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VIÉS IDEOLÓGICO

Para onde aponta a política externa de Bolsonaro?

Indicação de Ernesto Araújo para ministro das Relações Exteriores descumpre a promessa de uma política externa sem viés ideológico

Para onde aponta a política externa de Bolsonaro?
Araújo foi indicado por Olavo de Carvalho, guru da extrema-direita brasileira (Foto: Instagram)

Nas poucas entrevistas que concedeu no período eleitoral, e nos dois únicos debates em que esteve presente, o presidente da República eleito, Jair Bolsonaro, repetia um de seus bordões quando questionado sobre política externa: nomearia um ministro das Relações Exteriores “sem viés ideológico”, que buscasse o melhor para o país, sem se pautar por princípios da esquerda ou da direita.

O escolhido foi Ernesto Araújo, que antes da indicação chefiava o Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty. Alinhado ao pensamento do clã Bolsonaro – ele foi recomendado ao filho do capitão, o deputado Eduardo Bolsonaro, pelo escritor Olavo de Carvalho, guru da extrema-direita brasileira – Araújo não apresenta, no entanto, o perfil moderado prometido durante a campanha.

Admirador de Donald Trump, para ele uma espécie de grande timoneiro do Ocidente na batalha contra o “globalismo” – segundo acredita o novo chanceler, um conjunto de ideias e práticas anti-cristãs, postas em curso pelas potências econômicas, visando a aniquilar o homem – Araújo promete uma guinada na condução da política externa brasileira. Algo parecido ao que o magnata do Partido Republicano, uma referência também para Bolsonaro, vem fazendo nos Estados Unidos.

Antes de tomar posse, o presidente eleito emitiu sinais de qual virada seria essa: em campanha, visitou Taiwan, estado anexo à China que busca há décadas a independência, o que foi lido por autoridades do gigante comunista como uma afronta do brasileiro; prometeu fechar embaixadas que considera “ociososas” na África e “rever” o Mercosul; reforçou a intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, o que significaria o não-reconhecimento da existência da Palestina como Estado; e intensificou a crítica aos profissionais cubanos que atuavam no programa Mais Médicos, levando ao rompimento da parceria com Cuba no início de novembro.

Mas, sem o peso econômico e o arsenal militar dos estadunidenses, pode o Brasil bancar uma política externa tão ideologicamente enviesada quanto a preconizada por Bolsonaro e Ernesto Araújo?

Primeiras reações

Como vem ocorrendo desde o resultado do segundo turno das eleições, a realidade tem dado mostras do que poderá acontecer, caso Bolsonaro leve adiante suas teses “antiglobalistas”.

Na primeira semana após a vitória do capitão reformado, algumas bravatas bolsonaristas repercutiram internacionalmente. A mais conhecida foi protagonizada pelo próprio presidente eleito, e diz respeito à mudança da embaixada brasileira em Israel.

Em reação às declarações de Bolsonaro, que reafirmou a intenção de transferir a embaixada para Jerusalém, o governo do Egito suspendeu uma visita oficial que o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, faria ao país. Organizada por empresários e autoridades egípcias, a reunião objetivava expandir o comércio entre as duas nações.

O recado egípcio não tem nada de enigmático: se repetir Trump e transferir a embaixada brasileira, Bolsonaro estará se indispondo com toda a comunidade árabe.

As consequências doeriam no bolso dos grandes produtores rurais, grupo que, por ora, apoia o novo presidente: um quinto das exportações brasileiras é destinada a países majoritariamente muçulmanos, sobretudo carne de boi e frango. Essas exportações são tão relevantes para a economia brasileira que o país se tornou um dos maiores especialistas na produção da carne “halal”, que obedece os preceitos muçulmanos de abate animal. Somente em carne de frango, o Brasil comercializou, em 2017, US$ 3,2 bilhões de “frango halal” com o Oriente.

Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas (FGV), é ingenuidade imaginar que o Brasil possa seguir os passos dos EUA na política externa. “Se um país avaliar que a atuação brasileira tem impacto negativo para seus interesses, o custo de se afastar do Brasil é muito menor do que se afastar dos Estados Unidos”, avaliou o professor em entrevista à BBC Brasil.

“Viés ideológico” ou pragmatismo?

Desde o fim do governo Collor, a tradição do Itamaraty tem sido a de trabalhar em silêncio, costurando acordos multilaterais – muitas vezes em associação com outras nações emergentes, o que aumenta seu poder de barganha, como no caso do Mercosul e do Brics – e, em que pese o alinhamento mais ou menos natural aos EUA, tem objetivado expandir seu raio de influência, buscando ser voz relevante em questões latino-americanas e africanas. E sempre, como pontuou a professora Elga Lessa, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em entrevista à BBC Brasil, “sem focar em rupturas”.

É certo que toda política carrega um quê de ideologia. Mas os estudiosos concordam que, no caso da política externa, o caminho percorrido por FHC, Lula e Dilma foi mais pragmático que “ideológico”.

Um exemplo está nas diversas embaixadas que, nos últimos quinze anos, o Brasil inaugurou no continente africano – muitas das quais estão no radar de Bolsonaro, por ele consideradas “ociosas”. Em entrevista ao site Sputnik News, Ignacio Bartesaghi, diretor do Departamento de Negócios Internacionais e Integração da Universidade Católica do Uruguai, avaliou como oportuno o movimento brasileiro de se aproximar do continente.

“Há um crescimento do consumo, um fenômeno de urbanização notório, por isso o consumo de bens e serviços se torna cada vez maior e merece atenção”, explica. Negligenciada por países desenvolvidos, que preferem exportar produtos para outras áreas mais ricas, o continente representa uma oportunidade para economias emergentes, que assim poderiam comercializar produtos de maior valor agregado.

E essas potencialidades já se materializam: entre medicamentos, plástico, veículos e máquinas, o Brasil exporta, anualmente, cerca de US$ 8 bilhões para a África. Caso feche as embaixadas no continente, é provável que o país perca mercados para a China e a Rússia, que também têm planos para a região.

Outro exemplo de pragmatismo era o acordo de Brasil com Cuba no programa Mais Médicos. Em que pese as críticas possíveis ao regime cubano, é certo que a chegada dos profissionais da ilha combateram um problema crônico de falta de médicos em regiões pobres do país. Para o analista Guilherme Evelin, nesse caso, o “viés ideológico” de Bolsonaro foi danoso ao brasileiro. Escreveu ele em artigo na revista Época:

“Ainda que Bolsonaro tenha razão em classificar o regime cubano como uma ditadura que se apropria dos salários dos médicos enviados ao Brasil como forma de engordar os seus combalidos cofres, o interesse nacional – e da população mais pobre que hoje só tem acesso a médicos cubanos — recomendava que qualquer revisão do programa fosse tratada com maior prudência e pragmatismo”.

O Mercosul e a questão chinesa

Dois dos principais parceiros econômicos do Brasil – a China e o Mercosul – estão em compasso de espera desde a vitória de Bolsonaro. O presidente eleito já demonstrou antipatia pelo país asiático, que, para ele, não está “comprando no Brasil”, mas “comprando o Brasil”. Já o Mercosul, bloco de países que movimentou US$ 40 bilhões em 2017, foi tratado por Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda, como uma “aliança ideológica muito ruim para a economia”.

Quanto ao Mercosul, a ideia de Guedes parece ser o afastamento do bloco, favorecendo negociações bilaterais do Brasil com outros países. As declarações do futuro ministro deram o que pensar na Argentina, um dos maiores compradores de manufaturados brasileiros.
Para o ex-embaixador da Argentina no Brasil Juan Pablo Lohlé, as palavras de Guedes geram “preocupação e surpresa”. O país, avaliou em entrevista ao site G1, deve, frente à nova composição política do continente, romper a dependência atual que tem do mercado brasileiro, buscando novos parceiros.

Já a questão chinesa assume outras proporções. O país é o principal comprador de produtos brasileiros, e um dos maiores exportadores, além de investir massivamente em infraestrutura no Brasil. Projetos anunciados para os próximos anos – e a serem confirmados, a depender do que se passe no Itamaraty – ultrapassam a casa dos US$ 120 bilhões, de acordo com o ministério do Planejamento.

Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, deu à agência Reuters seu parecer sobre a situação. “Se o presidente Bolsonaro quiser melhorar a economia brasileira, que é uma das razões pela qual o povo votou nele, vai ser muito difícil sem a colaboração chinesa”.
E, pragmático, concluiu: “Em um eventual ‘gelo’ entre Brasil e China, certamente a parte que vai sofrer não é a China”.

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2 Opiniões

  1. Moura disse:

    Não resta a menor dúvida que a política externa não deve ser guiada pelo viés ideológico. Os anos do PT no poder, com o esquerdinha Celso Amorim no Itamaraty, já foram suficientes para mostrar a necessidade de abandoar esta política… O país durante este período se manteve como mero financiador de ditaduras de esquerda, que hoje estão “dando o cano” nos financiamentos concedidos…

  2. helene salim disse:

    Itamaraty tem que trabalhar em silêncio, fazer amizade com todo mundo, nunca brigar! A atitude com viés à esquerda é tão ruim como essa que parece estar a chegar, à direita. Será que ainda dará para calar a boca ou trocar esse Ministro das Relações Exteriores???

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