animais contaminados pelo BVDV há décadas sem qualquer evidência de transmissão natural. A relação entre os traços de vírus e os casos de microcefalia no Brasil, portanto, é altamente improvável, embora não seja impossível.

Procurados pelo Opinião e Notícia, pesquisadores do Ipesq, responsáveis pela coleta das amostras, preferiram não comentar os resultados preliminares do estudo. Um advogado do Instituto ressaltou, por telefone, que não há uma previsão para a sua publicação. O virologista da UFRJ envolvido no estudo, Dr. Amilcar Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular, está fora do país e não retornou o contato.

Em nota, o Ministério da Saúde disse que a presença de partículas ou fragmentos do vírus bovino nas amostras coletadas não significa a existência de vírus ativo, nem que essa espécie de vírus seja responsável pelas malformações. “Há necessidade de novas pesquisas para esclarecer o significado desses achados”, diz a nota.

Citado na reportagem do Estadão, o Dr. Eduardo Furtado Flores, virologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicou uma declaração na página da Sociedade Brasileira de Virologia em que reconhece que participou do estudo testando amostras clínicas de mães e crianças afetadas, mas nega participação no grupo de pesquisa responsável pelo estudo e ressalta que sua equipe não encontrou qualquer indicativo da presença do BVDV nas amostras examinadas. Ele considera “irresponsável” qualquer inferência sobre a relação entre microcefalia e BVDV com base nas informações divulgadas até agora.

A Organização Pan Americana da Saúde foi notificada e disse que está monitorando o achado junto aos ministérios da Saúde e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Pelo menos seis virologistas do Ministério da Saúde estão em Campina Grande desde a semana passada para acompanhar o andamento da pesquisa.

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