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Como a Europa deve integrar seus muçulmanos?

Após um período de ascensão da extrema-direita, perseguição a práticas muçulmanas parece ter diminuído na Europa. Esse é o momento de buscar a integração dos imigrantes islâmicos. Por Jonathan Laurence*

Como a Europa deve integrar seus muçulmanos?
França e outros países europeus estudam maneiras de integrar imigrantes muçulmanos

Há duas semanas, dezenas de carros foram incendiados na cidade francesa de Clermont-Ferrand depois que Wissam El-Yamni, um caminhoneiro de 30 anos, foi preso e morreu sob custódia policial. O tumulto revelou a hostilidade dos jovens das minorias contra a autoridade, que se espalha pela Europa, uma antipatia que em alguns momentos se transformou em surtos fatais de violência.

O fracasso da integração islâmica na Europa costuma ser atribuído – especialmente pelos partidos de extrema-direita – ao excesso de tolerância com a gigantesca imigração de países muçulmanos que começou na metade dos anos 1970. Ao reconhecer os pré-requisitos religiosos, países como a França, o Reino Unido e a Holanda teriam atrapalhado a assimilação, e até mesmo, nutrido o radicalismo. Mas a turbulência nos sombrios subúrbios europeus não vem da diferença religiosa, mas sim da alienação e da instabilidade social.

Os europeus não deveriam ter medo de permitir que estudantes muçulmanos estudem sobre o islã em escolas e universidades públicas. O reconhecimento e a acomodação das práticas religiosas islâmicas, desde suas vestimentas e idiomas até sua educação, não deveria ser encarado como um sinal verde para o radicalismo. Pelo contrário, somente ao fortalecer os direitos democráticos de associação, formação de partidos políticos e participação na vida cívica dos cidadãos muçulmanos, a Europa será capaz de integrar seus imigrantes e dar um sentido completo à promessa abstrata de liberdade religiosa.

Ascensão da direita radical

O crescimento de partidos de extrema-direita anti-imigração levou vários países a impor restrições às vestimentas islâmicas, construções de mesquitas e reunificação de famílias por meio das leis de imigração. Essas políticas são um retrocesso. Paradoxalmente, pessoas que não costumavam ligar tanto assim para a religião se tornaram mais ligadas às vestimentas, símbolos e tradições de suas religiões, já que sentem que estão sendo destacadas na sociedade, e que seus direitos básicos estão sendo negados.

Um exemplo claro é o debate na França sobre a possibilidade do Yom Kippur, o dia do perdão judaico, e da Festa do Sacrifício, um importante ritual muçulmano, serem reconhecidos como feriados oficiais. Sim, o Estado francês se atém ao princípio da laïcité, ou do secularismo – mas o reconhecimento da Páscoa e do Natal como feriados oficiais soa, para muitos judeus e muçulmanos, como hipocrisia. É a ausência do islã nas instituições – a começar pela escola, seu calendário, suas salas de aula e suas refeições – que contribui para a fúria e a alienação dos jovens muçulmanos europeus.

Nos últimos meses a ascensão da extrema-direita parece ter diminuído. Uma tentativa de banir os véus nas creches francesas foi rejeitada. O Parlamento holandês também não aprovou uma lei que pretendia proibir os sacrifícios animais muçulmanos. E o estado mais populoso da Alemanha ajudou a derrubar uma proibição judicial de orações escolares, anunciando acesso igualitário aos cursos religiosos para estudantes muçulmanos.

Por muito tempo os países europeus mascararam uma ausência de políticas coerentes de integração sob o manto do “multiculturalismo”. O Estado terceirizou o trabalho duro da integração, deixando-o nas mãos de diplomatas estrangeiros e instituições islamitas. Na Alemanha, alguns estudantes usam livros sauditas provenientes de instituições sauditas.

Essa negligência na integração ajudou um “submundo do islã” a tomar o controle nas lojas, porões e pátios de suas cidades, que refletia um desejo de se livrar dos trabalhadores imigrantes e perpetuou um mito sobre a eventual deportação e repatriação dos imigrantes. No Reino Unido, por exemplo, leis de igualdade racial protegeram sikhs e judeus como minorias, mas não hindus e muçulmanos, já que eles ainda eram considerados “estrangeiros”.

A exclusão institucional alimentou uma demanda por reconhecimento religioso, e tanto uniu quanto segregou os muçulmanos. Organizações islamitas se tornaram as maiores defensoras da fé. É crucial agora criar a mistura exata de incentivos institucionais para moderação política e religiosa, e a estratégia mais promissora para conseguir isso é fazer com que o governo consulte as muitas instituições religiosas criadas pelos muçulmanos que cumprem a lei.

O Conselho Francês da Fé Muçulmana, a Conferência Islâmica da Alemanha, o Comitê do Islã Italiano e o Conselho Nacional de Mesquitas e Imãs do Reino Unido – todas entidades islâmicas aprovadas por Estados na última década – representam uma grande encruzilhada para administradores de mesquitas nesses países. Elas silenciosamente começaram a recuperar várias questões práticas esquecidas, como as permissões das mesquitas para que departamentos de teologia islâmica sejam criados nas universidades públicas e a indicação de sacerdotes para as forças armadas e as prisões.

No fim, no entanto, instituições democraticamente eleitas são os locais nos quais os desejos de muçulmanos individuais devem ser expressados. Desde 1789, quando um legislador francês afirmou que “os judeus não devem ter direito algum enquanto nação, mas devem ter todos os direitos enquanto indivíduos”, os europeus lutaram para resolver as tensões entre direitos derivados da cidadania universal e a participação em grupos da sociedade.

Nos próximos 20 anos, a população de muçulmanos da Europa deve crescer e se aproximar dos 30 milhões – cerca de 8% da população continental. Dar completa liberdade religiosa aos muçulmanos não removerá os obstáculos para sua participação política ou criará empregos. Mas ao menos diminuirá as tensões sobre suas práticas religiosas. Isso evitaria conflitos sectários e abriria caminho para que os políticos tratassem de desafios mais urgentes e da integração socioeconômica.

* Professor de ciência política da Boston College, e autor de The Emancipation of Europe’s Muslims: The State’s Role in Minority Integration.

Fontes:
The New York Times - How to Integrate Europe’s Muslims

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5 Opiniões

  1. Kesya Rutes Silva disse:

    Creio que todas as pessoas no mundo devem lutar por seus direitos universais. Mas uma vez que os muçulmanos não tem registro histórico na Europa, exigir que as escolas deixem de fazer uma oração ou pedir que determinado costume venha tornar-se feriado, ou coisas do tipo, são pedidos precoces à nações que ainda estão trabalhando com adaptação de diferentes culturas. Os vizinhos merecem, sim, dignidade no país, mas quem decide as regras da casa, ainda são os anfitriões.

  2. Vanderlei Alves P. Junior disse:

    Não preciso nem ler a matéria para perceber o tom do articulista. Integração? ele deve estar brincando… os muçulmanos não querem se integrar a nada,eles não querem, eles querem é implantar a sharia, apenas isto. O que está em curso é uma guerra cultural, pela invasão inesgotável dessas figuras, todo mundo quer sair do “paraiso dos pasies islamicos” e ir para o “ocidente decadente.” Ou seja, quer casa, agua encanada, internet livre, direitos sociais sólidos, enfim, uma democracia liberal. Quando os maometanos tem um número pouco significativo, eles incomodam pontualmente, somente em coisas esdruxulas, quando seu número cresce, seja pela invasão, procriação, etc. Eles começam a “reinvindicar seus direitos” leia-se, tentar impor a sharia, mesmo que nem sejam a maioria da população. Pergunte aos governos europeus se a seguridade social não quebrou tambem, pelas “políticas sociais” de auxilio a essas pessoas, que nem cidadãos são, mas que gozam de imensos benefícios estatais. Agora pergunte como é a “integração” dos cristãos, ateus, budistas, nas sociedades islamicas. O Boko haram da Nigéria é um exemplo Lapidar, literalmente lapidar, ou seja, mortifero. Integração? Não, muito obrigado. Minha irmã é muçulmana, “moderada”, e bastou conversar um pouco com ela, para perceber o quanto eu não quero viver nem, numa sociedade islamica, moderada, radical, liberal, ou de qualquer outro recorte, nem ver meu pais sob o dominio desta gente.
    Agora, o autor dizer que a turbulência não vem da diferença religiosa , mas da “alienação e da instabilidade social”, é uma palhaçada, os próprios muçulmanos discordariam, por dois motivos, primeiro porque o protesto foi pela morte de um muçulmano e nao de uma pessoa qualquer, segundo, para os maomentanos, tudo, absolutamente tudo está ligado a religião, mesmo as coisa mais comezinhas, quanto mais a politica de Estado. Aprendi isso lendo e conversando com minha irmã.
    Ademais, extrema direita é uma ova, o problema é a extrema esquerda leniente e aliada desta política suicida.
    Não existe exclusão institucional,como o autor advoga, até porque o Estado não é um mostro que tudo abarca e pode fazer. Se os haitianos se mudam em massa para o Brasil e não conseguem se estabelecer, por vários motivos, não significa que houve “exclusão institucional”,

  3. André Luiz D. Queiroz disse:

    Eu me lembro de um filme de animação no qual as personagens eram figuras geométricas: havia uma tribo de ‘cubos’ e uma tribo de ‘esferas’, e quando se encontravam, uns não toleravam os outros por conta da ‘diferença de formato’. Resultado: saíram no pau! A violência foi generalizada, mas, no que iam se agredindo, sofriam lesões que ‘desbatavam’ suas formas, acabando que os indivíduos de ambas as tribos ficaram todos com formatos sextavados mais ou menos iguais! Então as hostilidades cessaram, e todos passaram a conviver civilizadamente. O filme termina com dois indivíduos se cruzando na rua e se cumprimentando, no que passa um terceiro que também os cumprimenta casualmente e segue, mas gera estranheza nos outros dois porque é triangular!

    Essa animação é brilhante, e pertinente, pois mostra não só a origem dos conflitos étnicos/religiosos (a intolerância ao ‘diferente’) como também a solução do problema: tornar todos ‘iguais’, ou seja, integrar de forma igualitária na sociedade os membros da minorias étnicas/religiosas, até que sejam assimilados culturalmente àquela sociedade e se percebam como parte integrante dela, preservadas ainda suas origens e identidades culturais/étnicas. Melhor seria se essa integração não se dê pela agressão mútua!

  4. Telmo Fortes disse:

    O professor Laurence, ou não conhece história ou está à soldo do dinheiro Wahabista. O Corão
    contém claros incitamentos à violência contra os não muçulmanos que, conforme ali consta, devem ser submetidos ao islamismo até pela força. Mas o pior está nos ensinamentos a varejo de Maomé que quase nenhum cristão conhece. O Professor Laurence deveria ir viver no mundo islâmico e ralhar com os indivíduos que destruíram as seculares imagens de Buda no Afeganistão, ou levantar uma campanha para permitir que os cristão possam ingerir bebidas alcoólicas naqueles países, ou então, simplesmente, pedir ajuda oficial para erguer igrejas católicas e protestantes por lá. Ele iria bem depressa compreender que é fácil dizer bobagens em Boston, um berço notável da tolerância. Esses inimigos na trincheira é que levam os jovens a não compreender a grandeza do Ocidente como pátria da liberdade e da cultura. Diga-nos professor Laurence, quantos prêmios Nobel foram dados às universidades árabes? Há quantos séculos eles não contribuem mais com o progresso científico da humanidade? Quantas pessoas são apedrejadas nas ruas? Quantas mulheres podem por lá saírem sozinhas para ir ao mercado? Quantas meninas tem sua genitália mutilada inclusive sem anestesia?

  5. Lu Alves disse:

    Esse autor não sabe mesmo o que fala. Essa corja de mulcumanos não querem se integrar, eles querem que o país em que estão se adeque a eles. Eu moro na Suecia a cinco anos e o que vejo aqui é o aumento massivo de estupros , crimes principalmente com facas, causados por refugiados, essas mulheres andando na rua com essas roupas ridiculas arabes, muitas pessoas vivendo as custas do cidadão sueco , a maioria não trabalham não fazem nada. Tem um bairro aqui onde simplesmente nem sueco eles falam. Eles que se adequem ao país em que estão, ou então voltem de onde vieram. Eu ja to de saco cheio desse povo. Eles não querem se integrar a sociedade, eles querem impor a religião deles e seus costumes arcaicos. Eu só espero que a Europa faça alguma coisa logo , antesque seja tarde. Islã não é religião de paz !!

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