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Carnaval 2011

Organização sim, ‘blócodromo’ não

O carnaval de rua do Rio precisa manter sua identidade: livre, democrático, irreverente, sem abadás. Por Rita Fernandes*

Organização sim, ‘blócodromo’ não
Cerca de 30 blocos desfilaram no domingo, 16, para comemorar o carnaval (Fonte: O Globo)

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Temos observado esse fenômeno que se tornou o Carnaval dos blocos de rua ainda sem ter muitas respostas sobre o que pode acontecer no futuro. “Será que o número de blocos vai aumentar? Qual a previsão de crescimento para os próximos anos? Quantos foliões vão estar nas ruas?” Perguntas que tentam dimensionar o futuro do carnaval de rua não podem ser respondidas com exatidão.

O que chamam hoje de resgate do Carnaval de rua foi de fato um movimento que se iniciou há mais de 25 anos e que foi se consolidando como um processo social. O Simpatia É Quase Amor e o Barbas, que estão para realizar seu 27º desfile, por exemplo, surgiram no contexto do movimento das Diretas Já, momento político e histórico bastante diferente do que vivemos hoje em tempos de UPPs e de pacificação.

Hoje somos mais de 400 blocos, com uma previsão de 3 milhões de foliões nas ruas da cidade. E o fato é: crianças, jovens e adultos descobriram o prazer de um carnaval que preza pela irreverência, pela alegria e pela diversidade. Mas aí, tem o outro lado da história, quando a cidade tem que lidar com toda essa movimentação. E seria ingênuo, até irresponsável, adotarmos o discurso de que não se deve organizar. Apoiamos a organização do espaço urbano, do trânsito, da segurança e da limpeza, pelo poder público. Mas é preciso separar bem o que se quer quando o assunto é organização para que não haja uma confusão de que o carnaval dos blocos pode entrar em um processo de normatização.

O carnaval de rua do Rio precisa manter sua identidade — livre, democrático, irreverente, sem cordas, sem abadás. Queremos continuar com esse espírito, com nossos desfiles nos nossos bairros de origem, com as cores das nossas bandeiras, e o entra-e-sai dos foliões. Mas uma coisa é organizar a cidade, o direito de ir e vir de todos, sejam de foliões ou não. Outra coisa é transformar o carnaval de rua e deixar que ele vá para um circuito fechado, um “blocódromo”, como querem alguns moradores que não gostam da folia. É deixar que novos empresários de carnaval vendam espaços fechados por cordas, nos quais só entra quem compra o “abadá”, num caminho direto para uma manifestação que não tem nada a ver com o Rio de Janeiro. Isso sim, a nosso ver, seria acabar com o carnaval. O carnaval de rua do Rio tem que continuar a refletir a alma da nossa cidade: livre, democrática, irreverente e libertária.

* Rita Fernandes é presidente da Sebastiana — associação que reúne 12 dos maiores blocos de rua do Rio de Janeiro

Fontes:
Sebastiana - Organização sim, 'blócodromo' não

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