Início » Brasil » Política » Celebração de heróis da resistência divide historiadores
Lituânia

Celebração de heróis da resistência divide historiadores

Símbolo da luta contra a ocupação estrangeira, Frente Ativista Lituana também perseguia judeus e poloneses

Celebração de heróis da resistência divide historiadores
Juozas Ambrazevicius, um dos líderes da LAF, é herói ou vilão? (Fonte: Balsas)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Para muitos lituanos, uma breve revolta contra a ocupação soviética em junho de 1941 foi uma coisa boa. Embora tenha sido pouco depois esmagada por outro grupo de invasores, os esforços da Frente Ativista Lituana (LAF) foram uma valente centelha de um estado independente antes de mais cinco décadas de domínio estrangeiro. Fãs de um dos líderes da LAF, Juozas Ambrazevicius, que morreu no exílio, planejam enterrar seu corpo em Vilna, durante as celebrações do 70º aniversário da revolta.

No entanto, para muitos judeus e poloneses, a revolta não foi heróica, mas sim, o anúncio da morte. Embora tenha sido combatida posteriormente pelos alemães, a LF era ferozmente anti-polonesa e anti-semita: milhares de judeus lituanos morreram em pogroms antes mesmo da chegada dos nazistas. O conflito envolveu perseguições e alianças entre judeus, nacionalistas lituanos, poloneses, nazistas e soviéticos. No fim, a maioria dos mais 160 mil judeus que viviam na Lituânia antes da Segunda Guerra Mundial estava morta, e a maioria dos poloneses havia sido deportada.

Desde 1991, especialistas de todos os lados vêm desenterrando os detalhes dos assassinatos, comparando fontes meticulosamente e desenvolvendo um retrato equilibrado de suas causas interligadas, que incluem o preconceito, a incitação exterior, a vingança e a covardia. Mas para alguns envolvidos — maioria deles, no exterior — o julgamento histórico tem sido muito suave e vagaroso. Eles detectam um sinistro padrão de negligência das construções judaicas, procrastinação na restituição, humilhação de sobreviventes do Holocausto em uma investigação de supostas atrocidades cometidas por combatentes judeus e uma abordagem histórica ultranacionalista que diminui o impacto do Holocausto.

Esse descontentamento levou a um protesto público e batalhas verbais em uma recente conferência acadêmica em Londres, que contou com o patrocínio da embaixada lituana. Os manifestantes leram uma carta denunciando tanto o governo da Lituânia quanto os esforços internacionais para equiparar crimes cometidos por nazistas e soviéticos.

A ação estimulou uma retratação por parte de historiadores e outros participantes da conferência, e de ninguém menos que Irena Veisaite, uma sobrevivente do Holocausto, e líder da pequena comunidade judaica da Lituânia. Ela se viu na incomum posição de ser repreendida por um manifestante contra o anti-semitismo, um cineasta britânico chamado Danny Ben-Moshe.

Veisaite e seus aliados deploram a glorificação da LAF. Eles atribuem uma culpa maior à confusão do que a malícia nas ações das autoridades lituanas. O que os preocupa é o endurecimento das atitudes em ambos os lados. Alguns lituanos têm a sensação de que críticos judeus estrangeiros ultrazelozos deixam a memória de lado na busca pela reconciliação. “Estamos espremidos entre dois Talibãs”, diz Sarunas Liekis, um professor de estudos judaicos de Vilna. A mesma obstinação que assola as relações da Lituânia com a Polônia, diz ele, está por trás da recusa dos políticos de reverter seus erros nas questões dos judeus.

Uma pergunta mais ampla diz respeito aos esforços para rearranjar a abordagem histórica europeia. Uma declaração em Praga, em 2008, apoiadas por figuras como Vaclav Havel, exigiu um julgamento no estilo dos de Nuremberg para vítimas e criminosos da era comunista. Goran Lindblas, um político sueco que ajudou a elaborar o texto afirma que a ideia não é reduzir o impacto do Holocausto, mas sim ampliar os erros cometidos pelos soviéticos. A ideia recebeu o apoio de instituições como o

Parlamento Europeu. Mas enfureceu alguns, senão todos, os ativistas judeus; políticos de esquerda (a maioria, da Europa Ocidental), e inevitavelmente, a Rússia.

Leia mais:

Democracia na Terra Santa

O país das start-ups

Fontes:
Economist - Old wounds

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

3 Opiniões

  1. André Luiz de Jesus Silva disse:

    O problema maior, por incrível que pareça não é reduzir a importância do genocídio judeu, mas sim em construir heróis de ordem política a fim de que os interesses de um grupo elitista sejam efetuados. Os ingleses conhecem e, dentro das linhas acadêmicas, aprovaram os trabalhos de Eric Hobsbawm do final dos anos 1980 e início de 1990, intitulados “Nações e nacionalismos desde 1789” e “Invenção das tradições”. Nessas obras o autor deixa bem claro que todos (eu disse todos!) os elementos de ordem nacional são inventados por membros de uma elite local apoiada por burocratas de Estado. A ideia da monarquia britânica ser tradicional e milenar, por exemplo, é falsa justamente pela participação desses elementos na construção de um símbolo nacional, como é o caso da família real.

    Tal situação também se emprega na construção dos mitos nacionais. Como dá para perceber é uma construção que visa representar os anseios de um grupo elitista que faz uso da imagem do dito “herói” para a partir dele efetuarem ações políticas que lhes sejam aprazíveis. O povo, nessa história toda, é apenas uma massa acéfala que assume bem a sua função de torcedora e defensora sentimental do herói e daqueles que se dizem protetores da história (por vezes distorcida) do personagem. Vejam o que acontece na Venezuela e na Bolívia. Chaves e Evo fazem um uso indiscriminado e persuasivo da imagem de Simon Bolívar, e contam, para tanto, da ignorância da população, que forma o senso comum, combinado a falta de pesquisas históricas mais esclarecedoras e menos entusiastas deste que foi um dos responsáveis pela independência dos países da América espanhola.

  2. Markut disse:

    Correta a percepção de André Luiz.
    O melancólico é que a fabricação do mito, trabalhado perante a massa acéfala, tanto envolve a própria natureza humana, que ela ocorre tambem no coração de Europa civilizada. Que dizer, quando a massa, naturalmente acéfala, tem ainda uma péssima escolaridade, como os súditos do Chavez, do Evo , ou do Sapo Barbudo, que toleramos durante oito anos?.
    “A Parte escura de nós mesmos” uma intrigante e desafiadora abordagem de Elisabeth Roudinesco, traz à tona as inatas perversidades de que é capaz o ser humano,esse mesmo ser humano tambem capaz de se elevar às alturas do sublime.

  3. Rogerio disse:

    A verdande é que vários povos (nações) tem seu “telhado de vidro”. Muitos praticaram um “genocidiozinho aqui e outro ali”, seja em no da limpeza étnica seja puramente por racismo ou antropocentrismos. Vemos que não só os nazista empregaram esta tática. Ingleses na Índia, franceses na Argélia, alemães na Namíbia, norte-americanos e australianos com os nativos, espanhóis com os povos pré-colombianos, iraquianos e turcos com os curdos, russos com chechenos, sérvios com croatas, gregos, chineses, russos, etc, etc. Como somos a imagem e semelhança da Deus, nada é impossível no rastro de destruição é ódio…

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *