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Brasil x Japão

Desastres naturais: estamos preparados?

Especialista analisa o despreparo do Rio de Janeiro para enfrentar situações extremas. Por Carla Delecrode

Desastres naturais: estamos preparados?
O Japão lida com os efeitos do maior terremoto da história do país

Depois da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, mais um desastre natural– de promoções lamentavelmente muito maiores– ganhou destaque na mídia. O terremoto do Japão, seguido de um tsunami na última sexta-feira, 11, entra para a história como o maior já ocorrido no país e como possivelmente o desastre mais caro da humanidade, com prejuízos estimados de pelo menos R$ 166 bilhões. As dúvidas que ficam são quanto à eficiência dos governos em lidar com situações extremas e se as autoridades estão preparadas para atender com rapidez os milhares de afetados.

No Brasil, a proporção das chuvas da Região Serrana do Rio de Janeiro evidenciou o despreparo do governo em lidar com tais situações, já que, somente após a catástrofe, as autoridades começaram a falar sobre a importância de um plano de emergência para responder a desastres naturais. No Japão, a realidade era outra. A preparação contra terremotos e outros desastres sempre foi uma preocupação do governo. As crianças são treinadas nas escolas para saberem como agir nestes casos. Há planejamento, monitoramento e alerta. Existem áreas de refúgio e prédios preparados para suportar os tremores.

Para o engenheiro André Dantas, especialista em Logística de Desastres, as principais falhas no evento do Rio foi o repasse de informações e falta de coordenação pelas autoridades. Além disso, a falta de treinamento da comunidade para saber agir em tais situações também é fundamental. “Outra questão é que a comunidade precisa receber a informação e tem de saber o que fazer com ela. Se não houver treinamento isto não vai acontecer.”

No quesito treinamento, o Japão é modelo. O país realiza treinamentos de emergência com a população uma vez por ano. O mesmo acontece na Nova Zelândia. “O resultado é que, por exemplo, teve um terremoto de 7,4 graus em setembro na Nova Zelândia e sabe quantas pessoas morreram? Zero. Um evento de deslizamento de terra, desculpe dizer, é uma mixaria perto de um terremoto. Ou seja: o que aconteceu na Região Serrana do Rio é inaceitável. E posso afirmar que não é falta de recursos financeiros. O que as grandes universidades brasileiras tem de recurso para dois meses eu tinha para um ano inteiro na Nova Zelândia.”, afirmou o especialista ao portal iG.

Até o momento, as autoridades japonesas contabilizam os prejuízos humanos e materiais, sendo estimados 10 mil mortos, mais de 20 mil edifícios abalados e 450 mil japoneses fora de casa. Cerca de 1,4 milhão de pessoas estão sem água, mais de 500 mil estão alojadas nos 2 mil centros de evacuação. Segundo a ONU, 2,6 milhões de casas estão sem eletricidade e 3,2 milhões de pessoas sem abastecimento de gás. Em proporções mínimas, diante dos números do Japão, a situação da Região Serrana dois meses após as chuvas ainda é bastante complicada.

As prefeituras tentam reconstruir as cidades, enquanto ainda procuram 347 desaparecidos, tendo confirmadas mais de 900 mortos. Segundo o Diário de Pernambuco, somente em Nova Friburgo, que é uma das cidades fluminenses mais atingidas pelas chuvas, mais de 380 famílias ainda vivem nos 24 abrigos improvisados e ainda há bairros inteiros cobertos de lama. A Empresa de Obras Públicas do estado (Emop) estima que a reconstrução dos sete municípios atingidos deva levar cerca de dois anos e meio. O Japão enfrenta a crise humanitária de uma forma mais organizada e menos violenta. Até agora, nenhum episódio de saque ou briga foi registrado no país, o contrário do que ocorreu no Rio.

Costa Rica x Rio de Janeiro

Costa Rica tem uma topografia semelhante a do Rio de Janeiro e, em 2010, passou por um grande volume de chuvas. A diferença é que no país existe plano de emergência bem coordenado para responder a situações extremas, como no caso de um grande volume de chuvas, o que reduziu bastante o impacto das enchentes nas regiões afetadas.

Lá, se o Instituto Nacional de Meteorologia da Costa Rica detectar indícios de um possível desastre natural é emitido um aviso metereológico para Comissão Nacional de Emergência (CNE). A informação é repassada para Comitês Locais de Emergência que acionam os mecanismos de resposta e logística. Esses comitês locais, por sua vez, colocam em funcionamento os Centros de Coordenação de Operações, que coordenam evacuação, resgate, abrigos, avaliação de danos, análise de necessidades, aviões e distribuição de assistência humanitária e doações à comunidade.

As tarefas são divididas entre as instituições. O Centro de Operações de Emergência (COE) coordena, com os comitês locais, o suporte logístico e operacional da emergência e o CNE supre o abastecimento de água engarrafada e comida para os abrigos. Após a tragédia, o CNE passa a trabalhar na recuperação das áreas afetadas.

“Minha conclusão é que não há nenhuma coordenação por parte das instituições no Rio de Janeiro. Ou seja: mesmo se houvesse um sistema que detectasse com 24 horas de antecedência o que iria ocorrer não adiantaria”, concluiu o engenheiro Dantas.

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2 Opiniões

  1. Markut disse:

    Qualquer confronto entre os acontecimentos da região serrana do Rio de Janeiro e a colossal tragédia japonesa, servirá, com mais força, para deixar claro como nós estamos mal em termos de gestão de catástrofes, seja por questões culturais, como pela tradicional desídia e a habitual descontinuidade administrativa, que caracteriza a nossa gestão pública.

  2. RAYMUNDO AUGUSTO D'ALMEIDA disse:

    Quando acontece uma tragédia procura-se costurar o rombo da sua causa?
    Prevenir é a melhor forma de segurança evitando maiores danos pessoais ou materiais.
    Manutenção de todos os serviços oferecidos pelo governo e particulares, infelizmente, é o que vemos primeiro deixar acontecer o desastre, para depois tomar providências.
    Urge deixar a frieza de lado e pensar um pouco mais no próximo.

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