Início » Brasil » Política » A traição de Julian Assange
The Guardian

A traição de Julian Assange

Homem saudado como o pioneiro de uma nova era de transparência está disposto a colocar listas de morte nas mãos de psicopatas. Por Nick Cohen

A traição de Julian Assange
Assange representa uma nova geração de delatores exibicionistas (Reprodução/Internet)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Longe de ser um herói da liberdade, o fundador do Wikileaks representa um perigo constante para os que buscam a verdade. Não foi preciso dedicar muita atenção às acusações de Julian Assange contra o “complexo industrial military norte-americano” para entender que ele almejava trair pessoas muito melhores e mais valentes que ele jamais poderia ser.

Assim que o Wikileaks recebeu os primeiros telegramas do Departamento de Estado, Assange declarou que oponentes de regimes ditatoriais e movimentos pró-democracia poderiam ser alvo do Wikileaks.

Que os opositores do Talibã, por exemplo, estavam arriscando suas vidas no confronto com uma força clerical-fascista que ameaçava os valores liberais, não o interessava. Esses afegãos haviam falado com diplomatas dos EUA. Já haviam colaborado com o “grande Satã”. A segurança dessas pessoas não era, portanto, sua preocupação.

O livro de David Leigh e Luke Harding sobre o WikiLeaks descreve uma noite em que jornalistas levaram Assange ao Moro, um restaurante elegante no centro de Londres para alertá-lo que vazamentos do Wikileaks poderiam matar afegãos que tinham cooperado com as forças norte-americanas se seus nomes viessem à público nos documentos. “Bem, eles são informantes,” Assange respondeu. “Então, se forem mortos, estão pedindo isso, merecem isso.” Um silêncio caiu sobre a mesa e os jornalistas perceberam que o homem saudado como o pioneiro de uma nova era de transparência estava disposto a colocar listas de morte nas mãos de psicopatas. Eles persuadiram Assange a remover nomes antes da publicação de determinados cabos afegãos do Departamento de Estado. Mas pessoas próximas a Assange disseram que ele não gostou de ser pressionado a “proteger informantes”.

É difícil acreditar agora, mas pessoas honestas já trabalharam para o WikiLeaks por motivos louváveis. Muitos como eu viram o site como um refúgio, um espaço protegido ondem escritores poderiam publicar matérias sem que censores autoritários e advogados as censurassem.

Um desses jornalista, James Ball foi contratado por Assange quando ainda acreditava que o Wikileaks estava tornando o mundo um lugar melhor. Mas Ball percebeu que o WikiLeaks não era o que parecia quando um dos sócios de Assange – um homem que chamavam de “Adão” – perguntou se podia retirar todos os documentos do Departamento de Estado “que falavam dos judeus”. Pouco depois, Ball descobriu que “Adão” era na verdade Israel Shamir, um perigoso agitador que usava seis nomes diferentes e circulava entre grupos antissemitas da extrema direita e extrema esquerda. Além de defender o fascismo, Shamir colaborou com a ditadura de Brezhnevian na Bielorrússia. Tiranias de esquerda ou de direita eram todas iguais para Shamir, desde que fossem contra o Ocidente e Israel.

Em má-companhia

Assange também nunca se preocupou com a ideologia de seus alvos. Ele transformou Shamir, que costumava comparar manifestantes prodemocracia surrados pelo KGB a hooligans, no representante do Wikileaks para a Rússia e o Leste Europeu. Em 19 de dezembro de 2010, o diário estatal Belarus-Telegraf revelou que o Wikileaks havia ajudado a ditadura a identificar “organizadores, manifestantes e malfeitores, incluindo estrangeiros” que haviam protestado contra eleições fraudulentas.

As provas da traição de Assange e Shamir eram fortes, mas não conclusivas. Dado o passado de Shamir, havia motivos suficientes para temer o pior, mas infelizmente não foi possível provar que o Wikileaks foi responsavel por prisões injustas, torturas e mortes no Leste Europeu.

Pode-se dizer com certeza, no entanto, que a própria relação entre Assange e Shamir é suficiente para desacreditar sua afirmação de que o Wikileaks só publicou telegramas na íntegra porque meus colegas do The Guardian vazaram inadvertidamente um link para um site que ele deveria ter desativado. O WikiLeaks postou os cabos na Web no mês passado com evidente prazer, e desde então fiquei me perguntando quem seria a sua primeira vítima. A China me pareceu um lugar promissor. Autoridades do país estão investigando os nomes de centenas de dissidentes e ativistas de minorias étnicas.

Na Etiópia Assange já fez sua primeira vítima. O reporter Argaw Ashine fugiu do país na semana passada após o WikiLeaks vazar uma conversa que teve com um funcionário da embaixada norte-americana em Addis Abeba sobre os planos do regime de intimidar a imprensa independente.O WikiLeaks também revelou que um funcionário do governo alertou Arshine sobre a ofensiva planejada contra jornalistas da oposição. Nessa ocasião,  Assange e seus colegas não só colocaram a vida do jornalista em perigo, mas alertaram a polícia repressora sobre a presença de um informante do movimento pró-democracia no aparelho do Estado.

Segundas intenções

O delator normalmente fala porque quer acertar as contas ou agradar autoridades. Assange representa uma nova geração de delatores, que surgiram com o avanço de novas tecnologias: o delator exibicionista. A internet tornou Assange famoso e permite que ele monitore seu status de celebridade a todo momento. Disseram-me que matérias sobre ele raramente escapam à sua atenção. Quando Assange nota que o público está começando a perder o interesse, a internet lhe proporciona os meios de cativá-los novamente com novos segredos e novas manchetes. Sob o véu enganoso da busca pela transparência, Assange pode deleitar-se com o poder que a internet lhe proporciona de colocar vidas em perigo e se manter no centro das atenções.

 

 

Fontes:
Guardian - The treachery of Julian Assange

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. pensador disse:

    MUITOS INTERESSES EM DESQUALIFICÁ-LO.
    nÃO SERIAM MUITO MAIS PSICOPATAS OS MILITARES QUE PARA “VINGAR O 11/09” justificam a matança em massa de civis e, principalmente, CRIANÇAS a uma morte lenta e atroz com seus resíduos radioativos de Urânio 238 de suas ogivas anti-
    bunkers. MAIS DE 500.000 CRIANÇAS IRAQUIANAAS MORRERÃO DE CÂNCER PROVOCADO PELOS AEROSSÓISDE NANOPARTÍCULAS DE URÂNIO 238. Estes aerossóis se formam com as altíssimas temperaturas do impacto das ogivas antitanques dos EUA e da coalizão e FICVAM NO MEIO-=AMBIENTE POR MILÊNIOS.
    O OBJETIVO É O GENOCÍDIO DO POVO IRAQUIANO PARA TOMAR-LHES SUAS RIQUEZAS.
    O que é uma insanidade pois, os EUA, sózinhos tem mais energia eólica potencial do que toda a energia que gastam atualmente. Seu custo, hoje, é menor do que as outras fontes e é eterna e limpa. Não precisam mesmo do petróleo iraquiano.
    NÃO É UMA PSICOPATIA MUITO MAIOR?
    É ESTA A LIBERDADE QUE O TIO SAM QUER DAR-LHES?
    QUEM TRAI O SEU POVO É DESPREZADO PELOS DOIS LADOS. NÃO MERECE MUITA COMPAIXÃO.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *