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Os usos e abusos do BNDES para além do jatinho de Huck

O ex-pré-candidato à presidência da República pelo partido FHC foi às compras aéreas com ajuda do BNDES, mas isso é fichinha diante de certas “pedaladas” pós-impeachment e da mão que se deu, pré-impeachment, aos “campeões nacionais”

Os usos e abusos do BNDES para além do jatinho de Huck
Huck pegara emprestado R$ 17,7 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Foto: Flickr)

O trocadilho é realmente inevitável: a candidatura do apresentador de TV Luciano Huck à presidência da República Federativa do Brasil mal parecia ter decolado de vez, quando recebeu o apoio quase explícito do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas foi obrigada a voltar a pôr o trem de pouso em terra firme depois da notícia, veiculada no fim da semana passada, de que Huck pegara emprestado R$ 17,7 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para fins não muito nacionais, muito menos desenvolvimentistas, quiçá sociais: comprar um jatinho com o qual cruza o céu duas vezes por semana para gravar seu programa na Rede Globo.

Passado o Carnaval, chegou a notícia, na última quinta-feira, 16, da desistência (mais uma, é bom lembrar) de Huck no que se refere a concorrer ao Palácio do Planalto daqui a alguns meses. A justificativa “oficial” foi a resistência da família em vê-lo dar a cara para apanhar numa campanha presidencial em um país polarizado. É evidente, porém, que uma candidatura Huck, cuja “mais-valia” seria precisamente sua imagem de moral ilibada, sua condição de “novidade”, de jamais ter levado qualquer tipo de vantagem no trato com a coisa pública, bem, essa imagem possivelmente não resistiria aos juros subsidiados pelo Tesouro Nacional de 3% ao ano, com 114 meses de amortização para pagamento do empréstimo tomado em 2013 por meio do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES, que destina-se a financiar investimentos de empresas, compra de bens de capital (máquinas e equipamentos), ações de pesquisa e desenvolvimento, além de exportações.

Mas, justiça seja feita à comprinha subsidiada do ex-pré-candidato à presidência, ela é nada menos do que “fichinha” diante do que já se fez, e do que faz agora mesmo, com os recursos do BNDES. Na lista dos usos e abusos do dinheiro do banco tem até o governo federal pegando empréstimo por lá para ajudar a pagar o funcionalismo, o que, tivéssemos no Brasil uma imprensa minimamente coerente (em relação aos alardes que faz, e aos que deixa de fazer), botaria no bolso quaisquer pedalas fiscais ou créditos suplementares.

Pois concomitantemente à circulação da notícia do jatinho de Luciano Huck comprado com a ajuda do BNDES começou a circular também a informação de que o governo Michel Temer está tomando dinheiro emprestado do BNDES, e de outras fontes, para pagar despesas do dia a dia, como parte da folha de pagamento de servidores civis e militares, além de benefícios da Previdência Social. A chamada “regra de ouro”, prevista na Constituição Federal, proíbe o governo de pegar empréstimos no mercado para pagar despesas de custeio. Essa regra, a rigor, não está sendo oficialmente descumprida porque a diferença entre a tomada de empréstimos e as despesas de custeio tem sido coberta nos últimos três anos com dinheiro do BNDES: R$ 100 bilhões em 2016, R$ 50 bilhões em 2017 e previsão de R$ 130 bilhões para 2018. Uma pedalada e tanto, portanto.

Também por esses dias correntes ficamos sabendo que o BNDES concedeu crédito nada menos que proibido a estados e municípios. Proibidos porque é proibido, mais uma vez pela Constituição, aceitar receitas futuras de impostos como garantia, não sem aval do Tesouro Nacional. Não houve aval do Tesouro, mas o BNDES autorizou os empréstimos mesmo assim.

No passado recente, o BNDES irrigou o conglomerado OGX, de Eike Batista, com R$ 10,4 bilhões. Mais ou menos a metade do que o banco desembolsou em empréstimos sob condições pra lá de camaradas aos camaradas “campeões nacionais”, alcunha com que ficaram conhecidos os empresários brasileiros que o governo Lula apresentava como exemplos, como exemplares, do vigor da economia brasileira diante do mundo. Pois os “campeões nacionais” não prescindiram do doping dos juros subsidiados e das amortizações a perder de vista. Entre as companhias agraciadas estavam a OGX de Eike Batista e os frigoríficos dos irmãos Wesley e Joesley, também Batista, mas de outra estirpe de puros-sangues.

Na próxima terça-feira, 20 de fevereiro, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do BNDES entrega seu relatório final, incumbência que é do senador Roberto Rocha (PSDB-MA). O escopo da CPI é justamente a ajuda do BNDES na globalização de companhias nacionais, como a JBS e as empresas de Eike. Pelos vistos, já existe farto material para uma CPI do BNDES parte 2. Resta saber se haverá vontade política também.

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4 Opiniões

  1. Ronald disse:

    Faz muito tempo que perco mais tempo analisando o conteúdo divulgado pelos mais conhecidos órgãos da imprensa brasileira. É nítida a intenção de tais meios, de levar ao povo a informação que somente a eles interessa e isso é ruim, danoso à nação.

  2. Paulo Fernando disse:

    Quando o BNDES, servirá a causa pela qual foi criado? diante deste noticiário chega até
    ser estarrecedor.

  3. Markut disse:

    Não há como não levar em conta a sempre imutavel natureza humana. Aquí e em qualquer parte em que este bípede implume pise.
    Daí a necessidade de criar constantemente mecanismos regulatórios de prêmio e castigo ( divinos ,ou não ) para o comportamento humano,de tal forma que a necessária vida gregária em sociedade seja viavel. Trata-se de um embate permanente.
    Ficamos, afinal,ainda em falta dessa figura do verdadeiro Estadista, capaz de enxergar e administrar as inevitaveis diferenças.Infelizmente, para nos ajudar (o povo) a escolher essa figura, através do menos ruim dos sistemas políticos, que é a democracia,não temos outro recurso, se não os meios de comunicação,que nos fornecem as suas verdades relativas,das quais só o nosso discernimento poderá extrair as supostas verdades.
    Sem uma massa eleitora, que não seja analfabeta funcional, como é a nossa, recaimos fatalmente nas mãos do populismo predador dos urubús ávidos das suculentas carniças que o poder concede.

  4. Jeffwerson Tavares disse:

    Cúmulo do absurdo. Cada vez me surpreendo mais com as lastimáveis noticias que lemos e ouvimos desse governo sanguessuga e corrupto, e muito me admira certas figuras desse pais, contribuir com tamanha vergonha, sendo que, em entrevista, diz que quer acabar com as injustiças di país e quer moralizar essa Joça. Da muita vergonha!!!!

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