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A hora e a vez dos jovens príncipes

Morte do príncipe Sultan, primeiro na linha de sucessão do trono saudita, abre espaço para uma geração de sucessores mais jovens

A hora e a vez dos jovens príncipes
Príncipe Nayef comanda a Arábia Saudita, mas não deve suceder o rei Abdullah

O longo título revelou muito sobre a estatura do homem: príncipe herdeiro, vice-primeiro-ministro, ministro da Defesa e inspetor-chefe do reino da Arábia Saudita. A multidão em seu funeral incluía, entre outros, o vice-presidente norte-americano, o ministro das relações exteriores do Irã, e um tio do presidente sírio, Bashar Assad.

O calibre dessa apressada reunião de grandes nomes estrangeiros é um testemunho não apenas do poder do príncipe Sultan bin Abdel Aziz, que talvez fosse o homem mais rico do planeta, e controlava o fortemente equipado exército saudita desde 1962. É também o reflexo da apreensão. Após cinco filhos sucessivos de Abdel Aziz bin Saud, o fundador do reino, que morreu em 1953, a Arábia Saudita se apresentou como um rígido bastião da ordem regional. Essa ordem agora se vê ameaçada, não apenas pelas mudanças nas rivalidades geopolíticas, mas pelas novas pressões da Primavera Árabe.

A morte do príncipe Sultan, no dia 23 de outubro, serviu como uma lembrança de que o maior produtor de petróleo do planeta continua a ser governado por um grupo seleto de príncipes muito velhos e muito conservadores, que parecem cada vez mais desconectados do mundo.
O próprio rei Abdullah está visivelmente frágil, após uma série de cirurgias nas costas. Na prática, o comando do país passou para as mãos de seu meio-irmão, o príncipe Nayef, cujo território desde 1975 tem sido o temido ministério do interior.

Apesar de sua relativa juventude, comenta- se que o chefe de polícia de 78 anos sofre de diabete crônica, joelhos frágeis e um famoso temperamento volátil. Nayef foi o responsável pela dura, porém bem sucedida campanha para livrar a Arábia Saudita do extremismo jihadista, após ataques terroristas da Al Qaeda no país em 2003. Ele também é um dos principais defensores de laços mais fortes com os conservadores sunitas, um inimigo dos direitos das mulheres e o principal arquiteto das restrições cada vez maiores à liberdade de expressão. Três jovens cineastas sauditas, por exemplo, foram aprisionados neste mês, depois de veicularem um inofensivo documentário sobre a pobreza da capital Riad, na internet.

O príncipe Nayef também é famoso por sua visceral hostilidade em relação ao Irã, principal rival da Arábia Saudita no domínio do Golfo Pérsico, e sua enorme desconfiança do regime revolucionário xiita iraniano foi um dos motivos por trás da intervenção saudita no Bahrein, onde 2/3 população é xiita, e luta por mais direitos. A demonstração clara de poder de fogo serviu de aviso não apenas ao Irã, mas também à minoria xiita que compõe 10% da população saudita. No entanto, a polarização sectária do Bahrein também impediu qualquer chance de reconciliação no país, que deve permanecer dependente de seu grande vizinho rico.

Alguns diplomatas e até mesmo cidadãos sauditas insistem que o príncipe Nayef é mais pragmático e flexível do que sugere a sua reputação. Ao contrário de outros príncipes, ele é famoso por sua integridade pessoal, trabalha duro, e raramente viaja ao exterior. Seguindo a tradição do clã dos Saudi, ele preencheu seus ministérios com parentes, incluindo três de seus filhos. Como vice-ministro do interior, seu filho, o príncipe Muhammad bin Nayef, tem no currículo a criação de uma abordagem bem sucedida para combater o extremismo islamita. Energético, discreto, e casado com uma prima, filha do príncipe Sultan, Muhammad é apontado como um candidato ao trono quando a linha de sucessão passar para os netos do rei Abdel Aziz.

Esse momento pode estar mais próximo do que se imagina. Poucos dos mais de 35 filhos do rei fundador sobreviveram. Muitos deles, como vice-ministro de defesa, o príncipe Abdel Rahman, e o governador de Riad, o príncipe Salman, são considerados aptos a ocupar o cargo. Mas um decreto real, aprovado pelo rei Abdullah em uma tentativa de organizar a sucessão, delegou a escolha dos futuros reis a um conselho formado pelos príncipes que representam as 35 ramificações do rei fundador. Na tentativa de evitar um desafio tardio de outros príncipes poderosos ao avanço de Nayef, o conselho dificilmente será convocado até o fim do reinado de Abdullah. Quando o conselho for convocado, os príncipes da terceira geração serão maioria, e esses príncipes mais jovens podem – no momento certo – colocar um de seus representantes no trono.

Fontes:
The Economist - Time, surely, for a much younger one

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1 Opinião

  1. Markut disse:

    Dificil imaginar alguma revolucionária guinada, na secular sucessão do poder , nesse canto do mundo.
    Os jovens príncipes nada mais serão do que a continuidade dos velhos príncipes, eventualmente com roupagem mais tecnológica.

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