Início » Brasil » Onde Bolsonaro encontra o chavismo
RETÓRICA SIMILAR

Onde Bolsonaro encontra o chavismo

Apesar das diferenças ideológicas, o discurso e o tom da campanha de Bolsonaro têm semelhanças com as retóricas de Hugo Chávez e Nicolás Maduro

Onde Bolsonaro encontra o chavismo
Assim como Bolsonaro, Chávez era um militar reformado fascinado pelo nacionalismo (Foto: ABr)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

“Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar. Pretendo ir a Venezuela e tentar conhecê-lo. Quero passar uma semana por lá e ver se consigo conhecê-lo”.

A declaração acima, por incrível que pareça, partiu do deputado Jair Bolsonaro, atual candidato à presidência da República pelo PSL. Ela faz parte de uma entrevista concedida ao jornal Estado de S. Paulo, em 4 de setembro de 1999.

Na entrevista, Bolsonaro compara o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez ao Marechal Castelo Branco – primeiro presidente do regime militar – e diz acreditar que o líder venezuelano “vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”. “Só espero que a oposição não descambe para a guerrilha, como fez aqui”, diz o capitão reformado.

A entrevista – que consta na íntegra no acervo do Estadão – chama atenção justamente pelo fato de Bolsonaro ter na crise venezuelana um dos motores propulsores de sua campanha. O risco de “venezuelanização” do Brasil tem sido um ponto central no discurso de partidários de Bolsonaro nestas eleições, como já apontou um artigo recente da agência AFP.

O temor de se tornar uma Venezuela é compreensível. Diariamente, imagens de venezuelanos famintos, cruzando as fronteiras de países vizinhos despertam um sinal de alerta. Com uma inflação prevista para chegar a 10.000.000%, em 2019, a Venezuela é assolada pela escassez de alimentos, medicamentos e produtos de primeira necessidade. Em agosto deste ano, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, afirmou que a Venezuela é “vítima da maior crise humanitária que o continente já viu, que vem gerando o maior êxodo nas Américas”.

No entanto, dentre todos os candidatos que disputaram as eleições deste ano, é justamente Bolsonaro quem mais guarda semelhança com as retóricas de Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro.

Ascensão de militares

Assim como Bolsonaro, Hugo Chávez era um militar reformado fascinado pelo nacionalismo quando chegou ao poder. Sua ascensão meteórica perante o eleitorado venezuelano se deu num momento que o país atravessava uma forte crise que alimentava a indignação popular. Sua agenda patriótica e seu discurso anti-establishment seduziram os venezuelanos e ele foi eleito presidente.

Ao chegar ao poder, Chávez nomeou militares reformados para compor seu governo, o que é visto por alguns analistas como uma forma de garantir o apoio do Exército em futuras crises. A ascensão de militares no governo também consta nos planos de Bolsonaro, que, em entrevista ao jornal Valor Econômico, em agosto deste ano, afirmou que em seu governo “vai ter um montão de ministro militar”.

Um desses militares é o general reformado do Exército Hamilton Mourão, vice-presidente na chapa de Bolsonaro, constantemente envolvido em polêmicas e declarações conflituosas com a própria campanha de Bolsonaro, mas que, em uma eventual vitória do candidato do PSL, assumirá o comando do país em todas as ocasiões que o presidente estiver em viagens oficiais.

Quem também tem um militar reformado como vice é o atual presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que tem como vice Diosdado Cabello, militar reformado que também foi vice de Chávez e recentemente afirmou que as imagens da crise migratória venezuelana são encenações.

Sinal de alerta

Para o cientista político americano Matthew Taylor, autor de diversos livros sobre a democracia brasileira, esta admiração por militares, somada ao histórico de Bolsonaro, representa, sim, um sinal de alerta. Em entrevista à rede BBC Brasil, Taylor disse que “temos, sim, razão para estarmos profundamente preocupados com o fato de termos um candidato que é um expoente de um braço mais radical do Exército, que já defendeu o regime militar e que se guia por uma retórica de lei e ordem num país que historicamente teve abusos a direitos civis e continua a ter hoje”.

“O receio que eu tenho é de que Bolsonaro atue de forma a lentamente erodir as instituições democráticas como Chávez fez de forma muito eficiente na Venezuela. Eu comparo frequentemente a Venezuela e a administração de Chávez à metáfora de ferver um sapo. O sapo não foge da panela e não percebe que vai morrer quando você vai ajustando a temperatura lentamente”, disse Taylor.

Segundo o cientista político, apesar das diferenças ideológicas, é possível ver algumas semelhanças também nos discursos de Chávez e Bolsonaro. Para Taylor, a democracia brasileira é mais forte que a venezuelana, o que pode blindar o país de uma guinada antidemocrática promovida em um eventual governo de Bolsonaro. No entanto, ele cita alguns sinais de alerta como a recente declaração de Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável, de que bastariam “um cabo e um soldado” para fechar o STF, e a declaração de Bolsonaro de que, se eleito, não se comprometerá com a lista tríplice do Ministério Público, umas ferramentas que garantem autonomia ao órgão.

Taylor também cita a marginalização da oposição promovida por Chávez e Maduro e a ascensão de parlamentares alinhados ao governo de ambos. No entanto, questionado sobre a recente declaração de Bolsonaro sobre “acabar com os marginais vermelhos” – declaração associada à perseguição a opositores – Taylor afirmou suspeitar “que parte desse discurso seja eleitoreiro”, uma vez que “os instrumentos que um presidente da República no Brasil tem para perseguir oponentes são, felizmente, razoavelmente fracos”.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

9 Opiniões

  1. jayme endebo disse:

    O fato de Bolsonaro elogiar o Chaves não significa que apoia maduro ou próprio chaves, muitas pessoas apoiavam lula e depois se arrependeram portanto a matéria é bem desonesta e anti-Bolsonaro. Uma pena a mídia ser petista.

  2. Almanakut Brasil disse:

    Tem alguma foto com eles juntos?

    Se o Bolsonaro trouxer de volta o máximo do dinheiro que foi repassado para belezebus amigos da Organização Criminosa PT, está bom demais!

  3. Reginaldo Reis disse:

    Um texto produzido com uma pseudo lógica que atenta contra a a racionalidade . Lamentável ! Pior , ainda, o recurso de buscar a ” opinão abalizada” de um experto estadounidense,para amparar a falta de sustentação. Reflitam sobre o uso da mídia para ações de qualidade duvidosa !!!

  4. Apocalíptica disse:

    “Peça de jornalismo” tendenciosa e imbecil. Desencavar uma declaração do candidato de 4 de setembro de 1999?Francamente , vocês deveriam se envergonhar de estar tentando arrumar factóides para o poste a 3 dias da eleição…

  5. SYLVIO PORTO DA COSTA MATTOS disse:

    No final vocês colocam: “Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site”. No entanto, não há registro de autoria da notícia.
    V E R G O N H O S O ! Vou cancelar o recebimento de mensagens deste site. Imprensa tendenciosa é o que de pior existe no jornalismo.
    R I D Í C U L O S !

  6. Aline disse:

    Ótimo texto. Reúne vários elementos para reflexão. O que se espera de fato é que, se eleito, realmente tal candidato não conte com recursos para perseguição e imposição de ideias, tal como comenta Taylor. É triste pensar na destruição lenta dos mecanismos que blindam e garantam a manutenção do regime democrático. Mais do que isso, é desesperador.

  7. Jayme Mello disse:

    Salvo engano, quando não registro claro, indicando o autor matéria, objetivamente, a responsabilidade tácita do texto publicado, naquele (tal) veículo de comunicação, cabe a chefia de redação, bom pelo menos, era assim em outros tempos.

  8. Jayme Mello disse:

    Ao meu ver não e, salvo equívoco, ele, o redator, não fala de apoio ou desapoio, muito pelo contrário; simplesmente, aponta a inconteste verossimilhança entre as duas personalidades e as suas respectivas trajetórias, enquanto pessoas públicas.

    Quanto a classificação de colocar o Opinião & Notícia, como mídia petista, – é de provocar frouxos de risos até o ano 2055, pois, foge dos parâmetros usuais e, de todos os aspectos inimagináveis.

  9. Rocio disse:

    Acredito em mudanças. Precisamos de alguém firme no poder, principalmente com a corrupção,
    violência e vandalismos.
    Espero ver todo dinheiro brasileiro desviado,de volta aos cofres públicos e o ‘ladrões” presos.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *