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Conheça a trajetória de Muammar Khadafi

Conheça a trajetória de Muammar Khadafi
Muammar Khadafi morreu em solo líbio como prometera desde o início dos conflitos

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À medida que avançava pelo território da Líbia, a insurgência rebelde passava por vários cenários da vida de Muammar Khadafi. Sirte, cidade na qual nasceu em uma tenda beduína nas areias do deserto, e onde morreu baleado; Misrata, onde teve aulas de história com um professor particular; Benghazi, onde começou a planejar a revolução na academia militar; e Trípoli, onde montou sua tenda nos quartéis arrasados de Bab-el-Aziziya, assumindo o papel do “irmão-líder”, e afirmando que não sairia de lá até que a última de suas balas fosse disparada.

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Khadafi comandou a Líbia durante 42 anos. O belo e magnético capitão do exército, que derrubara o rei Idris em 1969, se tornara um fanfarrão com roupas extravagantes, um rosto marcado por cirurgias plásticas, o cabelo tingido de preto, e uma enfermeira ucraniana loura ao seu lado. Ainda assim, ele permanecia astucioso. Impondo o culto à sua imagem, ele manteve unido um país de fortes divisões tribais.

Ele governou sem poupar ninguém. Na sua Líbia, a oposição era punida com a morte, a imprensa privada era proibida, e os partidos políticos estavam banidos. Dezenas de mortes de oponentes políticos são atribuídas à sua polícia secreta, que agia municiada por delações dos comitês de observação, que reuniam cerca de 10% da população do país. Em apenas uma noite, 1.200 prisioneiros políticos foram assassinados na prisão de Abu Salim. Se seus inimigos fugissem do país, ele contratava assassinos para matá-los no exterior. As ordens do coronel, detalhadas no seu “Livro Verde”, substituíram a lei no país.

Início de mandato

Seu governo começou de maneira bem melhor. Como o venezuelano Hugo Chávez, um de seus raros aliados, ele chegou ao poder determinado a garantir as receitas do petróleo para o povo da Líbia, e não para corporações estrangeiras. Com a renegociação dos contratos, ele redistribuiu as riquezas e viu a Líbia prosperar, embora ninguém tenha prosperado tanto quanto seu próprio clã, que investiu bilhões no exterior. O petróleo lhe deu poder além de seu país, ele começou a se enxergar como um líder do Terceiro Mundo, a voz dos pobres do planeta, o rei da África, e o mentor da revolução mundial. Ele formou relações com figuras sanguinárias como o presidente liberiano Charles Taylor e o líder rebelde de Serra Leoa, Foday Sankoh. Ele deu dinheiro às Farc da Colômbia e ao IRA na Irlanda do Norte, e tentou até mesmo realizar uma conversão radical dos maoris na Nova Zelândia. Onde quer que houvesse sinais de sentimentos anti-Ocidente ou contra os poderes vigentes, ele estava lá, semeando a discórdia; afinal, seu “Livro Verde” dizia que a única verdadeira democracia era a direta, ainda que violenta, expressão da vontade do povo. Exceto na Líbia.

No Ocidente, por quatro décadas, o “Terceiro Mistério do Socialismo” do jovem coronel, um meio-termo entre o capitalismo e o comunismo que, nas suas palavras, resolvia todas as contradições de ambos os sistemas, não parecia ameaçadora o suficiente. Suas comunas populares não tinham poder algum, e o absolutismo era comum em Estados petrolíferos. Pelo menos ele não era um marxista: o herói nacionalista egípcio Gamal Abdel Nasser era seu modelo, e não Lênin. E Khadafi tinha petróleo.

Eventualmente, a tolerância ocidental se esvaiu. Nos anos 1980, Khadafi tentou comprar bombas nucleares no Oriente, patrocinou grupos terroristas, invadiu o Chade por razões expansionistas, e mandou que seus agentes explodissem um avião da Pan Am na Escócia, tornando-se um pária, e despertando a fúria do governo de Ronald Reagan, que retaliou bombardeando a Líbia.

Longe do piores?

Mas no século XXI, Khadafi parecia estar tentando se redimir. Ele disse as coisas certas sobre a Al Qaeda; ofereceu seu programa nuclear à inspeção internacional, e o abandonou em 2003; pagou indenizações pela explosão do avião da Pan Am; e, parecia ter esquecido seus delírios pan-arabistas e pan-islamitas. Num mundo repleto de muçulmanos ameaçadores, ele agora parecia estar longe dos piores. Na reunião do G8 em 2009, ele trocou apertos de mão com Barack Obama. No mesmo ano, ganhou permissão para discursar por mais de uma hora nas Nações Unidas, e retribuiu a tolerância rasgando da Carta das Nações Unidas as páginas que falavam sobre democracia.

Muammar Khadafi nunca esqueceu suas origens entre os andarilhos e pastores do deserto, e apesar das sereias e dos pianos brancos que adornavam suas instalações em Trípoli, ele preferia viver em uma tenda, e sempre levava uma em suas viagens. Quando não vestia seu uniforme militar, usava robes confortáveis. Seu projeto mais grandioso, o Grande Rio Artificial, levou água dos aquedutos do sul até as cidades do norte. O verde era a cor de sua bandeira, seu livro e seus cartazes. Seu socialismo, na origem, era baseado nos costumes de propriedade compartilhada dos povos do deserto. Sua devoção ao exército era a gratidão de um garoto pobre que usara as Forças Armadas como instrumento de ascensão social e ambições mais grandiosas.

Até o fim ele tentou posar como um membro de seu povo. Quando manifestantes tomaram as ruas de Trípoli no começo do ano, ele se ofereceu para protestar ao seu lado. Com certeza, após anos em contato com o “Livro Verde”, eles haviam aprendido a pensar como ele. Mas eles começavam a ousar e a pensar de maneira diferente. Em relação à Líbia e em relação a ele.

O texto abaixo é a carta-testamento escrita por Muammar Khadafi no início da intervenção militar da Otan na Líbia. Na carta, intitulada Lembranças de Minha Vida, Khadafi promete lutar por seu povo até o último suspiro. Durante a campanha dos rebeldes, muitos especularam que o líder líbio poderia ter fugido do país, embora ele constantemente mandasse mensagens dizendo que não desistiria e morreria na Líbia. E assim foi, em Sirte, sua cidade natal.

Lembranças da Minha Vida

Por 40 anos, ou mais, não lembro, fiz tudo que eu pude para dar ao povo casas, hospitais, escolas e, quando passavam fome, dei comida. Transformei Benghazi de deserto em uma plantação. Resisti aos ataques daquele caubói Reagan. Quando ele matou minha filha adotiva órfã, estava tentando me matar. Em vez disso, matou aquela criança inocente.

Depois, ajudei meus irmãos e irmãs da África com dinheiro para a União Africana. Fiz tudo que pude para ajudar as pessoas a entender o conceito de democracia real, pelo qual comitês populares governam nosso país, mas nunca bastava. Como alguns me disseram, até pessoas que têm casas com dez quartos, ternos novos e mobília nunca estão satisfeitas. Como são egoístas, querem mais, e diziam aos norte-americanos e outros visitantes que precisavam de “democracia” e “liberdade”, nunca percebendo que esse era um sistema assassino, no qual o cachorro maior come os demais. Mas eles estavam deslumbrados com essas palavras, sem nunca se dar conta de que, nos EUA, não há remédio de graça, casa de graça, educação de graça nem comida de graça – a não ser quando as pessoas têm de implorar e fazer longas filas para ganhar sopa.

Não. Não importava o que eu fizesse, não era o bastante para alguns.

Mas, para outros, era sabido que sou o filho de Gamal Abdel Nasser, o único verdadeiro líder árabe e muçulmano que tivemos desde Saladino, que recuperou o Canal de Suez para seu próprio povo, como eu recuperei a Líbia para o meu. São os passos dele que tento seguir, para manter meu povo livre da dominação colonial – de ladrões que roubariam de nós.

Agora, estou sob ataque da maior força da história militar. Meu pequeno filho africano, Obama, quer me matar para roubar a liberdade do nosso país, para roubar nossa habitação gratuita, nossa saúde gratuita, nossa educação gratuita, nossa alimentação gratuita, e substituí-las com ladroagem no estilo americano, chamada de “capitalismo”.

Mas todos nós no Terceiro Mundo sabemos o que isso quer dizer. Significa empresas mandando nos países, no mundo, e pessoas sofrendo. Assim, não há alternativa para mim. Preciso marcar minha posição. E, se Deus quiser, morrerei seguindo seu caminho, aquele que tornou nosso país rico com plantações, comida e saúde, e até nos permitiu ajudar nossos irmãos e irmãs africanos e árabes, trabalhando aqui conosco, na Jamahiriya Líbia.

Não desejo morrer, mas se chegar a isso, para salvar esta pátria, meu povo, todos os milhares que são meus filhos, então que seja.

Que este testamento seja a minha voz para o mundo – que enfrentei os ataques cruzados da OTAN, enfrentei a crueldade, enfrentei a traição, enfrentei o Ocidente e suas ambições coloniais, e que enfrentei com meus irmãos africanos, meus sinceros irmãos árabes e muçulmanos, como um farol. Enquanto outros estavam construindo castelos, eu morava numa casa modesta, e numa tenda. Nunca me esqueci de minha juventude em Sirte. Não gastei nosso tesouro nacional com bobagens.
E, como Saladino, nosso grande líder muçulmano, que resgatou Jerusalém para o Islã, peguei pouco para mim.

No Ocidente, alguns me chamaram de “louco”, “maluco”, mas eles conhecem a verdade e mesmo assim mentem. Sabem que nosso país é independente e livre, não sob as rédeas coloniais. Sabem que a minha visão, meu caminho, é e foi claro, e é pelo meu povo. E que vou lutar até meu último suspiro para nos manter fortes.

Que Deus Todo-Poderoso nos ajude a continuar fiéis e fortes.

Coronel Muammar Khadafi

Fontes:
The Economist - Muammar Qaddafi

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1 Opinião

  1. jose roberto alódio silva disse:

    Muamar Kadafi foi um grande homem,apenas precisou de mais discernimento e inteligencia quando apareceu o comando de Transição contra ele, mas sei que tem as mãos dos Estados Unidos nisso, pois trata-se de uma região com muito petróleo,pois bem ninguém merece morrer desse jeito,que Kadafi morreu nem como Sadan Hussein do Iraque outra região com muito petróleo, estão assassinados pessoas que deveriam ser julgadas, outro caso com as mãos dos E.U.A o assassinato de Osama Bin Laden .

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