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Crônica política

A mosca azul e o terceiro mandato

O presidente Lula não poderia escolher pior momento para tirar da gaveta assuntos adiáveis e devolver ao debate a sovada reforma política. Começa que o plural seria mais adequado por serem várias as reformas sob a rubrica política. Os incomodados, os políticos, que se retirem se não gostarem. As reformas são exigência dos cidadãos e dos eleitores, sem os quais a democracia perde o sentido. A proposta de Lula pode ser também a maneira de descartá-las mais uma vez, depois que a discussão conflagrar as eternas divergências de fundo. A responsabilidade pelo insucesso recairá sobre a qualidade política nacional. Se foi proposital, Lula acertou na mosca azul, que responde pelo nome de terceiro mandato, recusado tanto pela veemência presidencial quanto pelo enraizamento da candidatura Dilma Rousseff e a exclusão dos demais pretendentes.O sucesso da operação foi conseqüência do empenho de Lula, a ponto de dar novo encaminhamento à sucessão. Ainda assim, urnas são também capazes de custar lágrimas e ranger de dentes mais adiante.

O propósito de renunciar com estardalhaço, passando por cima do PT, foi a maneira pessoal de Lula consolidar a solução, sem levar em conta a posição alternativa de Ciro Gomes. Sendo assim, na cota de imprevistos, a retomada da reforma política só pode ser útil a prazo curto. Suficiente apenas para alimentar o esgotado debate que a oposição recusará para não fornecer a moldura ao debate do terceiro mandato que ficou para trás, se tiverem sido para valer as palavras de Lula. O próximo problema será a ocupação política de todo o ano de 2009, mas sem ceder às pressões aos interessados no pronto início da campanha presidencial. A variedade de acordos regionais é fonte de atritos e velhas incompatibilidades municipais. Ainda bem que Lula, no caso do terceiro mandato, desarmou primeiro a oposição, mas não satisfez ao balaio de gatos acomodados na coalizão parlamentar.

A demora da reação indignada, por parte da oposição (se é que é mesmo), à proposta da reforma política, tem a esta altura o sinal fatídico de tempestade a caminho. Não faz sentido, do seu ponto de vista, regar de esperança enganosa um buquê de reformas apenas para enfeitar, por oportunismo, a democracia na hora em que seus piores costumes serão avivados na campanha de prefeitos e vereadores. Servirá apenas para confundir sentimentos e ressentimentos em prejuízo da democracia. Sob a poeira a ser levantada, o terceiro mandato pode surgir cabalisticamente como moeda de troca e solução de mais baixo custo (e não apenas custo) político. É dar marcha-à-ré sair pela tangente que nada tem a ver com o que neste momento separa governo e oposição, sem nada capaz de uni-los.

A teoria do mal menor está de sobreaviso. Desde que Luís XV fez o acordo com o dilúvio e ficou com a prioridade, o terceiro mandato pode ganhar respaldo inesperado ou favorecer novo entendimento acima das circunstâncias. A dificuldade de remover a recusa de Lula será, ironicamente, a última carta do jogo perigoso, e baixar sobre a mesa de negociação o terceiro mandato como peça de valor. Quando nada, para aliviar as costas presidenciais expostas na desastrada intromissão de Lula na Polícia Federal (primeiro, quando se derramou em elogios à prisão de poderosos, depois quando tomou o partido contra as algemas utilizadas sem fazer distinções). Ninguém entendeu e muitos suspeitam ainda de muito mais coisas, entre o céu e a terra, do que constou da vã apuração.

Não se espere muito da oposição, como tal entendidos os que desconfiam deste governo, se tiver de negociar com figuras administrativas. Politicamente, a banda larga (a governista) será orientada por um ex-social democrata que tirou a casaca para vestir o macacão do PT. Para entender-se com o próprio Lula, falta sotaque sindical à retórica oposicionista. O máximo que o PSDB e o DEM podem conseguir numa batalha em cima da mesa é inserir na hipótese do terceiro mandato um parágrafo único declarando-o optativo. Salva-se, ao menos, a face do presidente.

Com o passar do tempo, se nada der certo para preencher o vazio político por mais de 24 horas, o imprevisível terceiro mandato vai reaparecer. A oposição nem se arrisca a sair da toca desde que a incerteza ficou compatível com o pós-Lula. Ninguém sabe como será o dia seguinte, mas tudo faz crer que terá a ver com o que já está aí, sem antecedentes históricos suficientes para soluções de emergência. Nos áureos tempos, falsas soluções eram montadas por pensadores e executadas por mãos militares, mas os golpes de Estado se esgotaram. Já o terceiro mandato — mesmo em remoto caráter optativo — pode não estar embutido na reforma política, mas ficou com o rabo de fora. A ausência de crise não deixa de ser o disfarce da crise, da qual as sucessões presidenciais nunca abriram mão. Tendo sido, desde o primeiro presidente, a parteira da República, a crise só não mais faz cesarianas por falta de um César pleonástico e de um rio chamado Rubicão, que cruzou em cima da hora para entrarem juntos na História.

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2 Opiniões

  1. Arlon Borges disse:

    Ótimo artigo, mais uma vez!

  2. toni lemos disse:

    o poder acima de tudo
    enquanto isso os problemas de violencia,saude e etc…
    passam de governo para governo aumentando cada vez mais.

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