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ATAQUE À SEDE DO PORTA DOS FUNDOS

O reflexo do uso da religião como ferramenta política

Ataque contra sede do programa Porta dos Fundos abriu o debate sobre a intolerância e o reflexo na sociedade do uso da religião como ferramenta política

O reflexo do uso da religião como ferramenta política
Criminosos atacaram a sede do programa com coquetel molotov (Foto: Porta dos Fundos)

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Um ataque à produtora do programa Porta dos Fundos, na madrugada do último dia 24, acirrou no Brasil o debate sobre intolerância, cerceamento à liberdade de expressão e os limites – e reflexos – do uso da religião como ferramenta política.

Irritados com um especial de Natal, intitulado “A primeira tentação de Cristo”, que retrata Jesus como homossexual, um grupo de criminosos lançou bombas de coquetel molotov na sede da produtora do programa, no Humaitá, Zona Sul da capital carioca.

Os autores ainda não foram identificados, mas a polícia estima a participação de pelo menos quatro criminosos no ataque. Um grupo de extrema-direita, chamado Comando de Insurgência Popular Nacionalista – que se define como integralista –, assumiu a autoria do ataque, chamando atenção para o recrudescimento no Brasil de um movimento ultranacionalista, que tem inspiração fascista. Porém, um dia depois, a Frente Integralista Brasileira (FIB) descartou qualquer envolvimento do movimento no ataque.

Surfando na onda da polêmica, como se tornou costume no atual governo, um grupo de deputados estaduais de São Paulo anunciou que, no retorno do recesso parlamentar – em 3 de fevereiro -, vai protocolar um requerimento na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para criar a chamada “CPI da Porta dos Fundos”. A iniciativa é liderada pelo deputado Altair Moraes (Republicanos-SP). Altair é um dos novatos na política, eleito na esteira da onda conservadora observada nas últimas eleições. Entre suas bandeiras, está defender os valores da “família cristã”.

Segundo noticiou o Congresso em Foco, Altair justifica a criação da CPI afirmando que o objetivo é investigar o “vilipêndio religioso”. Ele destaca que o Brasil é um país cristão, afirmação que ecoa a frase “O Estado é laico, mas eu sou cristão” usada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para justificar a mistura de política e religião presente em algumas de suas propostas – como a de nomear um juiz “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal (STF).

A estratégia de galvanizar apoio da população evangélica – crucial para políticos em um país onde, de fato, a maioria da população é cristã – não é nova. Ela foi amplamente usada, por exemplo, por Eduardo Cunha, quando este traçava sua ascensão política e, em 1995, quando apadrinhado por Francisco Silva – dono da rádio evangélica Melodia FM – passou a frequentar cultos e prestar serviços para a rádio, na qual lançou seu famoso bordão “O Povo Merece Respeito”.

Também foi a estratégia usada por Magno Malta, que transitou por diversos governos, tendo feito alianças políticas com Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Foi ao lado de Malta que Bolsonaro fez sua primeira aparição na TV como presidente eleito, fazendo uma fervorosa oração. Malta e Cunha são apenas dois exemplos, num universo muito mais amplo de políticos que usam salmos, passagens bíblicas e aparições em cultos como degraus para a ascensão política.

Essa estratégia, no entanto, tem um reflexo, como apontado pelo ator, humorista e roteirista Fábio Porchat, do Porta dos Fundos, em um artigo publicado nesta segunda-feira, 30, no jornal Globo.  

No texto, Porchat aborda dois pontos principais. Ele destaca que a Constituição brasileira garante a liberdade de expressão e ressalta que sátiras “são fundamentais para que uma sociedade democrática possa rir de si mesma”.

“Satirizar a Bíblia, olhe só, não é contra a lei. Chutar a Nossa Senhora é contra a lei. Depredar centros de Umbanda é contra a lei. Dizer que você tem que parar de tomar remédio e só quem cura é Deus é contra a lei. Jogar coquetel-molotov em uma produtora porque não gostou do que ela produziu é contra a lei. E, veja, brincar com a imagem de Deus não é intolerância. Intolerância é não querer deixar que brinquem. Impedir alguém de professar a sua fé, de acreditar no que quiser acreditar — porque existem várias religiões, sabia? —, de demonstrar a sua fé, isso é intolerância”, diz o humorista (confira aqui o texto na íntegra).

No texto, Porchat também questiona: “O Porta dos Fundos fez Especial de Natal em 2013, 14, 15, 16, 17, 18 e nunca houve nenhuma reação violenta direta. Por que será que, em 2019, algumas pessoas se sentiram à vontade para atirar coquetéis-molotovs na nossa porta?”.

Até o momento, o presidente Jair Bolsonaro não se pronunciou sobre o ataque, que ganhou repercussão global. Na opinião pública, no entanto, o debate se alastrou. No Twitter, foram compartilhadas inúmeras mensagens com críticas ao ataque. Alguns destacaram que o ataque à sede do programa não é o primeiro episódio de intolerância e que ataques a templos de Umbanda vêm aumentando nos últimos anos.

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2 Opiniões

  1. Geni pereira disse:

    Jesus Cristo nunca discutiu religião, nunca criticou e nem era intolerante para com as outras pessoas
    Porque seus seguidores criticam, guerreiam com quem pensa diferente e são intolerantes?
    Não era melhor nós sermos
    serenos e amáveis como nosso mestre sempre ensinou?

  2. Geraldo de Assis disse:

    …concordo com o comentário de Geni Pereira. Pois Jesus viveu, pregou e praticou o AMOR.
    É a Lei para vivermos em harmonia nesse planeta, simples assim!

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