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Debates eleitorais ‘made in USA’

Debates entre políticos norte-americanos ficaram tão profissionais e ensaiados que perderam grande parte da sua relevância. Por Antonio Caño

Debates eleitorais ‘made in USA’
Debates são uma oportunidade para observar políticos sem seus scripts (Reprodução/Internet)

Os debates eleitorais são uma contribuição norte-americana à cultura política tal qual o hambúrguer para a gastronomia e a calça de vaqueiro para a moda. Estes têm em comum que são práticos, baratos e altamente rentáveis. Hoje já não se imagina eleições verdadeiramente democráticas sem um debate entre os principais candidatos transmitido ao vivo pela televisão. 

Esse espetáculo permite que os eleitores os comparem; é uma oportunidade para observar os políticos sem seus scripts e contribui para aumentar a audiência das emissoras, na medida em que os debates costumam ser espetáculos interessantes, embora não necessariamente divertidos. Alguns críticos reclamam que os debates acabam favorecendo o personagem mais fotogênico, e não o melhor político. Mas até agora, não se inventou um mecanismo mais eficaz para que milhões de eleitores saibam em quem votar.

Nos Estados Unidos, os debates entraram em fase de declínio. O país abusou tanto deste recurso que ele está perdendo sua relevância. Os candidatos descobriram macetes para burlar a pressão de seus oponentes sem revelar suas debilidades, e o público começou a se entediar diante da repetição de frases ensaiadas e discursos podados.

Apesar disso, é certo que os debates serão importantes nas próximas eleições presidenciais de 2012. Os aspirantes republicanos já realizaram nove debates desde o início da primavera – o último em Las Vegas –, e estão programando outros oito antes das primárias de Iowa, no início de janeiro. Vários outros debates acontecerão no decorrer do ano, e pelo menos três deles serão entre Obama e quem for escolhido para enfrentá-lo pelo Partido Republicano.

Aconteça o que acontecer durante a campanha, estes debates podem sinalizar a ressurreição ou o colapso de qualquer um de seus participantes. Rick Perry, governador do Texas, viu desmoronar suas aspirações à presidência por ser um terrível orador, enquanto Herman Cain, um desconhecido até pouco tempo atrás, tornou-se um candidato de peso devido a seu estilo simples e direto de improvisar respostas ao vivo.

Tradição

Os debates formam parte da política norte-americana desde o século 19 e, inicialmente em sua versão para rádio, foram um elemento importante das campanhas presidenciais durante quase todo o século passado. Mas foi durante a campanha de 1960, com a comercialização dos primeiros televisores, que esse instrumento alcancou a influência gigantesca que tem hoje.

É impossíevel separar a vitória eleitoral de John Kennedy sobre Richard Nixon do seu triunfo no célebre debate em que o senador democrata apareceu jovem e otimista, enquanto o vice-presidente republicano, ao se recusar a usar maquiagem, teve sua credibilidade prejudicada pela barba por fazer. Kennedy e Nixon participaram de quatro debates naquele ano, mas Nixon nunca conseguiu se recuperar do baque à sua imagem sofrido durante aquele primeiro episódio na televisão. Os efeitos fatais deste debate e uma série de dificuldades legais impediram que outros fossem realizados até 1976.

Se conservam na memória política daquele país muitos outros grandes momentos vividos em debates eleitorais. Como aquele em 1980, em que Ronald Reagan, para explicitar o fracasso da gestão de seu rival Jimmy Carter, pediu ao público que se perguntasse se  naquele momento estavam melhores ou piores que quatro anos atrás.

Ou quando o mesmo Reagan, um ator por profissão, tentou minimizar a questão da sua idade avançada – ele tinha 73 anos em 1984 –, disse que não pensava em mencionar a juventude e falta de experiência de seu rival, Walter Mondale, durante a campanha.

Michael Dukakis perdeu todas suas opções em um debate contra George Bush, em 1988, ao titubear em uma pergunta sobre se aceitaria a pena de morte no caso de uma pessoa que houvesse estuprado e matado sua esposa.

É possível sobreviver a um debate ruim se o fracasso não for muito estrondoso. Barack Obama foi derrotado em quase todos os seus debates contra Hillary Clinton em 2008, mas em nenhum momento cometeu um erro irreparável. Mais tarde, ele ganhou todos seus duelos com John McCain, que entretanto não perdeu a eleição por suas atuações nos debates, mas por não conseguir reduzir a vantagem que seu oponente tinha conquistado.

Nos últimos anos, os debates ficaram tão profissionais que já perderam grande parcela do valor que tinham no início. Os famosos sete debates entre Abraham Lincoln e Stephen Douglas por um posto no Senado em 1858 foram realizados sem moderador. Em 1960, como conta Chris Matheus em seu livro Jack Kennedy, os truques eram extremamente rudimentares, como baixar o ar condicionado na sala para que Nixon suasse. Agora, os candidatos treinam durante horas todas as situações que podem ocorrer durante um debate, e é muito difícil, por mais sagazes que sejam os moderadores, conseguir pegá-los em uma armadilha, por mais que o espetáculo incorpore perguntas formuladas por internautas e intervenções do público que assiste o debate na plateia.

*Correspondente do El País em Washington, D.C.

Fontes:
El Pais - Debates 'made in USA'

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