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IBGE NA MIRA

Bolsonaro tem um problema com as estatísticas

Presidente disse que dados do IBGE 'parecem ser feitos para enganar' e cortou verbas do Censo 2020, o que pode prejudicar a qualidade das informações e impactar em políticas públicas

Bolsonaro tem um problema com as estatísticas
Os impactos de um Censo empobrecido em perguntas e abrangência se estenderá a diversas áreas (Foto: EBC)

Insatisfeito com os números alarmantes referentes ao desemprego, distribuição de renda, saneamento básico e outros indicadores, o presidente de um país latino-americano faz críticas ao principal instituto governamental responsável por coletar e produzir estatísticas oficiais. Em seguida, reduz em um quarto o orçamento para a realização de um censo de abrangência nacional, e demite o diretor de pesquisas que se manifestou contra os cortes.

Esse roteiro, com algumas variações, foi o que se passou na Argentina nos anos de Néstor e Cristina Kirchner e na Venezuela de Nicolás Maduro, resultando em um “apagão estatístico” que lançou os dois países em cenários de incerteza econômica, estratégica e política. É também o que tem feito Jair Bolsonaro (PSL) desde que tomou posse em janeiro.

Em sucessivas entrevistas, o presidente repetiu sua avaliação sobre o trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Arvorado muitas vezes em falsidades – por exemplo, a de que os beneficiados pelo Bolsa Família constam como “empregados” nos questionários do IBGE, bem como os que recebem auxílio-reclusão –, o presidente afirmou que os números do Instituto “não refletem a realidade” e “parecem” ser feitos para “enganar a população”.

E não só na retórica ficou Bolsonaro. Por intermédio de seu ministro da Economia, Paulo Guedes, ele determinou um corte no Censo 2020, principal pesquisa de campo realizada pelo IBGE para medir diversos índices sociais e econômicos do país. Não se sabe exatamente o tamanho do corte, mas o Instituto trabalha com uma diminuição de pelo menos 25% das verbas, estimadas inicialmente em mais de R$ 3 bilhões.

Guedes também não se limitou a comunicar o corte: sugeriu formas de baratear a pesquisa. Também baseado em números falsos, disse que o IBGE poderia, por exemplo, diminuir o número de perguntas no questionário. “O Brasil faz 360 perguntas no Censo”, afirmou.

A pesquisa, que é realizada há cada dez anos, contou, contudo, com 49 perguntas em sua última edição, em 2010, e 119 questões na pesquisa amostral, realizada em 11% dos lares brasileiros.

“Não há como minimizar o quão absurdo é um presidente da República questionar a definição e o cálculo da taxa de desemprego da agência estatística oficial do país”, lamentaram, em artigo publicado no jornal Globo, os professores Cláudio Ferraz, Felipe Campante e Rodrigo Soares, da PUC-Rio, Johns Hopkins University e Columbia (EUA), respectivamente.

E concluíram: “Esse absurdo ilustra traços que, com poucas exceções, têm-se tornado características marcantes da atuação do governo: ignorância profunda no tratamento de problemas sérios enfrentados pelo país e clara tendência autoritária”.

Cerco aos críticos e a importância do Censo

Cláudio Crespo, que até maio era diretor de pesquisas do IBGE, foi demitido do cargo por Susana Cordeiro Guerra, escolhida em janeiro para chefiar o Instituto. Por Crespo ter sido uma das principais vozes contra os cortes no Censo, há a suspeita, entre funcionários do IBGE, de que a motivação da demissão tenha sido “silenciar os questionamentos”, conforme noticiou Bernardo Mello Franco, repórter do Globo.

Sobre o caso, assim se manifestou, por meio de nota, a Assibge, entidade que representa os funcionários do Instituto: “A decisão reforça a postura do governo Bolsonaro de intervir no IBGE, o que ficou evidente nas declarações do próprio presidente questionando os dados da Pnad Continua [a pesquisa que mede o desemprego]”.

A questão é que além de retratar a realidade, o Censo tem diversas aplicações práticas e deveria nortear, idealmente, as políticas de um governo. Os impactos de um Censo empobrecido em perguntas e abrangência se estenderá a diversas áreas.

“Com ele eu consigo saber, por exemplo, quais crianças não estão matriculadas nas escolas, para calcular as taxas de abandono e traçar um perfil: por que elas estão abandonando a escola? São em sua maioria meninos ou meninas? Qual sua renda e onde moram? Só o Censo demográfico coleta esses dados”, explicou à BBC Brasil Rogério Jerônimo Barbosa, doutorando no Centro de Estudos da Metrópole da USP.

No mesmo sentido, questiona o médico Drauzio Varella em sua página na internet: “E o que significa para a saúde do Brasil cortar o Censo? Significa não saber quantas crianças vivem em cada cidade para calcular a quantidade de vacinas necessárias, contra pólio ou sarampo. Significa não saber quantas são as mulheres para planejar a quantidade necessária de equipamentos de mamografia ou outros exames essenciais para a saúde feminina, e não saber quantos idosos vivem em cada cidade para comprar medicamentos para as doenças crônicas”, exemplificou.

Parte do caos que a Venezuela vive hoje deriva dessa falta crônica de informações sobre o país. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Nelmary Diaz,  gerente de programas de uma ONG dedicada a auxiliar jovens mulheres a se proteger contra a gravidez indesejada, expõe o drama: “A verdade é que estamos na mais completa escuridão, não temos ideia do que acontece, da real dimensão dos problemas. Não há como ter muito planejamento”, diz.

Pesquisador do IBGE e pós-doutor em Planejamento Urbano, Antônio Alkmin fez, em artigo publicado na Carta Capital, seu resumo da questão: “O Não Censo ajudará a aprofundar as condições de um país indigente, miserável, injusto, desigual, violento, antidemocrático”.

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1 Opinião

  1. Rogério Freitas disse:

    Será que Bolsonaro tem noçao de estatística? Deve ter, e sabendo que os dados apresentados são reais e que falta competência para melhorá-los, melhor ignorá-los. Como ignorá-los? Isso sua equipe sabe fazer, basta não coletar as informações necessárias.

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