Início » Brasil » Os jovens e a giovinezza: quando por um átimo a dor tem sim comparação
AUTORITARISMO

Os jovens e a giovinezza: quando por um átimo a dor tem sim comparação

Foto de chilenos abraçados após a queda de Allende lembra, e muito, foto de brasileiros sentindo, e muito, a eleição de Bolsonaro

Os jovens e a giovinezza: quando por um átimo a dor tem sim comparação
A foto do abraço triste e solidário de 45 anos atrás, no Chile, e a foto atual após a vitória de Bolsonaro (Fonte: Reprodução/Montagem/Guardian)

Fotos, dizia Virgínia Woolf, “não são um argumento; são simplesmente a constatação de um fato”, no que alguém poderia notar que dizer isso é o mesmo que dizer que, contra fotos, ou melhor, contra fatos não há argumentos. Pois, seja diante de fatos, seja diante de fotos, são precisamente os argumentos (e os contextos, e os cotejos, e a memória, e os nervos) que a eles, aos fatos, e a elas, às fotos, conferem algum sentido.

Na montagem que encabeça este artigo, a foto da esquerda foi tirada na noite do último domingo, 28, no Brasil, logo após o fim da apuração dos votos do segundo turno da eleição presidencial. Essa foto foi a escolhida pelo jornal britânico Guardian para ilustrar a notícia da vitória de Jair Bolsonaro. A foto da direita é do dia 11 de setembro de 1973, nas cercanias do Palácio de La Moneda, logo após a morte de Salvador Allende durante o cerco final à democracia chilena, comandado pelo general Augusto Pinochet.

No dia final de Allende, inicial da sangrenta ditadura de Pinochet, as Forças Armadas e Carabineiros do Chile requisitaram ao presidente que entregasse o cargo, para que pudessem cumprir sua “histórica e responsável missão de lutar pela liberação da pátria do jugo marxista”. A resposta de Allende, seu último discurso, pode ser lida neste link do site da Empresa Brasil de Comunicação. A EBC, que Jair Bolsonaro pretende aniquilar, a exemplo do ensino presencial de disciplinas que não sejam “práticas”, como o ensino de História, sempre a título de “combater o marxismo”.

A foto do abraço triste e solidário de 45 anos atrás, no Chile, quando da tomada do poder pela Junta Militar, essa foto foi exibida no documentário “Condor”, do diretor brasileiro Roberto Mader. “Condor” é dessas obras que o possível “ministério do Entretenimento” do governo Bolsonaro possivelmente colocará sob a classificação indicativa de que “quem procura osso é cachorro”. Outra é “Batismo de sangue”, filme sobre tortura na ditadura brasileira baseado no livro homônimo de Frei Betto, figura que tem como agravante ser amigo de longa data “do presidiário”.

Tudo enquadrado entre aspas

Na última quinta-feira, 25, “Batismo de Sangue” foi exibido pelo professor Jam Silva Santos para uma turma do 2º ano do ensino médio de uma escola do interior do Ceará. Um dos alunos “denunciou” seu professor na internet por “doutrinação comunista”. Num ato de desagravo, na segunda, 29, Jam foi recebido na escola Santa Cecília com uma salva de palmas de dezenas de estudantes. No mesmo dia, porém, Ana Caroline Campagnolo, deputada estadual eleita em Santa Catarina pelo PSL, conclamou a giovinezza nacional a mandar para seu número do WhatsApp denúncias sobre professores que manifestarem desagrado, ou “mimimi”, com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Em uma foto publicada em seu perfil no Facebook, Ana Caroline Campagnolo aparece empunhando uma espingarda cor-de-rosa.

Também no dia 29, o próprio Bolsonaro, já na condição de presidente eleito do Brasil, mandou um “recado” a oito professores da Fundação João Pinheiro, instituição de pesquisa de Minas Gerais voltada para o planejamento da administração pública. Citando-os nominalmente, exortou os oito docentes à “recuperação” ideológica.

Em outro vídeo, gravado também depois da eleição, o futuro capitão em chefe dá “uma orientação a toda a garotada do Brasil”, e é essa: “vamos filmar tudo o que acontece em sala de aula e vamos divulgar isso daí”. O objetivo, segundo ele, é que “os homens de bem deste país” saibam o que os professores, afinal, professam em seu local de trabalho. “Professores entre aspas”, fez questão de pontuar, à moda como anos atrás, quando ainda era uma figura irrelevante, Bolsonaro respondeu com um “se é que foi torturado” a um homem que, num debate, dirigiu-lhe duas perguntas: “Primeiro, quem tem medo da comissão da verdade? Segundo, quando é que eu vou poder perguntar, a quem me torturou, por que me torturou?” .

A memória vs. ‘pela memória do coronel’

“É intolerável ter o próprio sofrimento comparado ao de outra pessoa”, constatou a escritora americana Susan Sontag, após relatar, em seu livro sobre o efeito das imagens da dor dos outros em nossas vidas, como os habitantes de Sarajevo se sentiram ofendidos quando alguém organizou na cidade uma exposição com fotos dos horrores da Guerra da Bósnia lado a lado com fotos dos horrores de uma outra guerra qualquer, distante no mapa.

Comparando aqueles dois instantes, aqueles dois abraços, um captado pouco antes de Pinochet declarar estado de guerra no Chile (e, portanto, antes da carnificina inimaginável que estava por vir), outro captado pouco depois de Jair Bolsonaro ser confirmado presidente eleito do Brasil; olhando para esses dois átimos de dor, o que será que dói mais no coração dos casais, cotejando a memória do passado com o sentimento do presente: ver o arbítrio chegar ao poder bombardeando a sede do governo ou ver o arbítrio chegar ao governo pela via do voto popular?

No documentário “Condor”, já no final, diz assim o jornalista americano John Dinges, autor do livro “Os Anos do Condor: uma década de terrorismo internacional no Cone Sul”:

“Se um movimento militar, no futuro, começar a ficar tentado pela ditadura, pelo autoritarismo, de novo, poderão olhar para trás e ver o que houve com Videla, o que houve com Contreras, o que houve com Pinochet. Poderão ver o que aconteceu com essas pessoas. Elas estão em prisões, em muitos casos, em muitos países, e serão acossadas pela Justiça até suas mortes, como foi com Pinochet. E isso é uma lição importante para um futuro megalomaníaco que possa querer fazer o mesmo”.

Dinges não cita nenhum protagonista, nem do Planalto, nem do porão, do “movimento” de 64 no Brasil, como diria Dias Toffoli, sem nem precisar de um soldado ou um cabo em sua cola, mas com um general já ajudando a pôr-lhe a toga. No Brasil, onde crimes contra a humanidade são esquecidos a jato, quem citou recentemente um deles, um daqueles “heróis”, foi o agora presidente eleito da República, no Congresso Nacional, numa ode ao torturador feita no instante em que votou pela deposição da torturada: “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.

Foto com foto, filme com filme

No último domingo, mais ou menos na mesma hora em que era feita a foto destacada pelo Guardian para ilustrar o estado de espírito de parte da juventude brasileira, pela mesma hora, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, dezenas de pessoas filmaram com seus celulares um comboio do exército sendo ovacionado por uma multidão em um dos pontos mais nobres do bairro mais nobre da cidade: Icaraí.

Segundo o porta voz do Comando Militar do Leste, coronel Carlos Cinelli, o comboio passou pelo local fazendo o caminho de volta para o quartel, depois de fazer a segurança nas eleições. O coronel Cinelli explicou que os eleitores apenas saudaram as tropas pelo trabalho feito no dia da eleição, de segurança para o exercício da Democracia. Quando o comboio passa, com as pessoas aplaudindo os soldados e os soldados aplaudindo as pessoas de volta, ouve-se, porém, o coro de um outro tipo de celebração: “Ôô, a ditadura voltou, a ditadura voltou, a ditadura voltou”.

Se a foto do casal brasileiro desolado em 2018 lembra, e muito, a foto do casal chileno desolado em 1973, essa cena da multidão animada em Niterói também tem, e muito, um quê de “já vi esse filme”. Trata-se de “Desaparecido”, longa de Costa-Gravas estreado em 1982 que retrata a história real da busca por informações sobre o paradeiro de um jornalista americano, Charles Horman, “abduzido” pelo exército Pinochet por atividades consideradas “subversivas” pelo novo regime.

Logo no início de “Desaparecido”, chama atenção a cena em que os convivas de uma festa black tie que acontece numa mansão aplaudem um comboio do exército golpista, poucos dias após o golpe no Chile, quando os carros camuflados passam pela rua em frente apinhados de soldados exibidos, batendo continência, saudando de volta a plateia satisfeita de homens e mulheres de bem.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

9 Opiniões

  1. Jorge Cardillo disse:

    Que comparação esdrúxula. Allende foi deposto por golpe militar. O Bolsonaro foi eleito em eleição legitima e na pratica cria do PT que não reconheceu seus erros e foi responsável por gigantescos escândalos de corrupção com enorme rejeição popular

  2. Esdras disse:

    Muito bom!

  3. jan foster disse:

    Incrível essa capacidade de inventar estorias para manipular o publico, o autor se mostra apenas mais um dos inúmeros daqueles que tomam suas ilusões e medos como se fatos fossem, seduzem encantam manipulados emoções com fins políticos.
    É assim que vão fortalecendo factoides e “interpretoses” para ir construindo narrativas ilusórias.
    Um texto assim deveria ser precedido de alerta: “Atenção esse texto pode ser danoso à sua saúde mental. Utilize equipamento de proteção ao ler.”.

  4. Leonardo disse:

    Bolsonaro foi consequencia do PT. Admito nao gostar dele. Mas como ainda tem gente que acredita no PT? Sao 45 milhoes de bobos.

  5. Jayme Mello disse:

    BINGO, BINGO, BINGO – !

    E, é claro, inversamente proporcional as ideias beligerantes.

    Sr. HUGO SOUZA, parabéns – pelo irrepreensível texto !

    Os piores dos cegos são aqueles que, infelizmente, não querem enxergar.

    Mas, enfim, que o frágil frescor da frágil democracia à moda brasileira já tão agonizante, aliás, de toda forma possível, mas, ainda assim, que – ela, a DEMOCRACIA, neutralize a sua premonição tão contundente.

  6. Jayme Mello disse:

    Todavia, sabemos (todos?) que crises de lucidez, não acontecem todos os dias…

  7. Almanakut Brasil disse:

    É que de CUba não sobraram para contar história!

    O povo de Sodoma será sempre assim, mimimi e pimenta no dos outros!

  8. jayme endebo disse:

    Quanta histeria nessa eleição !

  9. Amigo disse:

    Realmente a comparação é esdruxula: Os chilenos, moralmente falando, estão em um patamar melhor que o nosso – por não terem clamado por Pinochet

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *