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‘Cartolas’ de clubes: uma relação entre paixão e poder

Ciclo de palestras na Casa do Saber tenta explicar o que leva alguém a querer ser dirigente de um clube de massa. Por Nérison Bauer

‘Cartolas’ de clubes: uma relação entre paixão e poder
Roberto Dinamite, Maurício Assumpção e Patrícia Amorim participaram das palestras

Poder? Paixão? Desafio? O que leva uma pessoa a aceitar dirigir um grande clube de futebol no Brasil? Para tentar responder a essa questão, a Casa do Saber organizou o ciclo de palestras ‘Cartolas do Futebol Carioca’ com os presidentes de três dos quatro clubes grandes do Rio de Janeiro*. Patrícia Amorim, do Flamengo; Roberto Dinamite, do Vasco; e Maurício Assumpção, do Botafogo, foram convidados a debater junto a jornalistas e torcedores como conseguem equilibrar a paixão e o poder em suas vidas.

Por serem muito ligados ao esporte desde cedo, a possibilidade de fazer algo pelo clube de coração acabou falando mais alto na hora de aceitar o desafio. Ex-nadadora e torcedora fanática do Flamengo, Patrícia Amorim estava farta de más administrações. ‘Minha motivação começou com a indignação que tive com presidentes anteriores, que nem chegavam a frequentar o clube. Via a sede abandonada e sem nenhum tipo de legado para os esportes olímpicos. Queria colocar a mão na massa. A maior dificuldade para mim é aceitar que sou uma ‘cartola’ porque sempre fui contra eles quando era atleta. Mas estou me adaptando bem’. À frente do Flamengo, Patrícia deixou desenvolver seu lado administrador, até então desconhecido.

‘Os clubes têm seus estatutos, construídos a várias mãos durante anos. Temos que trazer para a nossa realidade fórmulas que deram certo no passado, sem deixar de criar coisas novas. Modelos bem sucedidos são bem-vindos’.

Para o ex-jogador Roberto Dinamite e para o dentista Maurício Assumpção, o sonho de dirigir Vasco e Botafogo, respectivamente, chegou acompanhado de um quê de agradecimento.

‘A paixão leva um homem como eu a assumir o risco de presidir um grande clube. Não sou aquele presidente que acha que manda em tudo. A ideia de ser presidente foi 70% vinda de pedidos populares. Me coloquei à disposição por ser ídolo vascaíno. O clube precisava de uma renovação. Assumi o desafio de unir o Vasco e acredito que é uma maneira de retribuir o que o futebol e o clube me proporcionaram. O Vasco me ajudou a ser um cidadão e uma pessoa do bem’, reconhece Dinamite. ‘É muita paixão. Não tem outra razão. Tem que gostar muito do Botafogo. Eu sou duas pessoas ao mesmo tempo. Um torcedor apaixonado durante os jogos e um presidente no resto do tempo’, completa Maurício.

Presidente do Botafogo posa com um fã


O lado ruim

A escolha pela entrada na vida de ‘cartola’, porém, trouxe consequências, muitas vezes desagradáveis. Estresse, problemas de saúde e na família são comuns.

‘É complicado porque você tem que se dedicar ao clube de uma forma muito grande e não receber por isso. É pura paixão. Se eu já não fosse separado, acredito que o casamento não duraria muito tempo’, confessa Maurício, que vive sozinho atualmente.

Em matéria de estresse, Patrícia Amorim, que ao mesmo tempo que se diz dócil, é uma pessoa firme, chega a comparar com a política o fato de ser presidente do clube de maior torcida do Brasil.

‘O nosso negócio é a paixão, mas não podemos deixá-la influir na nossa administração. Ser presidente de um clube de massa é muito parecido com o fato de ter um cargo político. São muitas responsabilidades e é preciso cuidar de muitos interesses. O grande mal de um clube grande é a vaidade. As pessoas se deparam com o fato de serem muito poderosas e de estarem administrando cifras de milhões de reais. Temos uma responsabilidade monstra e devemos estar preparados’, diz a mandatária rubro-negra.

Presidente do Flamengo estava insatisfeita com administrações anteriores (Foto: Roberta Hoertel)

O começo complicado de Dinamite no Vasco influiu em sua saúde. ‘A realidade dos clubes é uma realidade bem delicada. Espero diminuir o que temos de dívida. Estou aqui para servir ao Vasco. Sabia das dificuldades que encontraria, mas um homem de verdade acredita no trabalho. Fazemos o que fazemos por amor e para ajudar o clube. Eu cheguei a precisar tomar remédio para pressão e perdi peso pelo que passei no início’.

Apesar das preocupações, Patrícia Amorim resume o sentimento quando o trabalho é bem feito: ‘Quando se trabalha muito, uma hora esse trabalho vai aparecer. O prazer está diretamente ligado ao resultado’.

Roberto Dinamite: 'Devo tudo que tenho ao Vasco'

A origem do termo ‘cartola’

Em 1917, o Dublin, uma das melhores equipes do futebol uruguaio na época, veio ao Brasil para uma temporada de jogos. No Rio, dois de seus diretores apareceram correndo à frente de seus jogadores até o meio do campo. Sensação entre os torcedores: eles usavam altas e luxuosas cartolas. Desde então, dirigentes do futebol brasileiro passaram a ser chamados de ‘cartolas’.

*O presidente do Fluminense, Peter Siemsen, não participou do ciclo de palestras devido à agenda de seu clube na Taça Libertadores da América.

Caro leitor:

-Na sua opinião, por que uma pessoa se interessa em ser presidente de um clube de futebol?

-Você conseguiria separar o lado torcedor do lado administrador se presidisse seu clube de coração?

Para você, qual é o grande desafio em ser dirigente de um clube?

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6 Opiniões

  1. Ana Maria Resende disse:

    As pessoas buscam sempre desafios. E com certeza um dos maiores de alguém que ame o esporte é dirigir seu clube de coração. Uns são bem sucedidos…outros são um fracasso total…

  2. Souza disse:

    Mais do que amor, é preciso profissionalismo, pois é um cargo que exige muita competencia, por isso, acredito que esse cargo “deveria” ser direcionado a pessoas que possuem característas como, paixão, profissionalismo, competencia e desafios por não, porém, se for e busca de poder, pode ser que seja bem sucedido, mas está sim mais direcionado a fracassar, como em qualquer outra profissão.

  3. Markut disse:

    Vamos e venhamos. O primeiro impulso de um candidato a cartola pode conter dose razoavel de “amor ao clube’,algo como uma reminiscência de quando era apenas torcedor, mais ou menos fanático.
    Mas, logo depois ,ao assumir o cargo,o viés cartola, com todo o sentido pejorativo, que o termo, merecidamente , tem, vem à tona.
    Trata-se de um grande negócio,que conta com o devido estímulo de uma grande torcida,inconsciente e violenta, cuja “paixão” é cultivada, artificilmente,tendo, como cúmplice e sócia, a midia, que se incumbe de manter o necessário e inconsequente frenesí irresponsavel.

  4. Elaine Albino disse:

    Movido principalmente pela paixão. A vaidade também deve falar alto mas o amor pelo seu clube deve ser mais importante. Qualquer pessoa que se presta a ser cartola precisa separar os dois lados e comigo não seria diferente; ao pensar em dirigir meu time eu faria um exercício para separar a condição de torcedora. Desafio é montar um time competitivo, responder à torcida e, no caso de não conseguir títulos, encarar esta mesma torcida. Todas elas cobram. E muito.

  5. helio disse:

    Diria que as vezes cartolas amam o clube, mas sempre são apaixonados pelo poder. Se o dirigente for torcedor do clube, terá mais parazer em administrá-lo. O grande desafio é encontrar esse dirigente, que serve ao clube e não a sua própria pessoa.

  6. Peter Pablo Delfim disse:

    Poder, e consequentemente dinheiro. Muito dinheiro e influencia política. Mais nada.

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