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Mundo árabe

Primavera Árabe atinge um novo patamar

Passados seis meses, países árabes continuam a espalhar revoltas em sua busca pela democracia

Primavera Árabe atinge um novo patamar
Queda de Muammar Khadafi na Líbia pode levar Primaver Árabe a um novo patamar

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Seis meses já se vão desde que os árabes começaram a sair da sombra da opressão. A Tunísia e o Egito, os primeiros a despertar, estão seguindo em frente – o primeiro de maneira mais convincente que o segundo. Os reis do Marrocos e da Jordânia estão se abrindo para um cenário mais constitucional. O Parlamento do Kuwait reafirmou sua força. Por outro lado, o Iraque continua sem as instituições e a tolerância necessária para que sua jovem democracia avance. O Líbano, brevemente eufórico com as revoltas populares de seis anos atrás, está dividido pela rivalidade sectária. As ricas monarquias do Golfo Pérsico corromperam seus cidadãos para que se mantivessem quietos – exceto o Bahrain, que esmagou sua maioria xiita dissidente. O Iêmen está no caos depois de banir seu antigo líder. Os sauditas se opõem veementemente à democracia, enquanto lidam com uma crise de sucessão.

Mas o destino imediato da Primavera Árabe se concentra na Líbia e na Síria, ambas à beira de revoluções. Caso se livrem de seus respectivos ditadores, a movimento árabe, rumo à democracia terá um ganho enorme. Derrubar Muammar Khadafi nunca foi uma tarefa fácil. Ele tem dinheiro e armas, aliados a astúcia, implacabilidade e determinação. Ainda assim, seus dias estão contados e sua situação é cada vez mais complicada, já que suas reservas de petróleo estão acabando. Rebeldes avançam do sul e do leste. Em Trípoli, dissidentes estão se armando.     

Uma boa razão para apoiar os rebeldes líbios era humanitária – interromper as investidas contra a população de Benghazi, que Khadafi jurou caçara como “ratos” e “baratas”. Mas sempre houve também uma outra razão – pragmática: os vizinhos egípcios e tunisianos da Líbia, embora muito frágeis para tomar parte no conflito, apóiam fortemente os rebeldes, e sonham com uma faixa democrática no norte da África, que iria do Marrocos ao Egito. Um renascimento da Líbia traria de volta o comércio e o pagamento de remessas entre os vizinhos. A queda de Khadafi impulsionaria a democracia e a energia juvenil no mundo árabe.

Há pouco mais de um mês, todos esperavam que o sírio Bashar Assad também caísse, mas ele deve se manter por mais tempo, já que a lealdade de suas forças armadas mostra poucos sinais de enfraquecimento. Mas a maré parece estar virando. A oposição se recusa a ceder e a revolução está se espalhando. Homs e Hama, terceira e quarta maiores cidades do país estão praticamente fora do domínio de Assad. Sua oferta tardia de diálogo, embora rejeitada pelos comitês locais, pode significar o fim do monopólio do partido Baath no poder.

Se Khadafi e Assad caírem, a Primavera Árabe se tornará um verão. A ideia de permitir que islamitas antidemocráticos contestem as eleições deixa a população nervosa. Mas é muito melhor que eles o façam de maneira aberta, e não no submundo conspiratório no qual as divisões naturais são sufocadas e onde a ferramenta política principal é a violência.

Os árabes dificilmente se converterão completamente à democracia em um futuro próximo. É mais provável que um grupo de países siga nessa direção, e cabe aos próprios árabes criar esse novo mundo. Em alguns casos, como no da Líbia, estrangeiros podem ser de grande ajuda; em casos mais complexos, como o da Síria, eles só podem atuar dentro das margens diplomáticas, como Barack Obama e Hillary Clinton fizeram recentemente, ao declarar que Assad havia perdido toda legitimidade. Mas o que está claro é que o clima no mundo árabe está para sempre mudado. Independentemente do tempo necessário para as mudanças, anos ou décadas, ficou evidente que os árabes, como pessoas em qualquer lugar do mundo, querem decidir sobre aqueles que comandam suas vidas. E pelo menos alguns deles, na Líbia e na Síria, parecem perto de conseguir realizar seu sonho. Considerando o cenário de seis meses atrás, é um milagre e tanto.

Fontes:
The Economist - "It can still come right"

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1 Opinião

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Artigo correto. O processo avança, não importa as contra-marchas que apareçam no caminho. E também o resultado final não será uma democracia homogênea, mas democracias ainda fragilizadas por uma ancestralidade oligárquica com profundas feridas na sociedade. Mas é assim que a sociedade se desenvolve. O Egito passará por um processo de radicalização até se acomodar em uma nova ordem. O grande problema é a Síria. O poder continua monolítico frente a intensificação da revolta popular, fazendo com que aumente a repressão e o derramamento de sangue até que o exército se divida e inicie a libertação de alguma cidade, permitindo que a oposição se arme e consiga confrontar o resto do velho regime, como na Líbia atual. A formação de um governo provisório sírio na Turquia, parece uma evolução natural da insalvabilidade do regime. Assad e sua camarilha de assassinos somente vão começar a tremer depois que assistirem o fim de Kadafi. Espero que seja breve.

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