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CASO MARIELLE

Polícia faz buscas na casa do vereador Marcello Siciliano

Ação faz parte da investigação da morte de Marielle Franco. Secretário de Segurança do Rio diz que vereadora foi morta por causa de terras

Polícia faz buscas na casa do vereador Marcello Siciliano
Siciliano teve seu nome envolvido pela primeira vez no caso em maio deste ano (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

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A casa do vereador Marcello Siciliano (PHS-RJ), na Barra, zona Oeste do Rio de Janeiro, foi alvo de mandado de busca e apreensão na manhã desta sexta-feira, 14, no âmbito da investigação da morte da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) e de seu motorista, Anderson Gomes.

As buscas foram autorizadas pelo Ministério Público do Rio e realizadas por agentes da Polícia Civil e da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA). O vereador não estava em casa e os agentes foram recebidos pela esposa dele. Foram apreendidos no imóvel documentos, um tablet, um computador e um HD. Os itens serão encaminhados para a DPMA.

Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão no gabinete de Siciliano na Câmara dos Vereados, no Centro do Rio. O escritório estava trancado e os agentes tiveram de arrombar a porta, uma vez que, até às 9h da manhã, o vereador ainda não havia aparecido no local.

As buscas desta sexta-feira fazem parte de mais uma etapa na investigação do assassinato de Marielle e Anderson, que completa nove meses nesta data. Em uma entrevista publicada nesta sexta-feira, no jornal Estado de S. Paulo, o secretário de Segurança Pública do Rio, Richard Nunes, disse que Marielle foi morta por milicianos que viam nela uma ameaça a seus negócios de grilagem na zona Oeste do Rio. Segundo o secretário, o crime estava sendo planejado desde o final de 2017.

“Ela estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos, onde interesses econômicos de toda ordem são colocados em jogo. No momento em que determinada liderança política, membro do legislativo, começa a questionar as relações que se estabelecem naquela comunidade, afeta os interesses daqueles grupos criminosos”, disse o secretário de segurança.

Nunes ressaltou que a milícia tem forte atuação sobre posse de terra e lembrou que no Rio, na zona Oeste e na baixada de Jacarepaguá, há problemas graves de loteamento e ocupação de terras. Nesse contexto, Marielle era vista como uma ameaça por trabalhar na conscientização dos moradores em relação à questão. “Uma conscientização daquelas pessoas sobre a posse da terra. Isso causou instabilidade e é por aí que nós estamos caminhando. Mais do que isso eu não posso dizer”, disse Nunes.

Assim como outros vereadores, Siciliano prestou depoimento na condição de testemunha à Divisão de Homicídios, em abril. Dois dias depois do depoimento, um colaborador da equipe de Siciliano, Carlos Alexandre Pereira, de 37 anos, foi encontrado morto a tiros, dentro de um carro, em uma rua no bairro da Taquara, em Jacarepaguá, na zona Oeste do Rio.

De acordo com relatos de testemunhas, Carlos Alexandre foi abordado por um grupo. Antes de abrir fogo contra a vítima, um dos integrantes teria dito: “Chega para lá que a gente tem que calar a boca dele”. A polícia não estabeleceu relação entra a morte de Carlos Alexandre e o assassinato de Marielle, mas abriu uma linha de investigação na época para apurar a relação do colaborador com grupos milicianos e Siciliano.

Um mês depois, em maio, Siciliano teve seu nome envolvido no caso Marielle, após uma testemunha dizer à polícia que ele e o ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curicica – que está preso em Bangu 9 por chefiar uma milícia –, queriam a morte da vereadora.

A testemunha contou que foi forçada a trabalhar para o ex-PM e também forneceu detalhes de como foi o planejamento da execução de Marielle Franco. Segundo seu relato, as conversas sobre a execução da vereadora tiveram início em junho de 2017.

Ainda de acordo com a testemunha, em uma das conversas com o ex-PM, o vereador falou alto: “Tem que ver a situação da Marielle. A mulher está me atrapalhando”. Depois, bateu forte com a mão na mesa, xingou a vereadora e disse olhando para o ex-PM: “Precisamos resolver isso logo”.

Quando os relatos da testemunha vieram à tona, Siciliano negou as acusações e disse não conhecer Orlando Curicica. Ele disse que a acusação era “mentirosa”, uma “covardia” e que, “além de colega de trabalho”, Marielle era sua “amiga”.

Siciliano se diz revoltado com as buscas

Não tendo sido encontrado em casa nem em seu gabinete, Marcello Siciliano compareceu, por volta das 10h30, à Cidade da Polícia, no bairro do Jacarezinho, zona Norte do Rio.

No local, o vereador disse a jornalistas estar “indignado” com o que chamou de “acusações malignas a seu respeito”. “Eu, sinceramente, não sei o que está acontecendo. Fui pego de surpresa. Estou aqui para tomar conhecimento. Estou revoltado com isso tudo e continuo indignado com essa acusação maligna que fizeram a meu respeito”, disse Siciliano.

O vereador disse estar à disposição da Justiça e tornou a afirmar ser vítima de uma “covardia”. “Na primeira vez que me acusaram, estive na delegacia. E agora novamente estou aqui à disposição para o que for preciso. Tenho certeza de que no final disso tudo eles vão ver que foi uma baita covardia que tentaram fazer comigo. Eu quero que isso se resolva, pois a minha família está sofrendo e tenho certeza que a família da Marielle não merece isso, merece a verdade. E eu acho que é a verdade que tem que vir à tona”, disse Siciliano.

Milicianos miram Freixo

O combate à atuação de milícias no Rio de Janeiro também colocou o deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ) na mira dos criminosos. Na última quinta-feira, 13, a Polícia Civil do Rio de Janeiro anunciou ter interceptado um plano para matar o deputado estadual, que tem uma trajetória marcada pelo combate às milícias. O plano foi interceptado com a ajuda de uma informação repassada através do Disque Denúncia.

Segundo informações da polícia, o plano tinha como objetivo executar Freixo no próximo sábado, 15, durante um compromisso do deputado na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Freixo e Marielle são vozes ativas contra milícias no Rio. Em 2008, Freixo presidiu a CPI das Milícias, que investigou a atuação de milicianos que extorquiam moradores onde atuavam, cobrando taxas para serviços como TV a cabo, venda de gás e transporte complementar. Marielle também participou da comissão, que concluiu que 118 milícias atuam na cidade. Foram 226 pessoas indiciadas, incluindo 67 policiais.

“No mês em que a CPI das Milícias completa 10 anos, voltei a ser ameaçado. A CPI foi um marco no combate ao crime: mais de 200 indiciados e principais chefes presos. Apresentamos 48 medidas para enfrentar a máfia, mas nada foi feito”, disse Freixo, em uma postagem no Twitter, após vir à tona o plano de execução interceptado pela polícia.

 

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