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Política

Como Monica Lewinsky ajudou Saddam Hussein

No fim dos anos 1990, escândalo envolvendo Bill Clinton desviou a atenção de problemas no Iraque, que acabaram fortalecendo regime de Saddam Hussein. Por Charles Duelfer*

Em 1998, todos os olhos do planeta estavam voltados para Bill Clinton, graças a seu famoso escândalo com Monica Lewinsky. Na ocasião, pouca atenção foi dada ao seu papel no confronto com o Iraque. Os Estados Unidos e o Iraque não tinham relações diplomáticas, e a compreensão em ambos os lados era um tanto limitada – Washington tinha uma visão estereotipada do líder iraquiano, Saddam Hussein, que por sua vez também tinha uma visão estereotipada de Washington. Os analistas de inteligência enfrentavam dificuldades tentando entender o que acontecia no regime de Hussein, e tentando passar suas visões a líderes políticos que não tinham qualquer outra conexão com o universo de Bagdá.

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O ditador iraquiano não tinha ideia de como o líder da última superpotência poderia ser derrubado por uma “estagiária” de 20 e poucos anos. Mesmo Tariq Aziz, o vice-primeiro-ministro do Iraque, estava chocado com a ideia de que um evento que seria amplamente ignorado em Bagdá poderia acabar com a carreira daquele que era o homem mais poderoso do planeta. Para Hussein e os membros do governo iraquiano, o escândalo Lewinsky era uma prova de que Washington havia se enfraquecido. Essa dedução por parte do líder iraquiano guiou suas decisões durante o ano de 1998, o ano em que o processo de inspeções de armas de destruição em massa por parte das Nações Unidas começou no Iraque.

Durante aquele verão e outono, membros do governo iraquiano e inspetores das Nações Unidas buscavam verificar a existência destas armas no país. A essa altura, Hussein já havia eliminado seu arsenal (embora tivesse obstruído as inspeções), e pressionou para que as inspeções fossem concluídas. Os inspetores sabiam que haviam sido enganados por Saddam Hussein em muitas ocasiões anteriores e não estavam muito dispostos a dar-lhe o benefício da dúvida. Além disso, havia uma série de evidências que indicavam que o Iraque não havia cumprido as determinações da ONU.

Hussein deduziu que os Estados Unidos, com seu gigantesco sistema de inteligência, deveriam estar cientes do verdadeiro paradeiro de suas armas, apesar dos pronunciamentos de Clinton e da secretária de Estado, Madeleine Albright; e finalmente concluiu que, independentemente do que fizesse, Washington não reverteria as sanções junto ao Conselho de Segurança da ONU. “Podemos ter sanções com inspetores, ou sanções sem inspetores”, resumiu Aziz, na época.

No fim, o Iraque não viu motivo para “aguentar eternamente” o trabalho dos inspetores, quando não havia nenhum sinal de que Washington iria reverter as sanções ou mesmo dialogar sobre o assunto com Bagdá. Clinton, na visão iraquiana, estava enfraquecido, e não iria reconhecer a boa vontade dos iraquianos ou dialogar com eles; mas também não faria nada para ameaçar o regime de Hussein. Em dezembro, enquanto o Congresso discutia o impeachment do presidente norte-americano, os inspetores afirmaram que estavam incapazes de realizar sua missão dentro das condições oferecidas pelo Iraque.

Em resposta, e sem o apoio do Conselho de Segurança, os Estados Unidos conduziram, com apoio dos britânicos, um exercício de bombardeio de quatro dias, que ficou conhecido como Desert Fox. “Se soubéssemos que vocês iriam fazer isso, teríamos dado um fim às inspeções muito antes”, confidenciou a jornalistas um ex-embaixador iraquiano. Na perspectiva iraquiana, essa foi a manobra certa. Washington estava enfraquecida, o Conselho de Segurança estava dividido, as sanções perderam a força, e Saddam voltou a ser uma figura importante na política do Oriente Médio – um cenário que se manteve até o 11 de Setembro, anos mais tarde.

O episódio da era Clinton é uma lembrança da ignorância desesperada que está por trás de muitas decisões críticas. Líderes em Washington não tinham a menor ideia do que acontecia em Bagdá. A ausência de uma embaixada e de relações diplomáticas contribuiu bastante para essa situação. Hoje, os Estados Unidos discutem decisões bastante semelhantes em relação ao Irã, e assim como no fim dos anos 1990, se mantêm igualmente ignorantes sobre a liderança iraniana. E vice-versa.

* Ex-inspetor de armas das Nações Unidas, e autor de Hide and Seek: The Search for Truth in Iraq.

Fontes:
The Washington Post - In Iraq, done in by the Lewinsky affair

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2 Opiniões

  1. valdir rocha disse:

    Puts ! Os caras agora estão divulgando uma nova “verdade” para encobrir a destruição coverde do Iraque: Sadan destruiu as armas antes da inspeção. KKKKKK Esses americanos são mesmo os donos do mundo, fazem o que querem.

  2. Markut disse:

    Hoje, que estamos novamente na crista de uma dramática encruzilhada geopolítica,a sensação de que dependemos de decisões cruciais de cabeças despreparadas, assusta.
    Está fazendo falta uma liderança mundial, capaz, pela sua cultura, discernimento e equidistância, de trazer um pouco de equilíbrio ao dilema.
    Este atual dilema representa o ápice de uma situação em que os paradigmas atuais se exgotaram e necessitam, urgentemente, de uma
    profunda reavaliação, com ou sem Lewinsky.

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