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Eleições 2014

Os ajustes pós-Copa

Quando o país voltar novamente suas atenções para as eleições de outubro, passaremos às 'semi-finais' das candidaturas e coligações

Os ajustes pós-Copa
Dilma deixou no banco de reservas as medidas ​reconhecidas como eficazes para seu controle (Fonte: Reprodução/ABr)

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Quando o país voltar novamente suas atenções para as eleições de outubro, passaremos às “semi-finais” das candidaturas e coligações. Nesta “arena” a inflação elevada tem sido “um gol contra” eleitoral para a candidata à finalista da Copa do Planalto. Observa-se que, na função de “Felipão de saias” da “seleção econômica”, a presidenta deixou no banco de reservas as medidas ​reconhecidas como eficazes para seu controle: elevação dos juros, redução do crédito e das transferências, controle dos gastos públicos, contenção do salário mínimo, etc. Ora, o nome deste jogo é ser demagógico e levar a Copa, custe o que custar: a opção do governo para o tetracampeonato do PT é manter a inflação baixa, reduzindo artificialmente os preços administrados como combustíveis, eletricidade e transporte público e manipular a taxa de câmbio para tornar as pesadas importações isoladas do aumento de preços em reais. Não tomando os cuidados adequados, o resultado é que todos os uniformes sujos escondidos no vestiário tenham de ser em algum momento lavados para entrar em campo em 2015.

Os economistas são praticamente unânimes em afirmar que os ajustes em 2015 terão de vir; discordam sobre a dose e o ritmo dos consertos necessários. Um dos precursores da ciência política, Niccolo Machiavelli (1469-1527), afirmou que em política as maldades (como são interpretados atos de governo a princípio impopulares) devem ser feitas de uma vez e as bondades, aos poucos. Isso sugere que melhor seria se as correções fossem feitas numa ação só. Aparentemente seria uma dor aguda, mas ficaria a certeza de que a solução estaria bem encaminhada. Pior seria ficar esperando diversos pacotes de intensidades variáveis. Mas Machiavelli infelizmente nunca veio ao Brasil e não tinha experimentado a hiperinflação e tampouco seus efeitos repetidores pela inércia, preços administrados e expectativas.

Segundo Celso Ming, do Estadão, bombas sempre podem ser desarmadas. Mas ninguém sabe ainda como o próximo governo desarmará a bomba dos preços administrados. Há entre os analistas certo consenso de que esse represamento pesa entre 1,5 e 2,0 pontos percentuais sobre a inflação. Ou seja, não fosse essa artificialidade, a inflação medida em 12 meses estaria acima dos 7%, superior ao teto do regime de metas, estipulado em 6,5%. Como este fato já está na cabeça de quem tem de se planejar para prazos mais longos, 2015 incluído, as previsões já incorporam aumento da SELIC para 12% e inflação pelo IPCA superior a 7%, conforme o relatório Focus divulgado pelo Banco Central em 23 de junho. A presidenta já sugeriu que esses preços serão realinhados por um processo prolongado, a começar, provavelmente, logo depois das eleições.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, mesmo que apoiando o governo tem, entretanto, recomendado que, iniciado o novo mandato, ou mesmo antes, os reajustes venham de uma só vez, para não deixar serviço por fazer.

Em pólo oposto politicamente, Armínio Fraga, coordenador do programa de governo do candidato Aécio Neves, não é adepto do tratamento de choque, seja para derrubar a inflação ou para recolocar a política fiscal no rumo de um superávit primário maior e melhor, talvez não queira assustar os eleitores.

Para Gabriel Barros, economista do IBrE/FGV, é inevitável reduzir despesas ligadas às transferências de renda. Nos últimos 14 anos, de 2000 a 2013, o número de pessoas que passou a receber algum tipo de benefício do governo federal saltou de 29 milhões para 75 milhões, mais impressionantes 46 milhões. Cerca de 90% desses beneficiários estão na faixa salarial de até um salário-mínimo. Esses números adicionam um ingrediente na discussão em torno da nova regra de reajuste do salário mínimo, relevante para o equilíbrio do orçamento público. O crescimento da quantidade de benefícios, justamente até a faixa salarial que teve aumento de mais de 70% acima da inflação, produziu forte impacto no gasto público com transferência de renda, que passou de 6% para 9,6% do PIB. Foi para este objetivo, principalmente, que o aumento da carga tributária foi canalizado. Nos seguro-desemprego e auxílio-doença, segundo Barros, é de amplo conhecimento, inclusive do governo, que existem desvios de finalidade, com muitos beneficiários se valendo de brechas para receber o benefício. Na concessão de auxílio-doença, em particular, existem importantes indícios de corrupção.

Segundo Pedro Ferreira e Renato Cardoso, professores da EPGE/FGV, o que precisa ser feito para recolocar a política econômica nos trilhos não requer tanto sacrifício, mas bom senso: cumprimento estrito da meta de superávit primário sem artifícios contábeis; liberdade operacional ao BC, para que os formadores de preços voltem a acreditar que a meta de 4,5% é de fato o objetivo da autoridade monetária; flutuação cambial, para que essa variável possa absorver choques externos; realismo de preços administrados, para coadjuvar o BC na tarefa de coordenação de expectativas inflacionárias; desaparelhamento das agências reguladoras; reversão da ineficiente política industrial que custa em 0,5% do PIB em subsídio ao capital, além de atrofiar o desenvolvimento do mercado de capitais.

Um novo governo terá de assumir com vários atos para conquistar de imediato a credibilidade, reverter as expectativas negativas e contar com a adesão popular, já que a paciência chegou ao fim. Caberá a torcida, terminada a Copa do Mundo, em pouco mais de dois meses voltar-se para dura realidade da Copa do Planalto, e avaliar o que foi feito pela atual seleção econômica e se outros técnicos tem mais credibilidade para entrar em campo com novos jogadores em outro esquema tático.

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3 Opiniões

  1. Vitafer disse:

    Interessante comparação.

  2. helo disse:

    Na Copa time e técnico são bons. Quanto ao país está difícil acreditar no técnico e nos jogadores. Para reverter as expectativas negativas é preciso mudar de técnico e de time.

  3. Francisco Lcena disse:

    Somente economista é capaz de entender e compartilhar de determinadas analises, Vejam bem, o cenário econômico e social brasileiro, que vislumbramos é muito diverso do que vivenciamos nos 8 anos anteriores a 2003. Noas tínhamos uma inflação em trono de dois dígitos, uma massa de pessoas excluídas que que não conseguiam, pelo menos, se alimentar direito, nós tínhamos um estado fraco e dependente do FMI e do bom humor dos americano, tínhamos um salário achatado, desemprego elevadíssimo, patrimônio público sendo entregue a preço de banana, falta de perspectivas para a juventude nos processos educativos, pois, somente quem tinha mito dinheiro podia frequentar universidade, a diversidade sendo ignorada e desassistida e, finalmente, os tapetes dos palácios e repartições públicas servindo, principalmente, para abrigar e dar cobertura a sujeira que sempre foi escondida da cidadania. Muita coisa mudou para melhor, porem, muitos fingem não ver, ou não perceber. As analises dos profetas de Apocalipse são cada vez mais catastróficas, todavia, a realidade e perspectiva, principalmente, com os indicadores da retomada do crescimento, pós crise do modelo econômico, nos faz crer que o pior já passou. Profetas do caus, se cuidem!!!

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