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ECONOMIA

Bancos europeus apostam em dívidas de curto prazo

Estratégia deixa instituições vulneráveis a uma futura crise financeira

Bancos europeus apostam em dívidas de curto prazo
Crise de dívidas públicas na zona do euro é o grande vilão (Fonte: Corbis)

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Uma das lições mais claras da crise financeira foi a do quão vulneráveis os bancos, sejam eles bons ou ruins, podem ser se os mercados de financiamento a curto prazo se esvaziarem. A solução óbvia seria aumentar o período de financiamento, e os reguladores têm sido bastante repreensivos para conseguir que isso seja feito. Mas em alguns países europeus, os bancos têm feito exatamente o oposto e diminuído a duração de suas dívidas, o que os deixa perigosamente expostos a outro período de vacas magras.

A crise de dívidas públicas na zona do euro é o grande vilão. Dados colhidos pela Dealogic, uma empresa de análise, mostra que a média dos prazos das dívidas bancárias emitidas desde o início do ano na zona da moeda única é um pouco longa se comparada com 2006, ou seja, antes da crise começar (veja o gráfico abaixo). No entanto, isso mascara uma divisão entre os fracos e os fortes. Na França e na Alemanha, bancos foram obrigados a emitir dívidas com prazos mais longos do que antes da crise. Mas em países com problemas fiscais com a Grécia e Portugal, que estão sendo obrigados a recorrer a resgates econômicos, os prazos diminuíram consideravelmente.

Preocupantemente, os bancos nas outras partes da zona do euro estão enfrentando dificuldades. Na Espanha, por exemplo, tem sido mais fácil conseguir financiamento por meio de câmaras de compensação do que pela emissão de títulos diretamente para os mercados. Na Itália, os bancos ainda são capazes de vender títulos e têm altos níveis de depósitos relativos a seus empréstimos. Mas como investidores exigiram retornos maiores nos títulos governamentais, isso também se espalhou para custos mais altos de financiamentos para os bancos. Eles agora pagam entre 1 e 1,5% a mais de juros na venda de títulos que bancos de países como a França e a Alemanha.Isso os tenta a explorar os mais baratos, e menos estáveis, mercados interbancários.

Bancos por toda a Europa estão tentando se adaptar a esses estresses nos mercados de títulos. Muitos estão emitindo covered bonds, encaradas como mais seguras por parte dos investidores porque são apoiadas por hipotecas ou empréstimos aos governos locais. No entanto, os retornos nesse tipo de título também têm subido, e os bancos estão competindo ferozmente pelos depósitos. Mas isso também vem com um preço, já que eles têm que oferecer taxas de juros maiores para os clientes. Na Espanha a fome por depósitos é tão intensa que o banco central teme que os juros sobre eles aumentem a um ponto em que ponham em risco a rentabilidade do sistema bancário.

Existem alguns pontos de esperança tanto dentro quanto fora da zona do euro. Na França, os bancos fortaleceram seu financiamento. Na Alemanha, os depósitos são responsáveis por uma porção maior dos fundos bancários do que há um ano. Bancos no reino Unido tiveram sucesso em reduzir sua dependência no financiamento atacadista de curto prazo, ao emitir títulos de longo prazo e os bens como garantia de segurança.

Apesar desses lampejos de esperança, os estresses nos financiamentos bancários podem se intensificar nos próximos anos. Quanto mais os bancos tiverem dificuldades para vender títulos de longo prazo, maiores serão os resíduos de dívidas que terão que ser renegociados e crescerão. Além disso, a Basel 3, uma série de regras sobre capital e liquidez, elaborada para facilitar o processo bancário, forçará os bancos a ter uma dívida de longo prazo maior que a atual. A McKinsey, uma consultora gerencial, afirma que os bancos terão que vender € 2,3 trilhões em títulos de longo prazo para lidar com o problema.

Mesmo enquanto as novas regulações aumentam a oferta de dívidas bancárias de longo prazo, outros podem suprimir o apetite dos investidores. Seguradoras, as maiores portadores de dívidas dos bancos europeus, podem ser dissuadidas de manter títulos corporativos de longo prazo pelas novas regras de quitação, forçando-as a gastar o dobro de capital nos títulos de dez e cinco anos.

Outra razão pela qual os investidores podem ficar relutantes são os novos regimes de resoluções para os bancos. Reguladores estão tentando garantir que portadores de títulos participem das perdas de bancos decadentes antes que contribuintes sejam obrigados a resgatá-los. No entanto, isso não estimulará investidores a comprar seus títulos.

Reguladores podem querer prevenir outra crise financeira, aumentando o financiamento dos bancos. Mas isso está se provando muito mais difícil do que eles esperavam.

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Fontes:
Economist - European banks: Cutting it fine

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