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A oposição contra ela mesma

Será duro fazer oposição ao imenso grupo de partidos aliados à Dilma Rousseff na Câmara de Deputados e Senado.Por Leandro Mazzini

A oposição contra ela mesma
O federal Henrique Eduardo Alves formou um bloco de apoio para se sobrepor ao PT (Fonte: Folha.com)

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A insaciável busca pelo poder — e pela garantia de manter o poder — é tão evidente em Brasília, em quaisquer que sejam suas áreas de influência, que é possível ver um veterano político se entregar a atitudes descabidas, entre a infantilidade e a insensatez que desmonta a diplomacia*. No desespero de se alçar ao comando da Câmara dos Deputados, o federal Henrique Eduardo Alves (RN), reeleito para seu oitavo mandato consecutivo, formou um bloco de apoio em torno de seu nome para se sobrepor ao PT, que também tenta a vaga. Toda esta cena em meio à transição do governo do presidente Lula para Dilma Rousseff. Resultado: acabou virando opositor de si mesmo, desmentido, relegado a segundo plano e desautorizado pelo chefe Michel Temer, vice-presidente eleito.

Narro o caso para lembrar que é tão grande o poder do grupo que se manteve no comando do país, que será inevitável que a qualquer momento eles se engulam. É muito fácil fazer oposição em Brasília. Até contra aliados. Até contra si mesmo. Difícil mesmo é encontrar quem saiba fazê-la.

E está nisso o cerne da questão a partir de 2011 no Congresso. Numa Câmara dos Deputados e Senado em que a presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), terá a maioria esmagadora de aliados, que a respaldam em quantidade de votos para aprovar até uma Proposta de Emenda Constitucional sem precisar gastar lábia, o cenário coloca duas certezas nas cabeças dos três partidos que norteiam a oposição ferrenha ao atual grupo de poder — PSDB, DEM e PPS: um, será duro fazer oposição a este agrupamento de partidos; dois, será difícil achar quem a faça.

O próprio Aécio Neves, ex-governador bem avaliado de Minas Gerais, mencionou há poucas semanas, em outras palavras, uma oposição branda. O que para ele surtiu como diplomacia necessária aos sensatos, para os colegas revoltados com a derrota conotou frouxidão moral. A revolta tomou tamanho porque esses três partidos têm justamente em Aécio o seu maior nome, e com poder, dentro do Congresso, debaixo dos holofotes da mídia, para se fazer valer no que lhe resta de espaço e respeito. Junto ao próprio Parlamento, e perante a população.

O que revela um desafino entre as cabeças pensantes da oposição atualmente, acaba por jogar luz no maior desafio desse trio partidário. A necessidade de reinvenção.

E fazer oposição, hoje, ao atual modelo de governo e coalizão formada que lhe dá sustentabilidade, é repensar não somente a estrutura das legendas, seus parâmetros. É buscar no atual cenário sócio-político nacional uma brecha que faça qualquer político da oposição surgir expoente de um ideário que não lhe traga a pecha de conservador ou atrasado. O presidente Lula, em seu sucesso popular, pregou de tal forma a distinção entre ele e os opositores, entre seu governo, popular, e a oposição raivosa e burguesa — e variados são os termos usados em comícios e discursos para reforçar sua tese — que ele fixou na cabeça do povo ( e não somente do pobre ) que existe a base de governo atual, que trabalha para toda a sociedade, e a oposição, que representa a burguesia. O que não é verdade. O fato é que a própria oposição ainda não sabe fugir dessa armadilha montada pelo popular Luiz Inácio.

Quem souber desarmá-la, seja um dos partidos, seja um Aécio, seja qualquer nome que desafie esse conceito, saberá reinventar a oposição e seu discurso.

Aécio prega um novo partido, mas não diz como. Já aventou-se fundir o PPS com o PSDB, em vão. O DEM, que minguou, briga internamente entre os que o querem assim e os que buscam unir-se a outra legenda.

Eis o maior erro de todos eles. Estão todos pensando em quantidade.

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* Isso, existe uma diplomacia verbal nos salões de Brasília, um ritual que inclui sorrisos, tapas nos braços, ombros e costas, entre conhecidos e desconhecidos, entre políticos, lobistas, empresários, putas, jornalistas, madames, motoristas, servidores etc. É um circo sem lona. Mas sempre com plateia cativa.

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5 Opiniões

  1. Markut disse:

    O cerne da questão está em que falar de oposição num ambiente como o nosso chega a ser piada.
    A oposição, levado o conceito a sério, só deve ser entendida como o necessário contrapeso na gestão pública de uma autêntica democracia, lastreada na escolha por eleitores-cidadãos, o que significa suficientemente escolarizados para discernir e cobrar os seus direitos e cumprir os seus deveres.
    Estamos assistindo o trágico espetáculo da dança de uma sopa de letras, que são as siglas dos partidos políticos (todos), com fragil telhado de vidro e conduzindo as suas atitudes com uma desbragada e desaverghonhada cupidez, visando os mais variados escalões do poder e com os olhos fixos nos cifrões orçamentários.

  2. renato.rvasco@gmail.com disse:

    Como dizia o pensador inglês William Godwin: “decidir sôbre a verdade pela soma dos números é um insulto intolerável à justiça e à razão”
    Os partidos têm que tese para defender e não ficar pensando só no poder. O poder será consequência da aceitação de suas teses pelo povo.

  3. Sandra disse:

    Realmente o cenário se mostra desanimador para a oposição…Maioria esmagadora no Congresso, oito Ministros indicados para o STF, petistas infiltratos em todas as posições chave (Petrobás, BB,Caixa, BNDES, etc.etc), movimentos sociais na folha de pagamento do governo.É difícil acreditar como a oposição chegou a tal desestruturação.
    A esperança é que o PT se auto canibalize, o que é bem provável que ocorra com tal sêde de poder…Como diria o velho ditado :”Deus me proteja dos amigos, pois dos inimigos me protejo eu”…

  4. Rodrigo disse:

    Henrique Alves esta no seu 10o mandato indo para o 11o,mas se não jogar duro com o PT não sobra nada para ninguem.HA não é estagiário sabe como as coisas funcionam

  5. Nelson João Teixeira disse:

    Apesar da presidente Dilma ter a maioria dos politicos no senado e na camara dos deputados, ela tem que fazer um bom governo. Tem que provar para 72 milhões de eleitores que não votaram no pt. Maioria dos brasileiros já não aguentam mais injustiças. Estamos de olhos abertos. Assim como Color saiu, tudo pode aconteçer.

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