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Considerações à sombra das urnas

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Sem demora, a questão principal passará a girar em torno da falta de assunto relevante para preencher a ociosidade pós-eleitoral que vem por aí. Interessa tanto ao Planalto quanto à oposição na planície impedir que os partidos se lancem à escolha dos candidatos, ou deixem que se apresentem por conta própria, desde que sem risco de comprometê-los. A eleição municipal não se federalizou, como dizem que o presidente Lula, de olho gordo na própria sucessão, queria porque queria. O que realmente está oculto nas frases que o próprio vai liberando em improvisos, aqui e ali, ele não revelará nem sob tortura (no caso dele, regime severo para emagrecer). Cada macaco no seu galho. Lula foi cuidar da própria sucessão na terceira pessoa do singular, ou seja, preparar e encaminhar uma candidatura que não ficasse devendo a ninguém. A dele, pela idéia de propor uma reforma constitucional, ficou chamuscada pela estapafúrdia idéia de debater o terceiro mandato.

Aos áulicos Lula apontou a porta da rua ao mandar que fossem procurar outro. Não admitia a leviandade do terceiro mandato, nem falhar na missão de grande eleitor que as pesquisas lhe outorgaram. Fazer o sucessor em nível presidencial será um feito inédito na República, que sempre foi dada a tirar presidentes e, por horror ao vazio, providenciar por fora outro para a  vaga aberta. A ordem não era obrigatoriamente esta.

Diz a tradição oral que nenhum presidente conseguiu, aposentada a República Velha, fazer o sucessor. Quem, antes de 1930, geria a sucessão era o partido do governo, de identidade estadual. Na arrancada democrática em 1945, foi retirado o primeiro presidente da nova série histórica, mas Getúlio Vargas deu mais trabalho depois de deposto, como portador do confortável saldo social conversível em votos. Tanto que até voltou pelo voto. Daí por diante, foi a era do golpismo, que às vezes falhava, mas fazia  estrago. Depois de 30, a moda se inverteu e passou a ser tirar presidentes.

O eleitor já aprendeu que é melhor votar e esquecer para não se aborrecer com a democracia. O eleito também sabe, e se aproveita. No mês seguinte o cidadão nem lembrará mais a quem confiou o voto, que só vale alguma coisa, nem que seja consideração, antes. Depois, nem cafezinho. Para vereador ou deputado federal, o prazo de validade é o mesmo e, quatro anos depois, o desmemoriado cidadão se dará conta de que os benefícios públicos o vento levou. Não saberá de quem cobrar a conta. É a democracia em seu nível elementar, por onde deveria começar, mas, na verdade, acaba. Um abraço e um queijo, na despedida da campanha, retribuem simbolicamente à gentileza do voto para vereador.

O presidente sai vencedor da eleição municipal porque deu a impressão de ser sócio dos que vencerem, vereadores ou prefeitos. Mas, apesar de se empenhar na federalização da eleição municipal, tudo continuou na órbita menor. A sucessão presidencial precisará esperar porque nem o governo têm combustível para rodar dois anos pelas estradas esburacadas e remendadas para jogar o foco no PAC e a ministra Dilma Rousseff faturar por tabela a simpatia política. À oposição não interessa expor sua intimidade e a desagregação, que começa na terra natal do PSDB, onde o pretendente Geraldo Alckmim fez um estrago que precisará de tempo para ser reparado. Aos demais, a prioridade em 2010 caberá às vantagens de sempre para tecer a rede representativa, deputados federais e estaduais, senadores e governadores. A democracia, como a economia, precisa de tempo para mostrar resultados palpáveis, ou esconder a falta deles.

Entre um vereador e um deputado federal, há menos do que aparece em matéria de variações de comportamento com o dinheiro público. Não é fácil o malabarismo para o eleito se manter em evidência eleitoral, nas condições de penúria orçamentária reservada aos de fora do governo. Do lado da oposição, está mais difícil plantar e irrigar uma candidatura, durante dois anos, sob uma incerteza que, se não é, parece um  verdadeiro nó na democracia. A atuação de Lula empurrou a República para um patamar que era sagrado: quando recebiam a faixa verde e amarela, os presidentes elevavam-se acima do partido que os bancou. Lula inovou por força das inebriantes pesquisas de popularidade que sobem todos os meses. Vai ser difícil acompanhá-lo depois que alcançar os cem por cento que a oposição teme. Será preciso, daí por diante, um Einstein para dar conta do absurdo cálculo matemático? E de um psiquiatra para resolver a equação presidencial? A situação machadeana antecipada pelo Ibope & Cia  pode criar aquela inversão que levou o dr. Simão Bacamarte a liberar os presos e prender os cidadãos normais. Ninguém sabe o que poderá ocorrer, exceto que alguma coisa frustrará a expectativa. Pela lei de Murphy, vai acontecer.

O episódio da candidatura social-democrata à prefeitura de São Paulo consumiu o metabolismo oposicionista. Geraldo Alckmim, portador de uma derrota histórica, não se lembra de que foi o único pretendente que conseguiu, no segundo turno, ter menos votos do que no primeiro. Dois anos depois, o mesmo Alckmim quis porque quis, sem credenciais nem simpatia, ir à forra. Cobra do PSDB quando devia bater à porta de Lula pela indenização. É a prova de que a eleição municipal não subiu um degrau rumo ao nível federal. Também o PSDB até hoje não se refez das derrotas para um Lula que, como o Brasil, na própria maneira de ver, não é o mesmo, embora não mostre a diferença.

Nem mesmo o eleitorado social-democrata se comoveu. Alkmim procede como se a derrota não fosse dele, mas do partido. Tem-se na conta de candidato, nato e hereditário, de um partido com raízes historicamente de esquerda, em qualquer eleição em São Paulo ou por São Paulo. No caso da prefeitura, com o viés de ressentimento, foi kamikase. A empreitada está mais para demolição do que eleição. Dividir o próprio partido faz da maldição dos eleitores a sombra de seu autor.

O PSDB já encaminha a opção entre duas candidaturas nascidas em casa, de parto natural: as possibilidades de José Serra e Aécio Neves vinham sendo temperadas para cansar o governo e estimular as contradições oficiais. Terminada a primavera dos prefeitos, o presidente terá que programar viagens para esquivar-se à cobrança do que prometeu, mas não cumpriu, de não subir no palanque de candidatos do PT nas cidades em que houvesse mais de um da constelação de legendas que o apóiam. Luiz Inácio Lula da Silva entendeu cedo que lhe caberia cozinhar o galo (que é, na linguagem da tradição rural, ganhar tempo).

No que vem por ai, a sucessão vai mostrar que não tem necessidade de lei para a largada. Lula tirou o corpo fora das especulações que não enchem barriga e usou uma pré-candidatura feminina. Bafejado por todas as pesquisas, programou-se para se revezar com a pré-candidata Dilma Roussef em atos públicos e transferir prestígio à candidata que ainda não é a última palavra oficial. Lula não entra em campanha sem uma alternativa. É, para cima ou para baixo, a margem de especulação que começa semana que vem.

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3 Opiniões

  1. Marco Leão Gelman disse:

    Acredito que o que pode ocorrer é uma desleal, imperial, prepotente e inaceitável corrida à satisfação dos interesses dos patrocinadores da campanha eleitoral dos que deixam o poder, na base do VALE-TUDO-AGORA! SÃO as imobiliárias mal intencionadas que pretendiam construir sobre os rios, os dirigentes que permitiram a invasão e destruição das áreas de proteção e conservação, aqueles mesmos que invadiram o direito de qualidade de vida e de cultura, e não apresentaram projetos efetivos de um Projeto Efetivo de Habitação e Renda, garantida pela Constituição Federal e todas as instituiçoes legais, que não implementaram, mas ao contrário, combateram a implantação de um Plano Diretor das Cidades favorecendo os interesses ocultos do poder de decisão imperial, ño desrespeito à participação consciente do cidadão.
    É contra esta situação que deveremos – população e imprensa livre – estarmos atentos e enérgicamente atuantes contra o sistema

    É ILEGAL SIM, E DAÍ!
    OLHO VIVO, E
    MINISTÉRIO PÚBLICO NELES!

  2. Mauro César Bandeira de oliveira disse:

    Oficina de quadrinhos ensina desenho como profissão

    22/09/2008

    Alunos aprendem novas técnicas de desenho

    Emanuelle Coelho

    Uma oficina de quadrinhos e animação está agitando a garotada de Ceilândia. Ministradas na biblioteca pública Carlos Drummond de Andrade, as aulas atendem, gratuitamente, uma média de 60 alunos.
    Edmilson de Melo e Silva, um dos professores voluntários do curso, conta que a turma começou com 15 alunos. “Com a divulgação, foram aparecendo mais estudantes interessados, e a biblioteca nos disponibilizou um espaço maior”, sentencia o professor.
    As aulas acontecem aos sábados, das 8h às 12h, onde os estudantes aprendem cartoon, perspectivas, história em quadrinhos, construções geo­métricas para o desenho e técnicas de desenho do corpo humano. Os critérios de seleção são: disponibilidade; estar matriculado na escola; faixa etária a partir de 10 anos; e seleção de habilidades.
    Apoio – “A idéia é darmos técnica para eles desenharem, depois irão aprender a fazer desenhos no computador. Queremos mostrar para eles que no computador há várias ferramentas para desenhar e soltar a imaginação”, comenta Edimilson, dizendo que a pretensão é de que as oficinas, que têm duração de cinco meses, se tornem permanentes na biblioteca. “Estamos enviando projeto à Secretaria de Cultura para ganharmos apoio e desenvolvermos o trabalho, além de Ceilândia, em outras cidades, como Taguatinga, Samambaia e Estrutural”, destaca.
    Com a expansão, a meta é de que sejam atendidos mil alunos. “Queremos entrar nesse processo sabendo que essa pode ser uma profissão para eles”.
    O professor Edmilson diz que acredita que se o conceito se torna prática facilita o entendimento. “A escola não trabalha de forma interativa. Acredito que se o professor de artes fizesse essa interação com a matemática seria mais fácil o aprendizado”.
    E a iniciativa tem aprovação dos participantes. Há um mês freqüentando as aulas, Paulo Henrique, de 19 anos, está aprendendo novas técnicas de desenho. “Podemos aperfeiçoar no desenho, nos capacitando e até conseguirmos um emprego na área”, diz o estudante.
    A biblioteca – Inaugurada em 1993, a Biblioteca Pública Carlos Drummond de Andrade é uma instituição de utilidade pública cultural, regulamentada pelo convênio de cooperação entre a Administração Regional de Ceilândia, a secretarias de Educação e de de Cultura.

  3. anônimo disse:

    trechos de REYNALDO AZEVEDO
    13 de outubro de 2008
    ” Inserção do PT na TV indaga se o prefeito Gilberto Kassab é casado e tem filhos. A cidade inteira sabe que a resposta é “não” e “não”. Então por que a pergunta? É óbvio que se tenta fazer um questionamento sub-reptício, covarde … sobre a sua sexualidade, que não interessa a ninguém, a não ser a ele próprio…
    E se ele fosse gay? Isso o impediria de ser o grande prefeito que é? O PT chafurda na lama, na propaganda mais odienta, na escolha mais desprezível, na discriminação mais asquerosa. Ao mesmo tempo em que assim procede, tenta criminalizar o DEM, como se o partido não tivesse direito de existir. É o fim da linha. No partido de Celso Daniel, de Santo André, e de Toninho do PT, de Campinas, tudo é permitido, tudo vale, tudo pode. Eis a campanha que está sob o gerenciamento de Gilberto Carvalho, braço direito de Lula — o mesmo Carvalho que era braço direito de… Celso Daniel.

    Alguém poderia indagar: “Mas a própria Marta não foi vítima de preconceito por ter-se separado de Eduardo Suplicy e casado com o argentino Felipe Belisário Wermus?” Eu acho que sim. Já escrevi isso aqui. E também observei à época que seus acertos e seus erros nada tinham a ver com a sua opção.
    Mas há algumas diferenças aí. Quem levou o drama de alcova do trio para a praça pública foi um dos vértices do triângulo: o marido agravado. Ninguém foi escarafunchar a vida de Marta ou perguntar se ela primeiro se divorciou para, então, ficar com seu novo amor. Mais: Belisário Wermus, que prefere ser chamado de Luís Favre, fez questão se tornar uma espécie de assessor especial de Marta e de participar do debate público brasileiro. Kassab não ofereceu a sua vida privada ao escrutínio de ninguém.
    … A campanha de Marta comete uma dupla canalhice ética.
    A primeira, evidentemente, é especular, sem que lhe tenha sido dada licença, sobre a condição sexual de alguém, o que é inaceitável; a segunda é sugerir que, se fosse verdadeira a ilação, seria uma mácula. Não! Kassab, acreditem, não está sendo pessoalmente atingido. Mas todos os gays do país estão. Marta quer lhes cassar a cidadania com uma campanha covarde e homofóbica, que nem mesmo ousa dizer seu nome. Justo ela, que iniciou a sua carreira política fazendo proselitismo entre os homossexuais. Mais uma farsa se revela — ou uma “bravata”, para usar expressão do presidente Lula: os gays serviram para dar visibilidade a Marta Suplicy. Agora, se preciso, ela os manda para a fogueira para conquistar os votos evangélicos. Foram usados e agora são jogados fora. No PT, vale tudo para se eleger. Sempre valeu.
    No dia 10 de julho de 2006, o jornal O Globo registrava uma fala emblemática. Indagaram a Marco Aurélio Top Top Garcia, então presidente interino do PT, se não era constrangedor para Lula dividir o palanque com mensaleiros. Sabem o que ele respondeu? “Constrangedor é não ter voto”. É o vale-tudo.
    … Reacionária é Marta Suplicy. Ela, sim, sob o pretexto de respeitar minorias — de quem queria o voto —, avança, sem qualquer respeito ou pudor, sobre a vida privada de um ndivíduo que nada lhe deve, tampouco explicações.
    E concluo.
    Há questões que são estritamente privadas. E outras têm interesse público. Eu não quero saber se Marta namorou Belisário Wermus só depois de se separar de Suplicy… Agora, saber qual é a fonte de renda de Belisário pode ser do interesse da coletividade. O homem é uma figura bastante presente na vida pública brasileira, não? Ele vive mesmo do quê? Quando trabalhava para Duda Mendonça, qual era mesmo a sua especialidade? ”

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