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Parto humanizado: a volta do protagonismo feminino?

Com a proximidade do Dia das Mães, mulheres falam ao O&N sobre a importância de ter suas opiniões respeitadas sobre seus próprios partos

Parto humanizado: a volta do protagonismo feminino?
A gestante Gabriela Sarmento espera o nascimento de Maria Cecília e Vanessa Ingrid Saraiva segura sua filha Maria (Fotos: Mariana Mauro)

Gerar um bebê já é uma tarefa difícil por si só, mas quando a mãe resolve ter suas opiniões respeitadas na hora do parto, o desafio pode ser ainda maior. O parto humanizado promove exatamente isso, que a mãe seja protagonista nesta história e participe ativamente nas decisões de quem estiver prestando assistência. No entanto, uma série de barreiras faz com que esse desejo se torne complicado.

As médicas que fazem partos humanizados

A obstetra Renata Spínola, que tem consultório particular no Leblon e trabalha na Maternidade Escola da UFRJ, explica que o conceito de “humanizado” pode ser interpretado de formas diferentes. “A Medicina não compreende e não tolera a exposição de pacientes a partos arriscados por negligência da equipe. O parto deve ser natural, humanizado, mas a equipe precisa usar os meios disponíveis para controlar o bem-estar da mãe e do bebê, e detectar precocemente qualquer situação de emergência.”

“Hoje assistimos no Brasil a um retorno do entendimento do parto normal como via preferencial, mas contando com a tecnologia para ampliar a segurança e minimizar as intercorrências. Delicado é usar essa tecnologia sem invadir o espaço da gestante. Delicado, mas possível!”, explica.

A obstetra Valéria Moraes, do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, diz que mesmo para as gestantes consideradas de alto risco é possível um parto humanizado com total segurança para a mãe e seu bebê. “Há nove anos, tive conhecimento da medicina baseada em evidência na mudança das práticas obstétricas que havia aprendido na faculdade e residência médica. Isso ocorreu em um seminário estadual no Rio de Janeiro, organizado pelo Ministério da Saúde. A partir daí conheci outra forma, mais bonita e respeitosa, de prestar assistência ao parto, me levando a buscar mais informações fazendo com que, aos poucos, minha prática profissional mudasse.”

A médica que é mãe de dois filhos, que nasceram de parto normal, diz que ainda falta sensibilidade no mundo médico de aceitar o desejo da gestante. “Isso é uma coisa nova na relação médico-paciente. Até então, o conhecimento médico era algo absoluto e inquestionável. Muitos médicos ainda agem assim, não aceitando qualquer contestamento.”

O papel da doula no parto humanizado

A doula é a pessoa que vai prestar assistência emocional à mulher. O objetivo dela é dar atenção emocional e suporte físico, não farmacológico, de alívio da dor para a mulher durante o trabalho de parto. Gabriela Prado, de 31 anos, é psicóloga de formação e tem dois filhos: Malu e Léo. Ambos os partos foram domiciliares. Depois da primeira filha, ela começou a formação para se tornar doula. “Eu larguei tudo, agora só trabalho como doula e coordenando grupos. Para mim é incrível você estar ali ajudando aquela mulher a realizar o parto como ela deseja.” Atualmente, ela trabalha no Núcleo Carioca de Doulas.

A doula Eloá Chaignet é mãe de Noah, de 3 anos, que nasceu em casa. “Acho fundamental, não só no parto como na vida, termos autonomia e liberdade. Entre um parto onde seria obrigada a inúmeros protocolos médico hospitalares como ficar na posição tal, ser proibida de comer, correr o risco de ser privada da companhia do marido… Não tive dúvidas quanto a poder ter autonomia e liberdade de comer se sentisse necessidade, beber se precisasse, sentar, andar, deitar e estar acompanhada o tempo todo de quem eu quisesse.”

Depois do nascimento de Noah, Eloá, que é formada em Dança, resolveu fazer o curso de doula. “Ser doula nasceu junto com meu eu-mãe que teve vontade de poder ajudar outras mulheres a ter uma recordação ótima do nascimento dos filhos e de seu próprio renascimento como mulher-mãe, sendo respeitadas em suas escolhas.”

Antes e depois do parto humanizado

A estudante de psicologia, Gabriela Sarmento, está esperando sua primeira filha, Maria Cecília. “Parir de maneira natural sempre foi muito óbvio para mim desde sempre. Quando eu me vi grávida e fui entrar em contato com essa realidade, eu percebi que, na nossa sociedade, isso não é tão natural assim.”

Depois de ir a quatro obstetras do plano de saúde, que não faziam partos desta forma, ela procurou informações na internet, onde conheceu o trabalho das doulas e escolheu a sua.  “Ela tem sido essencial neste processo de tomada de consciência. Eu acho que isso de ir contra a toda uma questão que está desenhada na sociedade, precisa que você tome bastante consciência daquilo que você está buscando.” A ideia de Gabriela agora é fazer um parto humanizado hospitalar na presença de uma obstetra também particular, já que ela não conseguiu pelo plano de saúde.

Apesar de todos os comentários negativos que escuta sobre sua decisão, ela encontrou acolhimento nos grupos de apoio. “Eu acho que [o parto humanizado] é uma busca da mulher pelo poder da mulher. A sensação que eu tive quando me deparei com essa realidade da sociedade é que esse poder da mulher, esse feminino, tinha sido colocado totalmente de lado. E em algum lugar ali dentro dessas mulheres, isso está mudando. Esse movimento está acontecendo sim, de uma busca do feminino que se perdeu.”

Vanessa Ingrid Saraiva passou pela mesma situação com médicos de plano de saúde. E foi pela internet que achou sua doula e encontrou uma obstetra particular. Mas como o preço do trabalho da médica era muito alto para seu padrão da época, o parto de Maria, de 2 meses, aconteceu no Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda. Apesar de conhecer relatos negativos sobre o hospital, ela procurou informações e viu que aquela opção era a mais viável para ela.  “Tive super medo [do hospital], conversei com outras mulheres, busquei muita informação, li muitos relatos e vi que aquilo ali era uma via mais possível para mim.”

“Você percebe que seu organismo funciona. A possibilidade de dar errado existe, mas ela é muito menor do que a possibilidade de dar certo. Dormi um dia no hospital, no dia seguinte já pude receber visita e já estava andando. Meu parto foi uma coisa mais minha, como mulher, de realização e de poder ver esse momento com a minha filha”, conta.

Ela diz que o importante é que a escolha da mulher seja respeitada. “Se a mulher tiver as informações e quiser uma cesariana, eu acho que a opinião dela tem que ser respeitada. A gente gasta muito com festa de casamento, de aniversário, e a gente não pensa tanto que a chegada deles [dos bebês] pode ser maravilhoso.”

Caro leitor,
Você acha importante que a mulher lute por seu protagonismo na hora do parto? O parto humanizado ainda é um tabu?

5 Opiniões

  1. Hugo Leonardo Filho disse:

    A Gabriela e a Vanessa escolheram a Doula pela internet, coisas de hoje-em-dia. A minha Doula (sim, e da minha mãe também) foi a minha Vó, assistida por duas filhas, irmãs da minha mãe e, por coincidência, minhas tias. Hoje em dia parece que as mulheres estão desaprendendo a milenar arte de parir.

  2. Gabrielle disse:

    Mary, a matéria ficou incrível. Sou super a favor do parto humanizado, mas em ambiente hospitalar com certo apoio de tecnologia para promover, principalmente, conforto para a futura mamãe e, também, intervenção caso necessário. Beijos e Parabéns

  3. Carla disse:

    Parabéns pela matéria, Mary. Ficou excelente. Sou super a favor do parto humanizado. Ele pode influenciar significativamente a formação de uma pessoa para toda a vida e as mães devem lutar muito para que suas vontades sejam respeitadas.

    Ainda falta muita informação sobre o assunto, mas artigos como esses ajudam no processo. Parabéns!

  4. Roberto Henry Ebelt disse:

    Acho extremamente importante que a mulher lute por seu protagonismo na hora do parto.
    Além disso, a internação de um ser humano sadio em um hospital, lugar perigoso para uma mãe sadia e seu futuro bebê, deveria ser repensada pelos profissionais da saúde.
    Onde ficaram as maternidades tão comuns nas décadas de 50 e 60 do século passado?
    Lá, via de regra, não havia doentes, apenas parturientes!
    Ouçamos o que os médicos têm a dizer.

  5. Carolina disse:

    O parto humanizado ainda é tabu, principalmente nas mulheres que não buscam informação. Vejo que a maioria tem medos que são passados por gerações e chegam com desculpas para justificar a cesárea eletiva, sendo que a base de tudo é o medo da dor. As mulheres estão acostumadas com o conforto e o comodismo, e usam isso como base para as decisões, principalmente no parto. Fico feliz com o retorno da busca pelo ativismo no parto e acredito que vamos conseguir mudar essa realidade mostrando pras jovens que não tem que ter medo do parto, mas de fazer uma cirurgia sem necessidade.
    A cesárea foi desenvolvida para salvar vidas e não como alternativa.

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