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Ausência de Obama decepciona governo argentino

Especialistas analisam os motivos que fizeram o presidente americano deixar de incluir o país na sua viagem pela América do Sul. Por Fernanda Dias

Ausência de Obama decepciona governo argentino
Um dos motivos da ausência é que a Argentina está mais voltadas para questões internas

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O relacionamento entre a Argentina e os EUA já vinha esfriando faz tempo. Desde o fim dos anos 1990 e início da década de 2000, quando a crise financeira assolou nossos vizinhos e os atentados de 11 de setembro mudaram para sempre a história dos norte-americanos, as casas Rosada e Branca deixaram de lado os laços estreitos que mantinham durante o governo de Carlos Menem. Com os olhos voltados para o Oriente Médio e para o Afeganistão, os EUA não deram o suporte econômico que os sulamericanos esperavam para superar suas dificuldades. Uma possível reaproximação entre os antigos parceiros parece ainda mais distante após o anúncio de que o presidente Barack Obama visitará o Brasil e o Chile no próximo mês de março e não fará uma escala na Argentina, mesmo passando pelo espaço aéreo do país. A decisão causou indignação no governo de Cristina Kirchner, que não consegue entender o porquê da exclusão.

O professor do Núcleo de Estudos Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Raphael Padula, lembra, no entanto, que os Kirchner afastaram a postura econômica neoliberal e a política externa subserviente do país: “Isso incomoda os EUA e impossibilita uma relação mais próxima”. A Casa Rosada também estabeleceu uma aliança muito próxima e estratégica com Venezuela, Bolívia e Equador, países cujos governos são desafetos dos americanos.

“A Argentina perdeu grandes oportunidades de se aproximar dos EUA ao longo do governo de Cristina Kirchner. A presidente se posicionou pró o grupo ideologicamente contrário aos norte-americanos sem ter ganhos políticos e econômicos com isso. Cristina também não soube definir qual é o regime ou ideologia do seu governo”, afirma o diretor do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) Marcelo Suano.

Já Raphael Padula lembra, ainda, que a Obama não teria uma agenda relevante no país que justificasse a visita: “A Argentina não vai comprar armas dos EUA, não assinará pactos de segurança, não vai apoiar a Rodada de Doha nos moldes que os países desenvolvidos querem, e nem vai firmar tratados bilaterais de livre-comércio, o que não agrada Washington”.

Além de não ser interessante para Obama visitar um país que não tem como fazer parcerias e trocas comerciais, no campo político a Argentina também desaponta, pois vive mais questões internas do que externas. Para Suano, o país perde espaço a cada ano no cenário mundial e precisa rever suas políticas públicas, em especial, sua política externa:

“Lá se vive o efeito viúva. A oposição não tem enfrentado a presidente em função da morte do seu marido e ex-presidente Néstor. Passando essa trégua, não se sabe que rumos Cristina seguirá. Obama, por sua vez, tem que resolver questões estratégicas. Neste momento, o ator de relevância na América Latina é o Brasil. Ainda mais com o governo Dilma, que tem se mostrado, ainda que de esquerda, menos ideologizado do que na era Lula. A diferença com relação ao Irã, por exemplo, já é nítida”.

Embora não tenha um papel significativo no cenário mundial, a Argentina sempre terá peso fundamental na América do Sul e nos processos de integração na região, defende o professor Rafael Padula: “A Argentina não perderia com a não visita de Obama. Além disso, outros países têm muito interesse nas relações com a Argentina, como a China e Índia e o próprio Brasil, e fazem os EUA perderem espaço no país”.

O fato de a Argentina passar por eleições presidenciais este ano foi a desculpa de uma fonte da Casa Branca para justificar a ausência de Obama. Para o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Arthur Bernardes, esse argumento técnico e político é válido já que Cristina vai buscar se reeleger, e a presença do líder americano poderia interferir no processo: “Não se sabe se Cristina vai ter muito mais fôlego sem o marido. A visita de Obama poderia influenciar, e os EUA não querem queimar cartucho à toa”. Bernardes ressalva, no entanto, que esse é apenas um dos argumentos que podem ter feito o líder americano não optar por pousar em Buenos Aires.

A professora doutora em Relações Internacionais da ESPM Rio de Janeiro, Andrea Rangel Ribeiro, lembra que a visita do presidente à América Latina acontecerá em três lugares estratégicos para os Estados Unidos no momento atual. Os temas que estão na pauta das negociações são variados e passam por questões como meio ambiente, desenvolvimento sustentável e social, e fontes de energia.

“Em El Salvador será importante a visita que terá como simbolismo um apoio ao governo de Mauricio Funes, ao combate ao narcotráfico na região, e à consolidação da democracia no país.

O Chile é um aliado político estratégico de longa data. Além disso, o país apresenta um potencial econômico de crescimento que o destaca na região atualmente. Já o Brasil é um ator político e um parceiro comercial de extrema importância, pois exerce uma liderança regional que pode ser útil aos interesses americanos”, diz Andrea Rangel.

A escolha de Brasil, Chile e El Salvador faz parte ainda da estratégia geopolítica dos EUA. Segundo o professor Raphael Padula, no Cone Sul, a região de onde pode surgir algum perigo aos EUA é a área ABC (Argentina, Brasil e Chile), onde se encontram os países mais desenvolvidos e que podem estabelecer uma ameaça através de alianças entre si ou com potências externas. Ao mesmo tempo, a América Central, o Caribe e os países da América do Sul acima do Amazonas são tidos pelos EUA como países de sua esfera de influência mais direta, de onde não pode vir nenhuma ameaça e onde a dependência dos EUA deve ser incontestável.

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13 Opiniões

  1. Sandra disse:

    Madame Kirchner faz parte da curriola de “presidentes ditadores” que está arrasando com a América Latina, como os nossos daqui.Estive em Buenos Aires agora e constatei em primeiro lugar a invasão dos produtos chineses (idêntico ao Brasil).Produtos vagabundos , de má qualidade, que arrasam com a indústria local, resultado da política de afastamento dos USA e aproximação com a China.O aumento de pessoas nas ruas pedindo esmolas, na sua maioria jovens.O lixo abundante.Creio que alguém que tivesse lido “O recurso do método” de Alejo Carpentier , não votaria nessa gente sem sentir culpa de ser conivente com a perpetuação do estado de catástrofe…

  2. Carlos U. Pozzobon disse:

    Já disse e repito que esta senhora se parece com uma mulher a beira de um ataque de nervos. Está cada vez mais ciumenta e inconsolada com o fato do mundo virar as costas para a Argentina, onde se viu?
    Ela e seu finado marido conseguiram a irrelevância pelas amizades que cultivaram na arena política internacional, mergulhando “cuesta abajo” no destino comum reservado à louvação de tiranetes cantinflescos. Agora que veio a evitação, as escusas e toda a sorte de floreios diplomáticos despistadores, a Argentina se descobre na exata situação descrita por Cervantes: a de “pedir cotufas en el golfo”, isto é, a de pedir algo impossível e inoportuno.

  3. Peter Pablo Delfim disse:

    Me lembrou a raposa e as uvas. Lamentáveis as conclusões do Rafael Padula. Sem comentários. Os governos do país de Cristina Kirchner se aliarão sempre aos EUA. Os interesses são enormes e sabem muito bem disso. Cristina faz alarde de uma visita de Obama aos vizinhos enquanto capitaliza em outra direção. Gregos e Troianos sabem disso mas somente Cristina ganha. Política externa e raciocínios matemáticos são como cão e gato. Os EUA socorrerão a Argentina até, e principalmente contra o Brasil. O conveniente nem sempre será o que é bom.

  4. Regina Caldas disse:

    Não sei que tipo de liderança regional o Brasil exerce..Basta recordar os abusos cometidos pela Bolivia, Venezuela, Equador contra nosso país,o Lugo pretendendo romper acordo s/os pagamentos de Itaipu,o Chávez levando n/país a fazer um papel ridículo no affair Zelaya, a Sra Kirchner que tenta mudar as regras s/tarifas acordadas no Mercosul de acordo c/suas conveniências, para sabermos que não exercemos liderança alguma.
    A visita de Obama talvez se encaixe mais numa cortesia ao novo governo. Para ver e sentir de perto o que pensa a presidente brasileira sobre temas externos.

  5. João Cirino Gomes disse:

    São tantas informações e estórias fajutas, distorcendo a História real, que já nem sabemos mais quem é quem!

    E o cachorro continuara sendo o melhor amigo do homem; enquanto não conhecer dinheiro!

  6. Antonio Campos Monteiro Neto disse:

    Desde que deram o calote na dívida externa, os argentinos amargam a posição de C- nas avaliações de risco, o que quer dizer que empréstimo externo só a juros altos. Os EUA têm razões para não querer negócios com BB AA.

  7. Beraldo Dabés Filho disse:

    Claro que o Presidente dos EEUU não vai passar pela Argentina, por motivos político-econômicos circunstanciais.

    Pelos mesmos motivos visitará o Chile e o Brasil.

    Circunstâncias são circunstâncias…logo!?

  8. Helio disse:

    A visita de Ahmadinejad ao Brasil deve também se explicar por “motivos político-econômicos circunstanciais”.
    Fiquei triste com as notícias portenhas descritas pela leitora Sandra. Suas observações são sobretudo sábias.

  9. Antonio disse:

    Torço para que a Argentina tenha um presidente bom ,inteligente ,humano que mostre um novo caminho para eles, pois os semeadores de arrogancia estão destruindo este grande pais que deveria como o Uruguai ser nosso grande amigo ,infelizmente alguns meios de comunicação insistem em nos fazer degladiar e não nos unirmos.Depois da familia nossos vizinhos podem ser os melhores amigos , mas para isso devemos cultivar uma forte amizade e é nos momentos dificeis que devemos nos mostrar próximos .

  10. Beraldo Dabés Filho disse:

    Circunstâncias são circunstâncias, logo!?

    Mineiramente, “para o bom entendedor, um pingo é letra”.

    Para não fugir à regra, existem exceções.

    A propósito, bom lembrar que George W.Bush, ainda como Presidente dos EEUU, veio ao Brasil, visitou uma Unidade da Petrobrás e até posou de garoto propaganda da Empresa, com direito a boné e tudo. Estava com um olho no Lula e o outro no etanol.

    Agora, lá vem o Barak Hussein Obama…

  11. Demilson disse:

    Demilson Diaz.

    Bom é facil de se entender porque o Presidente dos estados Unidos Perdeu prestigios pela Argentina, Lembramos que o pais dos nosso hermanos deu um calote de mais de 30 milhões de dolares nos Estados Unidos, algo muito feio praticado na Época. Etão como dizemos quem quer ter credito e prestigio devem manter o nome limpo no mercado, esse fator não fez com que o Estados Unidos adodassem sanções contra a Argentina, mas fez com que a confiança e o prestigio que os Estados Unidos tinha na Argentina, diminuissem, hoje Cristina Kerchner sente a necessidade de ganhar prestigios, como os Norte Americanos mas vê a sobra do passado pairando sobre o seu pais.
    Credibilidade é tudo principalmente no Mundo Globalizado que vivemos hoje, Claro que talvez Obama não visitou a Argentina ainda porque talvez não viu motivo para que ele faça uma visita. Eu acredito que ele vai visitar a Argentina sim amiga Cristina Kechner, mas é bom lembra de uma coisa, Vigiai todos os dias para que fatos antigos não gere mais desconforto no futuro da Argentina.

  12. Fábio Nascimento disse:

    Considero a preferência do Presidente Obama mais pelo fato de o Brasil ter sido um dos poucos países que, no panorama internacional, apresentou um quadro político e econômico mais robusto quando da crise econômica mundial. A Argentina, desde a década de 80, quando foi derrotada pelos ingleses – e estes foram apoiados pelos norte americanos – no conflito militar pelas Falkland não mais se mostrou tão alinhada aos EUA.

  13. Helio disse:

    Obama vem porque os aviões não serão mais os Raffale, há o acordo na Educação e nada indica que tenhamos recebido dinheiro venezuelano como no caso Kirchners.
    Lembro a Fabio que a Argentina cresceu mais que o Brasil na crise econômica.
    Antes de Obama vir, Dilma foi lá, e temos também interesses.
    Dabés, Bush certamente tinha curiosidade sobre o etanol para importar, já que os americanos são grandes produtores e consumidores de petróleo, mais que o Brasil. Será que não poderíamos pensar nisso? Ou isto seria considerado pecado por alguns leitores obcecados pelas teorias de conspiração ou pelas velhas e repetidas explicações imperialistas? Infelizmente alguns sempre optam por interpretações tortas, maldosas e paranóicas.

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