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Conglomerado familiar

Os dois lados da Odebrecht

Considerada um paradigma da modernidade, empresa brasileira está cada vez mais associada a um jeito antiquado e pouco admirável de fazer negócios

Os dois lados da Odebrecht
Marcelo Odebrecht (direita) foi preparado para assumir a empresa desde a infância (Fonte: Reprodução/Reuters)

De muitas maneiras a Odebrecht, a maior empreiteira da América Latina, é um exemplo de uma empresa moderna, bem administrada e progressiva. O conglomerado tem uma forte cultura interna com ênfase no treinamento, na meritocracia e na descentralização da tomada de decisões. A Odebrecht foi uma das primeiras empresas brasileiras a se globalizar e agora metade de sua receita vem do exterior. Suas realizações lhe renderam elogios dos mais variados. Em 2010 a IMD, uma escola de negócios suíça, a nomeou a melhor empresa familiar do mundo. No ano passado a McKinsey, uma empresa de consultoria americana, publicou uma entrevista altamente elogiosa com Emílio Odebrecht, o presidente, sob o título: “Princípios e valores têm ajudado este conglomerado familiar brasileiro a prosperar”.

Os fãs da Odebrecht estão certamente lamentando suas palavras de elogio, especialmente a parte sobre princípios e valores, agora que a empresa se vê envolvida no enorme escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras.

Apesar das razões para considerá-la um paradigma da modernidade, há alguns anos a Odebrecht tem sido acusada de garantir negócios de uma maneira antiquada e pouco admirável. Em 1994, ela já fazia parte de um grupo de empreiteiras nomeadas em uma investigação do Congresso por subornar políticos para ganhar licitações (a empresa nega). Anteriormente, a empreiteira foi identificada como um dos doadores para uma firma de consultoria política que estava no centro do esquema de tráfico de influência que derrubou Fernando Collor, em 1992. Nenhuma acusação de corrupção contra a empresa já foi provada em um tribunal. No entanto, seus problemas atuais apresentam o maior desafio de sua história de 71 anos.

História da empresa

Os Odebrechts estão no ramo da construção no Brasil desde 1856, quando um jovem engenheiro chamado Emil chegou ao país como parte de uma onda de imigrantes alemães. A empresa de hoje foi fundada na década de 1940 pelo avô de Marcelo Odebrecht, Norberto. Desde o início, Norberto defendia uma filosofia de gestão que combinava a ética de trabalho protestante, infundida pelo tutor de infância do fundador, um pastor luterano, com as ideias de Peter Drucker, um guru da administração americana.

Nos tempos modernos, a Odebrecht tem se expandido para outras áreas, desde produtos petroquímicos a silvicultura. Tendo sobrevivido o colapso do real em 1999, beneficiou-se do boom de gastos públicos com infraestrutura do governo Lula, entre 2003 e 2010. A empresa também ganhou licitações em outros países ricos em recursos, onde já tinha um ponto de apoio, como Angola e Venezuela. Agora, o grupo emprega 181 mil funcionários em 21 países.Sua empresa petroquímica, a Braskem (parceira da Petrobras), está listada na bolsa de valores de Nova York e tem uma classificação de crédito de grau de investimento. Seu braço de construção também mantém esse rating apesar de seu envolvimento no escândalo da Petrobras, graças ao seu baixo endividamento e caixa líquido de R$ 1,5 bilhão.

A Odebrecht deve seu sucesso, em parte, à sua forte cultura interna. Seus funcionários, que são chamados de “integrantes”, são obrigados a estudar os cinco livros de Norberto e são interrogados sobre seus ensinamentos. Durante os primeiros cinco anos na empresa a aculturação corporativa tem um peso enorme nas avaliações anuais dos funcionários. Metas, que constituem o resto, são definidas conjuntamente por superiores e subordinados, que por sua vez, têm muita liberdade para atingi-las e são recompensados ​​com generosas porções do lucro quando o fazem. A estratégia gera um sentimento de lealdade que beira o religioso. Um grupo no Facebook chamado Odebrecht United tem mais de 17 mil membros, em sua maioria funcionários. O louvor pela empresa não conhece limites: “Nós somos todos uma família, somos todos Odebrecht!”, postou um discípulo.

Um ponto de interrogação permanece, porém, sobre o futuro da liderança da empresa. Marcelo Odebrecht, 46 anos, que foi descrito por um conhecido de longa data como “supremamente inteligente, pragmático, quase robótico”, foi preparado para assumir a empresa desde a infância, de modo que seria difícil achar um substituto caso ele seja condenado. Além de seu pai, de 70 anos, apenas quatro outros membros da família trabalham na empresa, nenhum em posição de tomar as rédeas de todo o grupo. Então, se fosse necessário nomear um novo executivo-chefe, o cargo pode cair nas mãos de um profissional fora da família, como o principal assessor jurídico Newton de Souza, que está na empresa desde 1988, e que está no comando provisoriamente. Dada a forma como a Odebrecht é unida, tal mudança pode não fazer muita diferença.

Fontes:
The Economist - Principles and values

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