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Candidatura etimologicamente correta

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Nem três mandatos sucessivos desentortariam o problema da sucessão presidencial, da maneira como foi posta. Desde que começou a rodar o segundo mandato, o presidente Lula não cuidou de outra coisa que não fosse a sucessão que lhe reserva uma janela cativa de espectador. Mas, ao modo pessoal que adotou. Não que ele seja como às vezes parece ou quando parece o que não é. Qualquer um estremece quando se aproxima a hora. Em política não é diferente. Lula simula nada ter a ver com a própria sucessão, exceto se acautelar em relação às conseqüências. Merece um busto em praça pública aquele que deu o golpe de direção na hora certa, com a tal carta à burguesia, assinada pelo candidato com a mão direita e nominalmente endereçada aos brasileiros em geral, embora para ser lida por quem soubesse entender mais do que ali estava escrito. O resto era ficção.

Dito e feito. O risco bem calculado conseguiu o que nas três oportunidades anteriores deu soma zero. Foi encontro histórico, mas no sentido de que o passado e o futuro arredondam diferenças. A fórmula social-democrata funcionou com sucesso, mas ignorou solenemente a social-democracia e encabulou os petistas. O PSDB nem reclamou direitos autorais. Alguém deve ter acreditado que era apenas questão de ajuste, e ficou por isto mesmo. Lula foi um fenômeno eleitoral e desempenhou vários personagens desde então. Ele em cima, o partido embaixo.Venceu, senão com méritos, pelo menos com votos. Eleição normal, posse tranqüila, país sem sobressaltos. A tensão pré-eleitoral ficou para trás. José Dirceu postou-se com discrição como convém a fiador e anjo da guarda. Mais adiante, apareceu a reeleição e tudo se encaixou a despeito da poeira do mensalão. O presidente passou à fase oral intensiva, que está para ele como a viola para o cantador de feira nordestina. A popularidade fermentou. Projetos esparsos ficaram à disposição da conveniência que, dali por diante, passou a se chamar PAC. Só no segundo mandato, com o mensalão já assimilado aos costumes promíscuos da coalizão, o futuro imediato se apresentou. O presidente percebeu que não podia ficar para trás.

O tempo transcorrido deu Lula o perfil de coronel da República Velha numa nova república ao seu dispor. Assim, antes que o PT lhe impingisse um candidato próprio, embora politicamente impróprio, Lula fez a cena cinematográfica que o imortalizou temporariamente: renunciou ao inexistente terceiro mandato e, no passo seguinte, antes que o PT aprontasse algum candidato em versão jacobina, preencheu a lacuna com a declaração de fastio e realçou, em papos de circunstância, as virtudes da sua chefe do Gabinete Civil para comandar o PAC, do qual nada saiu para durar mais do que a necessidade pedia.

Nem assim Lula se vacinou contra o perigo do vácuo político, com notório poder de precipitar — fenômeno raro — conseqüências independentes de causas. 2008 era ano de eleição municipal, dotada de um lado desagradável — que é a cumplicidade geral para sufocar o que candidatos tenham a dizer com o que não deveria ser dito. Lula foi para um lado, o PT para o outro. Não houve saldo moral e político para o presidente aproveitar na condição de ex-candidato ao mandato inexistente. Já era, praticamente, ex-candidato. Tal condição é incompatível com o prazer de chamar atenção. O PAC também nada tinha a mostrar nem a esconder senão a ineficiência eminentemente oral de governos. Enfim, para encurtar caminho à sinuosa história sem se expor, Lula declarou seu voto antes que pipocassem na panela petista candidatos oriundos dos sem-terra ou dos desempregados que engrossam o caldo. A candidatura Dilma Rousseff teve o mérito pontual de servir de moldura para a o presidente Lula não ficar exposto aos olhos dos cidadãos, e sem se ausentar da cena. Recorreu-se até à cirurgia plástica, como se eleição presidencial respeitasse padrões eleitorais de miss Brasil. Dona Dilma ficou resguardada da oposição, que a vê com bons olhos, e do inevitável fogo-amigo do petismo, que se sente secundário. A candidata pisa em ovos para não parecer que está apenas guardando lugar para o padrinho. O perigo fica ao lado. Do ponto de vista da opinião pública, a candidatura não pegou com a intensidade desejada, mas não expõe o presidente. Dona Wilma é séria demais e, se não fosse a suspeita generalizada, que é a poeira deste governo, poderia perfeitamente se vestir de branco e sair por ai em campanha. Candidata etimologicamente correta veste branco.

Por não ler jornais nem ver televisão, que lhe dão azia, Lula povoa as madrugadas com hipóteses. Mas, se dona Dilma não mostra saldo nas pesquisas, também não tem débitos na realidade. A distância entre a candidata e o patrocinador da candidatura não pode aumentar nem diminuir sem favorecer desequilíbrios. A ele não escapou a queda vertical das referências ao terceiro mandato. Não precisava tanto rigor. Não voltaria ao problema por essa ponta, pois há outras. Dona Dilma também não exagera no desempenho. Há alguma coisa em comum, embora ainda imprecisa, entre as candidaturas de Dona Dilma para 2010 e do Marechal Lott em 1960. Felizmente o processo eleitoral ainda se passa no plano subjetivo. O terceiro mandato comporta variantes. Olho nelas. Há sinais de que o eterno candidato que habita a personalidade presidencial se reaproximou da doutrina que recomenda "não deixar a peteca cair". Já foi à Venezuela, mas não para conferir o que a baiana tem. Como em novela de televisão, só no próximo capítulo ficará clara qualquer conexão. Como a História não tem fim, tudo que está disperso se juntará nos próximos capítulos. Que não falte ficção enquanto não chega a hora da sucessão.

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4 Opiniões

  1. Renata Guerra disse:

    Wilson, como sempre, é demais. Sempre enxergando as filigranas que nós nem imaginaríamos.
    Parabéns, mais uma vez.

  2. Henrique disse:

    Parabens pela materia, acho sim que a "mãe" do PAC tem tudo p/ chegar la, e correndo por fora Aecio e Meireles.

  3. Martha disse:

    Wilson, a sua maneira de encarar a política dá destaque ao que escreve.A
    falta de arroubos e o seu
    equilíbrio nos levam a
    conclusões que nos satisfazem. É sempre um prazer ler os seus artigos.
    Obrigada .

  4. heloisa disse:

    No terreno da ficção, um apoio do presidente à Serra seria o ideal. Dilma sabe, e logicamente Lula, que sua candidatura não terá bom fim. Sem herdeiros, sem terceiro mandato, com popularidade em alta, estável e divina, se não tivermos informações de cocheira, estaremos livres para delirar. O artigo excelente nos introduz ao suspense dessa eleição.

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