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Crise na Síria aproxima Israel, Irã e Arábia Saudita

Grupo de países que defendem a permanência de Bashar Assad no poder tem pouco em comum. Por Steven Cook para 'The Atlantic'

Crise na Síria aproxima Israel, Irã e Arábia Saudita
Bashar Assad está no poder há trinta anos

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Desde que os protestos na Síria começaram, o presidente Bashar al Assad cancelou o estado de emergência, aboliu os tribunais especiais e intensificou a repressão violenta, uma característica do seu governo há 11 anos. Ninguém deveria se surpreender quando as forças de segurança da Síria enfrentam manifestantes pacíficos com brutalidade. Ainda assim, muitas pessoas inteligentes em Washington e em outros lugares têm se mostrado dispostos a perdoar a família Assad por seus muitos pecados, desde a posse do pai de Bashar, Hafiz al Assad, que governou de 1971 a 2000.

A vontade de pôr fim à guerra sírio-israelense  e a possibilidade tentadora (uma fantasia, ao que parece) de quebrar o elo Teerã-Damasco levaram observadores a acreditar que Hafiz poderia selar a paz e que Bashar era um reformista. Bashar tem sido tolerado e até mesmo apoiado na esperança de que as perspectivas de boas relações com o Ocidente iriam persuadi-lo a mudar. Mas nunca houve qualquer evidência real de que Damasco estava genuinamente interessada ​​na paz ou em reformas.

Enquanto o mundo (lentamente) se dá conta do horror perpetrado pela família Assad, um pequeno grupo de nações parece agir sob a crença de que o regime de Assad é melhor do que a alternativa. É um estranho grupo neste novo mundo que se tornou o Oriente Médio: Israel, Arábia Saudita, Irã e Turquia.

Para os israelenses, que já sofrem com a perda de um aliado regional estratégico – o Egito de Hosni Mubarak – a previsibilidade da Síria de Assad servia de consolo. Israel e Síria podem estar tecnicamente em guerra, mas os sírios mantiveram a trégua nas Colinas de Golã e não representam uma ameaça à segurança de Israel. Os israelenses valorizam a estabilidade autoritária no mundo árabe, onde se teme que reformas acabem beneficiando grupos islâmicos hostis. Não é nenhuma grande surpresa que a liderança israelense está preocupada com a agitação na Síria. Assad pode ser um inimigo implacável, mas ele é melhor do que a Irmandade Muçulmana. Do ponto de vista da segurança israelense, pelo menos, Assad está fazendo o que Hosni Mubarak deveria ter feito: usar todos os meios disponíveis para salvar o seu regime.

Arábia Saudita

Durante a maior parte da década passada, a Arábia Saudita não manteve boas relações com a Síria. Mas a primavera árabe tem sido tão preocupante para o rei Abdallah que ele parece disposto a esquecer o passado. No final de março, quando os protestos na Síria estavam apenas começando a ultrapassar as fronteiras de Daraa, o rei Abdallah chamou Assad para oferecer seu apoio político. No curto prazo, pelo menos, o regime saudita se mostrou disposto a ignorar a aliança estratégica de três décadas entre a Síria e seu grande rival, o Irã, bem como a crescente influência da Síria no Líbano, que ocorre em detrimento da própria capacidade saudita de influenciar os eventos por lá.

O apoio a Assad é consistente com a estratégia da Arábia Saudita durante toda a primavera árabe, que incluiu dar apoio ao regime do Bahrein e uma oferta feita a Hosni Mubarak de compensar a perda da ajuda norte-americana se os egípcios decidirem empreender uma grande operação de combate aos manifestantes. Claramente, os sauditas veem a transformação da região como uma ameaça aos seus interesses e à estabilidade.

Irã

O membro menos surpreendente do grupo pró-Assad é o Irã. Teerã tem dito que a agitação no mundo árabe é prova da justiça da revolução iraniana e que a mudança na região só reforça a influência e os interesses iranianos. Entretanto, não há nada nas revoltas árabes sinalizando que os seus instigadores querem imitar a República Islâmica, embora, naturalmente, os grupos islâmicos podem ainda se beneficiar de sistemas mais abertos na região. Ainda assim, os árabes estão protestando por mais liberdade, não por uma outra forma de autoritarismo disfarçado de messianismo teológico.

E enquanto as mudança no Egito enfraquecem o eixo anti-iraniano da região,  as reformas não apontam para o florescimento das relações entre Teerã e Cairo.  Uma mudança de regime na Síria seria muito mais problemática para o Irã. Damasco oferece, afinal, uma importante porta de entrada para Teerã na política árabe. É o ponto focal através do qual Teerã tem sido capaz de se inserir diretamente no conflito árabe-israelense, entre outras questões regionais. Se a Síria se tornar mais hostil com o Irã não impossibilitará as ambições regionais do país, mas certamente trará retrocessos para ambos. É por isso que, juntamente com Jerusalém e Riad, Teerã espera que Bashar al Assad consiga se manter no poder. 

Turquia

Finalmente turcos encontram-se na incômoda posição de apoiar o seu aliado e parceiro, Bashar. Ancara foi dura com Mubarak, vacilou com Kadafi, e tem sido notoriamente silenciosa a respeito de Assad. O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan tem investido muito tempo e esforço no seu relacionamento com o presidente sírio. Os turcos vêm alavancando sua influência em Damasco e aconselhando o regime sírio a abandonar a violência e realizar reformas, mas até agora eles não tem sido ouvidos. Na semana passada Erdogan enviou uma delegação a Damasco — supostamente com uma mensagem forte para Assad sobre a necessidade de uma reforma mais rápida e significativa — e juntou-se a Bruxelas e Washington em condenar o uso da força contra manifestantes pacíficos. Estes desenvolvimentos são positivos, mas o pedido ambíguo da Turquia a favor da “democratização” não inclui uma chamada explícita para Assad renunciar.

Não espere que Ancara vá muito mais longe do que isso. Os líderes turcos gostam da sua relação com a Síria. A amizade entre Erdogan e Assad ajuda a dar ao primeiro-ministro turco credibilidade que ele tanto preza no mundo árabe, e as estreitas relações com a Síria são boas para ambas as empresas turcas e para a segurança do país. Ancara pode ser o membro mais relutante dessa coalizão pró-Assad , mas também tem muito a perder se Assad cair. Por mais desconfortável que seja, os turcos não devem abandonar o seu homem em Damasco.

Evidentemente, o grupo regional pró-Assad não é propriamente uma coligação durável. Estes países não são aliados. Mas o fato de que todos esperam que Bashar al Assad consiga sobreviver demonstra o quanto esses países temem a transformação da paisagem política regional. Nada cria companheiros mais inusitados do que um inimigo em comum: neste caso, o inimigo é a democratização.

Fontes:
The Atlantic - Unholy Alliance: How Syria is Bringing Israel, Iran, and Saudi Arabia Together

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