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Protestos de rua

O risco do tiro no pé

Reação contrária aos reajustes das tarifas de ônibus e pedágios tem o inconveniente de adicionar um fator antiprivado na história

O risco do tiro no pé
Enquanto não forem mudadas as prioridades orçamentárias é o setor privado que tem de investir (Reprodução/Internet)

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Nas recentes manifestações de rua, a grita maior foi contra as passagens de ônibus. Como muitos, penso que o foco da insatisfação é mais embaixo. O setor público é visto pela grande maioria da população brasileira como um péssimo prestador de serviços em geral.

Os serviços são insuficientes porque, no embalo da Constituição Cidadã, se decidiu concentrar os recursos públicos em pagamentos a pessoas, chegando-se, hoje, a uma gigantesca folha de pagamento de benefícios previdenciários e assistenciais, além de salários, que consome 75% do orçamento executado. Estimo que hoje se pendura nessa folha mais de metade da população brasileira, estimulando a destinação de mais benesses a esse mesmo grupo para ter uma posição privilegiada em qualquer disputa eleitoral.

Nesse sentido, é difícil entender por que há tantos ministérios, quando a parte do governo que presta serviços propriamente ditos se refere a apenas 25% do total. Deveria haver um único ministério, cheio de computadores, que cuidasse apenas da gigantesca folha de pagamento, e meia dúzia para fazer o resto. Sobraria mais para os serviços. Outro ponto é que, ao contrário do que se poderia esperar, as manifestações parecem ter mostrado que popularidade não se conquista apenas com distribuição de dinheiro. A população quer, também, maiores e melhores serviços em transportes, saúde, segurança, etc.

Em estudo recente, que pode ser obtido no e-mail raul_velloso@uol.com.br, mostrei com parceiros a importância de investir na infraestrutura de transportes para tirar o Brasil da armadilha de alta inflação e baixo crescimento. O grande drama é que o setor público, além de ter parado há muito tempo de investir nessa área, praticamente desaprendeu a gerir esse tipo de atividade e não consegue fazer concessões eficientes com o setor privado. A este deveria caber, então, o grosso da tarefa de deslanchar os novos investimentos e gerenciar sistemas eficientes de transporte dentro e fora das cidades. Mas o setor público não sabe fazer a sua parte na tarefa e, nos últimos tempos, mostra um forte viés ideológico antiprivado que desafia o bom senso. O que se vê hoje são algumas ilhas de excelência, especialmente no sistema rodoviário do Sudeste, e uma situação de terra arrasada no restante das rodovias e modalidades de transporte.

A forte reação contrária aos reajustes das tarifas de ônibus e dos pedágios é compreensível por ser a resposta possível no momento. Tem o inconveniente de adicionar um fator antiprivado na história, pois há uma clara interferência nos contratos de concessão em vigor, em que existem cláusulas de reajuste bem especificadas. Hoje, esses investimentos já padecem da visão governamental equivocada de que as taxas de retorno dos projetos devem ser as menores imagináveis, o mesmo que as menores tarifas imagináveis. O que precisa ser dito à sociedade é que enquanto não forem mudadas as prioridades orçamentárias é o setor privado que tem de investir. Só que, sem retorno adequado, não há investimento possível.

O governo quer obviamente fugir de novas manifestações. Segundo o “Valor” de 9/7, decidiu não reajustar os pedágios das rodovias federais e examina três possibilidades de reequilíbrio dos contratos: cortar investimentos previstos, subsidiar os usuários repassando recursos às concessionárias ou prorrogar os prazos das concessões. Cortar investimento seria impedir as melhorias por que tanto a sociedade clama. Subsidiar usuários seria aumentar gastos correntes, em contradição com o anúncio de corte de até R$ 15 bilhões pelo ministro da Fazenda, e com a necessidade de investir na melhoria dos serviços. Tudo isso é dar um tiro no próprio pé. Penso, assim, que a melhor solução que se apresenta é a prorrogação dos contratos, enquanto o governo não faz o dever de casa. Construir um plano convincente de reestruturação do gasto com melhoria de qualidade que comece pela redução do número de ministérios deveria ser a atual obsessão governamental.

* Raul Velloso é consultor econômico

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5 Opiniões

  1. Sálvio Pessoa disse:

    A presidente Dilma, o vice-presidente Temer, os ministros, seus assessores, todos estão completamente perdidos, tão perdidos quanto aqueles que estão protestando nas ruas, ou os policiais que fiscalizam os protestos ou os que assistem aos protestos nas ruas ou pela TV. Mal a presidente anunciou as medidas que tinha em mente para resolver os problemas, já começaram as discordâncias, os desentendimentos e os desacordos, cada setor querendo puxar a brasa para a sua sardinha. O presidente e os integrantes do Congresso Nacional, o presidente e os integrantes do Supremo Tribunal Federal os senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos, governadores e vereadores estão todos perdidos, tanto quanto os empresários e seus funcionários, os jornalistas, seus leitores, ouvintes e telespectadores, os juízes, promotores, advogados, médicos, engenheiros, os analfabetos e os doutores, os estudantes, os professores, os funcionários públicos, as donas de casa, os pais de família, os bandidos, os padres, as freiras, as virgens, as prostitutas, os pastores, os crentes, os descrentes e o povo em geral. E não é só no Brasil, mas em todas as nações do mundo, sem exceções. Formam todos um bando de tolos, pretensiosos e arrogantes que fingem saber das coisas, fingem compreender o problema e conhecer a solução, fingem estar tranquilos e seguros de si, mas que, na realidade, estão apavorados, de nada sabem, nada entendem e têm suas próprias vidas pessoais confusas, insolúveis e angustiadas. Ninguém sabe o que fazer e qualquer coisa que façam, dará errado e trará novos e insolúveis problemas. Não há plebiscitos, referendos, pactos nem constituintes que deem jeito na situação, não há protestos, copa do mundo, das confederações, carnaval ou olimpíada, reuniões, conferências, pacifismo nem vandalismo que resolvam, porque o problema não depende disso, não depende de discursos, de teorias, de dinheiro, nem de leis, nem de polícia, de ideologias partidárias, de filosofias, de religiões, nem de fiscalização, punição, prisão, nada disso. Eu sei do que depende, mas não direi, porque já foi dito milhares de vezes, no passado e até no presente, e de nada adiantou, ninguém ouviu e, se ouviu, não deu a menor importância. Resta-me apenas contemplar, impotente, com o coração cheio de uma inútil compaixão e com o coração dilacerado, a derrocada final da raça humana, esmagada pelo peso da sua própria estupidez. A situação vai piorar cada vez mais. Quanto mais soluções arquitetarem, mais problemas terão. Quem viver verá. É o fim do caminho. Aproxima-se, a cada dia, a tragédia mais do que anunciada à qual ninguém jamais deu ouvidos. Isso não é pessimismo, é apenas realismo, puro, simples e corajoso. Que Deus tenha piedade das nossas pobres almas.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    Lutar por SAÚDE, SEGURANÇA E EDUCAÇÃO é primordial, mais temos que ver os salários exorbitantes de vereadores, deputados estaduais e federai, ministros e senadores. Acabar com cargos comissionados ou de confiança pois nenhum merece, a gasolina, correios e outros atributos tem que ser pagos por eles, as reformas que fazem em gabinetes devem ser feita pelos próprio viajar e levar quase 100 pessoas, porque? é um absurdo, e ainda vem as despesas de Governadores com jatinhos para o trabalho com apenas dez minutos enquanto o trabalhador leva 02h para chegar. TEM QUE MUDAR E MUDAR TUDO, VAMOS TIRAR TODOS, todo dia aparece mais novidades e será que quem dirige não ver? PQP. vai te F@&*%er.

  3. Gilberto Pereira disse:

    O comentario do Sálvio Pessoa, fez-me lembrar de algo que falo desde minha juventude. Voces sabem, por que os chamados Profetas, sempre se deram bem em suas profecias? Porque sempre profetizaram eventos ruins!
    Nunca souberam nada sobre o futuro; mas tinham conhecimento e sabiam muito do comportamento do SER HUMANO, que em nada mudou até nossos dias, com excessão das tecnologias empregadas.
    Finalizo, colando um pequeno verso, do “poema” do proprio Sálvio:
    “Resta-me apenas contemplar, impotente, com o coração cheio de uma inútil compaixão e com o coração dilacerado, a derrocada final da raça humana, esmagada pelo peso da sua própria estupidez”.

  4. Mauricio Fernandez disse:

    Em Plenário, Deputado Federal demonstrou, ontem 11/07 que governo&empresas, POR CAMINHOS TURVOS DA CORRUPÇÃO embolsam R$ 500.000.000.000,00 QUINHENTOS BILHÕES ANUALMENTE. Estudos da Câmara de Deputados diz que seria necessário de R$ 20 a 30 BILHÕES para reorganizar o Estado devidamente, pois foi desmontado, para combater a corrupção. Entretanto tal valor é considerado muito alto e o Governo diz não dispor desses valores mesmo com inúmeros projetos apresentados para a devida solução do problema. Engraçado!…. gastar R$ 30 bilhões para estancar a vergonhosa sangria não pode, mas jogar no ralo, diga-se, bolso de alguns corruptos, R$ 500 Bilhões pode! E a turma pensando que pelo simples fato de terem saido as ruas para protestar ACORDOU O GIGANTE e que tudo vai ser resolvido. JÁ ESTÁ MAIS DO QUE DEMONSTRADO QUE NÃO VAI!!! Daqui em diante é só circo. Vão dormir!

  5. Sandro L B disse:

    O Salvio Pessoa, pare de ser chato com esse teu comentário sem pé nem cabeça

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