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CRISE HUMANITÁRIA

ONU pede maior apoio a refugiados venezuelanos

Apelo vem em meio ao aumento da violência contra venezuelanos no Brasil. Em Pacaraima, moradores promovem caça aos refugiados

ONU pede maior apoio a refugiados venezuelanos
Boatos nas redes sociais e descaso do governo alimentam a violência (Foto: EBC)

A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu na última quinta-feira, 23, maior apoio a refugiados venezuelanos por parte de governos sul-americanos e da comunidade internacional.

O apelo foi feito pelo alto comissário da ONU para refugiados, Filippo Grandi, e pelo diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), William Lacy Swing.

“Em junho, havia cerca de 2,3 milhões de venezuelanos vivendo no exterior. Nove entre dez buscavam asilo em países da América Latina, em especial Equador, Peru, Colômbia e Brasil. A tendência está acelerando, com cerca de 2.700 a 4.000 novas chegadas [de venezuelanos] diárias em países vizinhos”, diz a organização.

Grandi e Swing elogiaram os esforços implementados pelos vizinhos sul-americanos para acolher os venezuelanos, mas expressaram preocupação em relação às novas medidas tomadas por governos da região para restringir o acesso dos imigrantes. Tais medidas incluem novos requisitos de passaporte e documentos para entrada fronteiriça no Equador e no Peru, assim como uma série de modificações às permissões de residência temporária para os venezuelanos no Peru.

A preocupação se dá em especial em relação a pessoas em situação vulnerável, como adolescentes e mulheres que tentam se reunir com seus familiares, bem como crianças desacompanhadas ou separadas dos pais, que, de acordo com a organização, “não podem cumprir os requisitos de documentação e, por conseguinte, estão mais expostas à possibilidade de exploração, violência e maus-tratos”.

“Reconhecemos os desafios cada vez maiores em relação à chegada massiva de venezuelanos. Continua sendo muito importante ter em conta que qualquer nova medida que seja tomada permita àqueles que necessitam de proteção internacional o acesso à segurança e que possam solicitar refúgio”, disse Grandi.

“Elogiamos os esforços já realizados pelos países de acolhida com o objetivo de dar aos venezuelanos condições de segurança, apoio e assistência. Confiamos que tais demonstrações de solidariedade continuarão no futuro”, disse o diretor-geral da OIM, em Genebra, na quinta-feira.

A ONU ressalta que o ACNUR, a OIM, outras agências da organização e parceiros estão trabalhando para apoiar as respostas nacionais por parte dos governos da região para resolver a complexa situação.

Imigração aumenta no Peru

Nos últimos dias, milhares de venezuelanos atravessaram o território da Colômbia para tentar entrar no Peru, antes que as novas regras migratórias do país entrem em vigor – o que está previsto para o próximo sábado, 24. As novas regras tornam obrigatória a apresentação de passaporte para entrar em território peruano.

Segundo noticiou a agência AFP, muitos os imigrantes chegavam à fronteira do Peru cansados, desidratados e mal alimentados. Muitos caminharam por mais de 20 dias, carregando mochilas com seus pertences, sem se alimentar ou ter acesso a banheiros. De acordo com a AFP, muitos migrantes apresentam feridas nos pés devido à longa caminhada.

Em Pacaraima, refugiados denunciam caça aos venezuelanos

Já no Brasil, os venezuelanos que vivem em abrigos em Paracaima (RR) denunciam a existência de uma caça aos venezuelanos, promovida por moradores do município. Grupos de brasileiros formaram carreatas informais e passaram a patrulhar a ruas da cidade, alguns em caminhonetes outros em motos.

As patrulhas ocorrem poucos dias após cerca de 1,2 mil venezuelanos deixarem o município por medo da violência, após vários refugiados serem expulsos a golpes de pau e pedra dados por brasileiros, que invadiram abrigos e incendiaram pertences e acampamentos. A queima dos documentos dificulta aos refugiados a regularização no país.

A denúncia foi feita a uma equipe da agência Deutsche Welle, que esteve na região. “A própria polícia faz vista grossa para os motorizados [motociclistas] que estão fazendo as patrulhas. Estamos sendo tratados como lixo, como animais”, disse Miguel Ángel García, que teve todos os seus pertences queimados. ‘

As patrulhas se intitulam “carreatas da paz” e refutam acusação de violência ou xenofobia. No entanto, segundo o padre espanhol Jesús Bobadilla, que atua há nove anos como pároco de Pacaraima, a violência é um fato nas carreatas, e a declaração do governo de que a situação na região se acalmou é falsa. Ele afirma que motoqueiros encapuzados e armados com bastões caçam venezuelanos à noite e que vem perdendo fiéis no município por conta de sua atuação em prol dos refugiados.

“Todo o discurso de que há tranquilidade, de que a cidade está em paz, é falacioso, não existe, não sabemos o que vai acontecer. Eles também têm realizado o que chamam de carreatas da paz, mas não há nada pacífico nelas, são verdadeiras patrulhas. Já perdi 50% dos meus fiéis, mas não me importo, estou seguindo as palavras do evangelho”, diz o pároco (confira aqui a reportagem da DW na íntegra).

Boatos nas redes sociais e descaso do governo

A violência contra venezuelanos em grande parte vem sendo alimentada por boatos que circulam nas redes sociais, em especial no WhatsApp. Áudios sem procedência confirmada e informações distorcidas fomentam o sentimento anti-venezuelanos.

É caso do episódio envolvendo o comerciante Raimundo Nonato, por exemplo – cujo assalto sofrido por parte de venezuelanos instigou a onda de violência no último fim de semana. Informações veiculadas nas redes sociais afirmavam que Nonato foi esfaqueado e estava em coma, “entre a vida e morte” no hospital. Na verdade, o comerciante nunca foi esfaqueado, nem esteve em coma. Ele teve traumatismo craniano por conta de uma pancada na cabeça, mas foi atendido e recebeu alta um dia após a internação.

Em outro caso, desta vez em Boa Vista, um vídeo circulou nas redes sociais, “denunciando” que gestantes brasileiras estavam sendo expulsas de maternidades para dar lugar a venezuelanas. O caso tinha como base o depoimento de Alice Marye Souza, que afirmava estar grávida de 41 semanas e se recusava a deixar o hospital estadual Nossa Senhora de Nazareth.

No entanto, segundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, a história era diferente. A diretora de apoio técnico da maternidade, Moema Farias, explicou que Alice não estava com 41 semanas de gravidez, mas sim com 38, o que foi comprovado por exames médicos e ultrassom. No entanto, diante das queixas da gestante, a equipe da maternidade decidiu induzir o parto. Procurada, Alice não quis dar entrevista à Folha sobre o ocorrido.

Outro ponto que complica a situação é o descaso do governo federal, que demorou a tomar providências e a atender aos pedidos de auxílio feitos pelo estado de Roraima, que, de fato, não tem infraestrutura para receber o grande fluxo de refugiados. Recentemente o governo se comprometeu a acelerar o processo de interiorização dos refugiados venezuelanos para estados com mais capacidade de acolhimento.

Este processo pode render bons resultados, como informou a ONU no início deste mês. Segundo a organização, quase 30% dos venezuelanos que chegaram a São Paulo, a partir do processo de interiorização do governo federal, já arrumaram emprego. Ao todo, 81 dos 287 estrangeiros já conquistaram uma vaga no mercado de trabalho.

 

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1 Opinião

  1. Jayme endebo disse:

    A onu realmente é de uma inutilidade impar, mostrando o seu completo despreparo para a paz mundial. Nao seria mais facil e barato para todos se denunciasse a forma de governo na venezuela? Deveria pressionar para que o país retornasse à democracia com eleiçoes limpas e pacificasse a nação.

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