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‘O Tiradentes’: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier, de Lucas Figueiredo

Tiradentes, um herói mítico, um mártir ou um simples alferes que se rebela contra o jugo da Coroa portuguesa

‘O Tiradentes’: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier, de Lucas Figueiredo
Com uma extensa pesquisa, o autor reconstitui a história de Joaquim José da Silva Xavier (Foto: Companhia das Letras)

O estudo do universo da Inconfidência Mineira e de seus personagens é um desafio para os pesquisadores, que se deparam com documentos históricos do século XVIII baseados em reuniões secretas, relatórios confidenciais, interrogatórios, traições e assassinato.

Em 1978, o historiador inglês Kenneth Maxwell publicou o clássico A devassa da devassa, considerado o mais profundo trabalho sobre a Conjuração Mineira. Mas faltava uma biografia atualizada sobre Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, seu personagem mais emblemático.

Agora, essa lacuna foi completada com o lançamento do livro O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier do jornalista e escritor Lucas Figueiredo pela Companhia das Letras.

Com uma extensa pesquisa em arquivos nacionais e internacionais, o autor reconstitui a história de Joaquim José da Silva Xavier, desde os anos da juventude, quando aprendeu a extrair dentes e cuidar da higiene bucal dos moradores de Vila Rica, atual Ouro Preto, depois como mascate e minerador, até alistar-se na tropa dos Dragões da capitania de Minas Gerais.

Em seu ofício de dentista amador, que lhe deu o apelido de Tiradentes, Joaquim visitava a casa de pessoas humildes e a de poderosos e, assim, começou a tecer uma importante rede de contatos.

Esses contatos o aproximaram de um grupo de membros das oligarquias de Minas Gerais, que queria romper com a Coroa de Portugal e criar um território livre, entre eles o ex-ouvidor Tomás Antônio Gonzaga e o advogado Cláudio Manoel da Costa, ambos formados pela Universidade de Coimbra. Na segunda metade da década de 1780, os conjurados estabeleceram contatos com membros da elite do Rio de Janeiro.

Coube a Joaquim a tarefa de fazer a ligação entre os rebeldes da capitania e os fluminenses. Ao longo dos anos de 1780, enquanto transitava entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro cumprindo missões militares, extraindo dentes e divertindo-se em prostíbulos, os contatos com os rebeldes despertaram sua consciência política.

Em seu descontentamento crescente com a Coroa, Joaquim passou a difundir a conspiração e a buscar adeptos em lugares de grande circulação de pessoas, como tabernas, estalagens, praças e prostíbulos. Correndo de um lado para outro propagando o movimento, ele começou a chamar atenção.

Enquanto os conjurados conspiravam aos cochichos ou entre quatro paredes, Tiradentes apregoava a rebelião em público. Se algo desse errado, ele estaria perdido.

Em 1778, Joaquim Silvério dos Reis, um português que havia enriquecido em negócios variados, quase sempre graças à compra de favores de poderosos, juntou-se ao grupo de conjurados, não por compartilhar as aspirações políticas e filosóficas do movimento. Seu objetivo era estritamente pessoal. Silvério dos Reis queria anular sua gigantesca dívida com o erário e os rebeldes haviam prometido queimar os livros caixas da Junta da Real Fazenda, que registravam suas dívidas.

Porém, antevendo a derrota do movimento, Silvério dos Reis delatou seus companheiros para o governador de Minas Gerais, visconde de Barbacena. Silvério dos Reis citou nominalmente oito envolvidos, entre eles Tiradentes, a quem acusou de ser o elo entre os rebeldes de Minas Gerais e o Rio de Janeiro, além de uma das vozes mais ativas do movimento.

Assim, os principais líderes da Inconfidência Mineira foram presos, julgados e punidos. Alguns receberam a pena de degredo nas colônias portuguesas na África. Joaquim José da Silva Xavier foi o único detido no Rio de Janeiro, onde ficou preso em regime de solitária na fortaleza da ilha das Cobras por dois anos até ser condenado à morte na forca, em 21 de abril de 1792.

Em seguida, seu corpo foi esquartejado e uma comitiva partiu do Rio de Janeiro levando as bolsas de couro com os restos mortais de Tiradentes. Ao longo do caminho até Minas Gerais os pedaços de seu corpo foram espalhados pelas cidades. E para que os súditos da Coroa não esquecessem a lição, sua cabeça foi cravada em uma estaca e exposta em praça pública em Vila Rica.

Com uma rigorosa pesquisa em fontes primárias e bibliográficas, mas ao mesmo tempo com uma narrativa fluida, Lucas Figueiredo oferece ao leitor uma biografia magistral de Joaquim José da Silva Xavier.

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