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Eleições 2010

A volta da política

O crescimento da candidatura de Dilma Rousseff foi muito mais uma questão de publicidade do que propaganda. Por Walter Hupsel

A volta da política
Esta será a primeira eleição presidencial após a redemocratização na qual Lula não é candidato

A julgar pelos últimos números das pesquisas eleitorais, o pleito está praticamente decidido. Claro que ainda há água a passar por baixo da ponte (como demonstra o recente episódio de quebras de sigilo envolvendo a Receita Federal) e eleição só se decide mesmo na contagem dos votos. Mas, em que se pese tudo isso, para o meu argumento, não faz diferença.

Parto da ideia de que a coligação PT-PMDB vai levar esta eleição presidencial, e isso possivelmente acontecerá no primeiro turno. Quero, aqui, analisar as consequências disto. Se não ocorrer a vitória no primeiro turno, ou mesmo se a coligação for derrotada, o cenário será outro, e este texto fica como aquele gol perdido no meio de uma partida: “se nós empatássemos naquele momento, o jogo seria diferente, não tomaríamos 4 gols”.

O primeiro ponto a levantar é que esta será a primeira eleição presidencial após a redemocratização na qual Lula não é candidato. Desde 1989 o PT é Lula, agora não mais. Se esta eleição pode ser encarada como plebiscitária, o será entre governos e suas taxas de aprovação, e não entre personalidades. E nisso este governo é imbatível.

O crescimento da candidatura de Dilma Rousseff foi muito mais uma questão de publicidade do que propaganda. Ao se mostrar como representante e continuadora do governo que tem a mais alta taxa de aprovação da história recente, Dilma cresceu a ponto de, provavelmente, levar a eleição no primeiro turno.

Talvez seja este o exato motivo das reclamações, inclusive minha, da aparente “morte da política”, com os grandes temas escanteados,  e a discussão é de fundo apenas gerencial.  Ao PSDB, atônito com os números das pesquisas eleitorais, restou uma promessa não de mudança, mas de ir além, de fazer o mesmo de maneira melhor, de “continuidade sem continuísmo”.

Assim a pauta das discussões foi dada. Planilhas e números, cuidar da saúde melhor, cuidar mais da segurança pública, cuidar das criancinhas. Tornamo-nos crianças, infantis, nos transformamos em pessoas carentes de afago e cuidado, como bem escreveu Contardo Calligaris.

Bom, se são favas contadas, resta-nos fazer prognósticos,  cujo risco é enorme para o analista, bem como o desejo de fazê-lo.  O que esperar da política brasileira depois de outubro? Acredito piamente na re-ideologização. Explico-me.

Muitos disseram que o PSDB e o PT eram irmãos, diferentes porém iguais, de mesma filiação, com criação um pouco diversa. Pode ser. Ou melhor, podem ter sido. Mas, como os irmãos Boateng, se viram em lados contrários, jogando em times opostos, desde a hesitação de parte do PSDB em apoiar e entrar no governo Collor. O que veio depois é de domínio público. FHC presidente, com apoio do PFL (atual DEM),  e de boa parte do PMDB. Partidos estes conhecidíssimos por estar sempre do lado “certo”. Enquanto isso, Lula ficava nos seus famosos 30%. Desde então, os irmãos não conversaram mais, mas tentavam usar as mesmas palavras ao ressaltar suas origens, suas constituições.

Neste pleito de 2010, com o PT fazendo o sucessor, a coisa muda. Definitivamente, com todas os problemas de qualquer definição conceitual, o PSDB foi alijado da “esquerda”. Sua autoimagem não mais corresponde com sua estrutura interna. A derrota de Serra é a derrota da parte do PSDB “desenvolvimentista” (aqui, aqui e aqui um belo debate sobre isso).

Como disse meu colega de coluna Bernardo Ricupero, o PSDB forjado na luta contra a ditadura, de Covas, FHC, Franco Montoro – a depender da confirmação das pesquisas eleitorais, também de José Serra – não existe mais.

O que emerge daí? Qual a persona que será (re)construída? Resta, então, uma longa sessão de psicanálise, quatro anos de divã. Só assim, se redefinindo, o PSDB poderá surgir em 2014 com um outro discurso, como um outro ser, sem esquizofrenia, “curado”, no qual imagem e autoimagem podem se corresponder.

A legenda terá que descer do muro e escolher entre jogar na Alemanha ou em Gana. Na minha humilde opinião,  uma dessas opções está cerrada, fechada, não há mais tempo.  A porta foi trancada em 1994. Resta a outra.

O PSDB, se quiser se manter vivo, terá que se deslocar para a direita, para a direita clássica, liberal, coisa que tem evitado (até por dinâmicas internas) fazer. Uma direita esclarecida, que, convenhamos, não vemos no Brasil, que sempre teve uma espécie de direita autoritária, patriarcal, patrimonialista. Este é o nicho que sobra. Terapeutizado, terá que se assumir assim, nos discursos e nas práticas. Isso significará, ao menos, duas coisas:

Que o debate voltará ao cenário. Que “continuísmo sem continuidade” não é política, e que a pauta terá que ser sobre as grandes óticas, sobre o que queremos do e para o Brasil, sobre qual modelo de estado.

Caminhando para a direita clássica, o PSDB tirará dali os remanescentes da Arena, do PFL, do DEM. Da nossa direita arcaica e adesista. Claro que estes, como pessoas, vão continuar existindo e devem até migrar de partido. Mas em outra estrutura partidária perdem bastante poder, e não mais serão os fiéis da balança na coalizão. Continuarão existindo, mas apenas como sombra do que foram.

Este artigo foi publicado originalmente no Yahoo! Notícias

Fontes:
Yahoo! Notícias - A volta da política

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2 Opiniões

  1. Marluizo Pires Cruz disse:

    Parece claro que o cenário da política eleitoral brasileira, está se consolidando na afirmação dos eleitores em apoiar os governos que detiverem melhores resultados na distribuição social da renda do país, independente da imposição de nome, legenda, centro, direita ou esquerda, pois após a eleição devemos emergir numa coalisão de força para lutar com todas as nossas capacidade de luta para melhorar as condições sociais do Brasil.
    Que o debate continue com soluções pontuais.

  2. Markut disse:

    Creio que, enquanto o eleitor for chamado apenas para confirmar numericamente a vitória de A ou B,permanentemente engodado, pouco teremos avançado.
    Coligações, coalisões ou o como quer que se denominem os entendimentos de cúpula,sem a participação do eleitor, que recebe o prato já preparado, nada a ver com a democracia, que supõe uma efetiva participação de um cidadão-eleitor consciente.
    De que jeito podemos ter eleitor consciente, com esse desastre que é a nossa escolarização básica, num esquema em que a quantidade se sobrepõe à qualidade ?
    Basta ver, ouvir ou assistir esse desenrolar da propaganda eleitoral, para sentir em que longínquo nivel de qualidade moral e cívica estamos patinando.
    No limite, as siglas partidárias, que hoje nada mais são do que uma sopa de letras,deveriam se reduzir a, basicamente, situação e oposição, numa saudavel alternância de poder.
    Direitas e esquerdas têm cada vez menos sentido. Seria necessária a re-ideologização, a que o articulista Walter Hupsel se refere.
    Mas, tudo isso supõe um nivel cultural daquele cidadão a quem , afinal, deve (ou deveria) ser dirigido todo o empenho da cúpula de plantão, no poder,cúpula essa, que deveria ser constantemente vigiada e cobrada pela opinião pública consciente dos seus direitos e obrigações.
    Ficaremos tão longe disso, quanto mais a ignorância, a miséria,a desinformação premeditada permitam que os plantonistas no poder permaneçam sempre os mesmos,morando na privilegiada redoma, que lhes permita continuar a usufruir os herdados e históricos privilégios.
    Todo esse panorama patriarcal, em que ainda vivemos, é exatamente o oposto do que necessitamos ,na indispensavel convivência entre nações evoluidas, neste mundo globalizado.
    A vitória de Dilma, que não é de Dilma e, sim do padim ciço moderno, deveria ser devidamente decifrada, a fim de tirar daí as necessárias ilações, sem chorar sobre o leite derramado, mas, sim, aproveitando para uma análise lúcida dos passos a dar, a seguir, visando o aprimoramento desta benção em nossas mãos, que é um país de dimensões continentais, com 200 milhões de habitantes,ainda maltratados, falando uma língua só, e incalculaveis riquezas naturais.
    Proponho iniciar uma campanha para facilitar a ascenção política de uma figura, já, ao nosso alcance, da Marina ( tambem Silva), para os próximos embates políticos.
    E olho ,no olho gordo , encima da gente…

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