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Homenagem

Alencar ainda sonhava com o governo de Minas

O sonho do saudoso político mineiro foi confidenciado a este colunista há poucos meses. Por Leandro Mazzini

Alencar ainda sonhava com o governo de Minas
Marisa, mulher do ex-vice, Josué, um dos filhos, e Michel Temer, durante o velório

Toda vez que era interpelado por alguém como José de Alencar, o mineiro não se deixava contaminar pela ironia ou constrangimento diante do interlocutor, mas deixava claro que era apenas mais um. Foi assim com este repórter no início do ano de 2000, ao telefone: “Meu filho, José de Alencar foi um grande escritor brasileiro. Sou apenas um José Alencar”. O grande político mineiro tinha um sonho, confidenciado a este colunista há poucos meses: queria ser o governador de Minas Gerais. Com ou sem o câncer.

José Alencar ainda tomava uma cachacinha, escondido da dona Marisa, mesmo proibido pela equipe médica. Fazia muito isso durante voos no seu jato Citation X, entre amigos.

Alencar era um apreciador da pinga. É da família a marca Maria da Cruz, distribuída para bares de Norte a Sul. “A cachaça é tão forte que, se colocarmos num carro, ele anda”, disse José Múcio ao colunista certa vez.

Numa churrascaria em Brasília, há dois anos, ao ouvir do garçom que não havia a Maria da Cruz, ele retrucou, para gargalhada da mesa: “Meu filho, você tem problema de cadastro?”.

José Alencar Gomes da Silva era flamenguista. Sempre teve uma bandeira do clube em sua mesa na vice-presidência.

Ele preferia a compra dos caças da Boeing pelo governo, na licitação da FAB, os famosos F-18. “São os melhores em aviões”, resumiu ao repórter certa vez.

Ex-centro avante do Nacional Atlético Clube em Muriaé, sua terra natal, voltou ao estádio há cinco anos e cantou todo o hino, para a surpresa dos dirigentes e jogadores, que desconheciam a letra.

Para Alencar, a queda da taxa de juros pagaria dez PACs.

Aos 18 ele pegou empréstimo com o irmão mais velho para abrir A Queimadeira, sua primeira loja de tecidos. Detalhe: reclamou, e muito, dos juros impostos pelo irmão.

O melhor amigo em Minas Gerais era o primo Zezinho, com quem conviveu até os 16 anos. É um humilde cozinheiro de beira da BR-116 em Miradouro, onde ainda trabalha no seu restaurante Frango com Quiabo.

Um café ao crepúsculo

– Alô, senador?

– Olá, como vai você?

– É o Leandro.

– Leandro do JB, e de Muriaé…

Assim se dava todo início de conversa nossa por telefone, quando o então senador José Alencar me concedia pequenos depoimentos sobre assuntos sócio-políticos no início dos anos 2000 – diga-se de passagem, num português corretíssimo que permeia sua dicção até hoje.

Anos se passaram, eu e Alencar só nos conhecíamos por telefone, e aumentou aquela curiosidade de conhecer pessoalmente um conterrâneo que chegou ao poder máximo do Brasil (ter sido vice-presidente de Lula não foi um cargo à sombra, ele ocupou o poder por mais de 365 dias). Quis o destino que nos encontrássemos em Brasília, em algumas ocasiões em que só os apertos de mãos celebrassem sorrisos rápidos.

Com tantos telefonemas desde 2000, tantos rápidos apertos de mãos, sentia que faltavam os nossos olhares, não os protocolares de encontros ocasionais. Necessitava do bom papo de mineiros ao sabor de um café passado, de causos que só ele poderia contar do alto de sua saga empresarial e política. Fiquei praticamente dois anos, em mensagens oficiais e esporádicas, à espera de um encontro.

Num início de noite, exausto no escritório, de olho nas notícias da internet, recebi um telefonema. A voz um pouco embargada do outro lado da linha denunciava um sotaque conhecido. Era a voz do poder.

– Você pode passar aqui amanhã para um papo? – indagou-me Alencar.

Diante do sim imediato do repórter, sem levar em conta horários, ele emendou:

– Mas não quero pergunta de compadre. Você pode perguntar o que quiser.

E no dia seguinte lá estava eu, paramentado como manda o figurino para esses protocolos. José Alencar, à ocasião, era o presidente da República em exercício, mas não usava o gabinete do presidente Lula. Sempre descartou isso.

Era uma quinta-feira. A ampla sala no anexo do Planalto parecia um gabinete papal. Silencioso, à meia luz, pequenas esculturas, provavelmente presentes, espalhadas por mesas e estante. Levantou-se animado, tirou os óculos e cumprimentou-me. Dali, até o fim do papo, foram praticamente três horas de conversa. Eu, ele e um amigo jornalista que levei.

Alencar foi solícito – a ponto de, diante do repórter inquieto preocupado com agendas vespertinas, desabafar num tom amigável: “Não se preocupe comigo, podemos passar a tarde aqui”.

Alencar contou de memórias de sua juventude em Minas. Presenteou-me com um livro que relata, em fotos e textos, a construção de seu império têxtil, sem pompas, e seu semblante e comportamento desnudavam a imagem não de rei, mas de um súdito sempre disposto a felicitar seu interlocutor. Revelou pequenas anedotas e casos da campanha fracassada para o governo de Minas em 1994. Chorou ao ler uma das numerosas cartas que recebe de admiradores – vejam, era o presidente da República chorando à minha frente, não tinha ideia do que viria: “complete a leitura para mim”, soluçou, ao passo que o atendi de pronto. E a tarde não parecia ter fim.

Saí da reunião mais encantado com a figura do ilustre conterrâneo. Dei uma volta pelos jardins do anexo, à procura do táxi que chamara, e depois de voltas e voltas ali encontrei o motorista parado, com cara de paisagem e sorriso à meia boca, em frente à entrada do gabinete do homem. Suspeitei de algo e ele soltou:

– Acabo de ver o grande José Alencar – disse-me, já ligando o carro.

“Eu também, e você não sabe o que perdeu”, imaginei, também sorrindo com os olhos.

Desde o ronco do motor do táxi naquele crepúsculo de dia quente em Brasília, até o momento em que você está lendo este texto, a expectativa é imutável. Se cada brasileiro passasse pela experiência de conviver, por poucas horas, com o brilhantismo deste homem, ficaria a esperar depois de cada tilintar do telefone uma voz rouca a convidar: “Passe aqui para um café”.

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Leia mais:

Mais de duas mil pessoas passam pelo velório de José Alencar

Fontes:
Informe JB - Alencar ainda sonhava com o governo de Minas

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2 Opiniões

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Como a morte melhora a reputação das pessoas!!!

  2. João Cirino Gomes disse:

    Parece que os floreios são tecelões de seda, ou de quem tem medo de assombração! Só pode!

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