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Crônica Política

Desenvolvimento, inflação e classe média

O despertar da classe média, para desempenhar o papel que lhe coube à margem das teorias, ocorreu no governo JK e foi decisivo na equação e na eleição de Jânio Quadros. Em seguida ficou atônita com a renúncia, deu aval social à derrubada do governo João Goulart, corrigiu progressivamente o equívoco cometido, padeceu com a falta de liberdade, compartilhou a resistência passiva e teve presença atuante na transição para a volta do poder civil aos políticos. Valeu por um curso de pós-graduação. Pode-se considerá-la decisiva nas eleições de Fernando Collor, Fernando Henrique e Luiz Inácio Lula da Silva (na deposição do primeiro e na reeleição dos dois). Participou ativamente do processo de deposição de Collor e teve peso na retomada da democracia como vontade social. Marcou, portanto, praticamente a metade do século 20 e corresponde ao estado de espírito dominante no país. Somou à fé no desenvolvimento o medo da inflação, a ser posta à prova em breve. Em pinceladas preliminares, este é o quadro brasileiro em cores atuais.

Não resta dúvida de que a classe média aprendeu muito com as tensões que sombrearam o ciclo dos presidentes militares. Ultrapassada a barreira dos cem milhões de habitantes, a classe média ganhou peso na solução dos impasses políticos tão logo se reabriu o processo de encaminhamento de candidatos pelos partidos e coligações. Sob a Constituição de 1946, as eleições presidenciais levantavam a preliminar da ilegitimidade (por inexistência da maioria absoluta) e repetiam, como agouro, sofismas ociosos para tumultuar a posse do vencedor. Fazia parte do jogo a carta de veto.

A volta à legalidade nos anos 80 foi aula prática sobre a arte de fazer política, cujos artífices — Ulisses Guimarães e Tancredo Neves — não por acaso, contaram com o aval dos dois Estados (São Paulo e Minas) que, desde a República Velha, exerceram a responsabilidade republicana. Findo o ciclo militar, a industrialização já consolidada e a urbanização irreversível, o país se tornou outro. A classe média resumiu, em suas aspirações, uma visão compartilhada por toda a sociedade. Havia sido aprovada num longo curso de formação democrática e ilusões perdidas, por falta de legitimidade e insuficiência de resultados.

A inflação que toca a campainha do governo Lula veio testar a resistência social e tentar os políticos, na expectativa eleitoral, sobre como seria recebida de volta. A classe média, com DNA pequeno-burguês, ainda não dissipou os cuidados que adquiriu quando a inflação ia se convertendo em hiperinflação. Nos anos 50, faltava-lhe ainda base de conhecimento e experiência para fazer a opção entre desenvolvimento e inflação. Depois de provar os primeiros frutos do desenvolvimento, ao qual chegou pelo consumo, a ambigüidade da classe média foi entendida como opção em favor dos dois. Mas inflação e desenvolvimento se repelem. O advento do acesso aos bens duráveis (que ironicamente duram menos) e ao automóvel entorpeceram os que puderam conviver com a longa inflação. A opção entre desenvolvimento e inflação é o perigoso jogo da serpente que está de volta ao paraíso perdido graças à falta de memória nacional. A exceção é o presidente Lula (inclusive o grupo que, mais do que convicção, o acompanha por governismo orgânico).

Não há sinais de que a classe média fechará com a prioridade de impedir a volta da inflação, a pretexto de liberar a economia. Mas, como fica o desenvolvimento no projeto tipo cara ou coroa, em que um exclui o outro? A cabeça do pequeno-burguês ainda não dissocia desenvolvimento e inflação, mas também não confia no subterfúgio com o qual Juscelino Kubitschek não assumiu compromisso. Ele se propôs e realizou em cinco anos a meta de executar um programa com potencial de cinqüenta. E só. A idéia de condicionar o salto industrial e de consumo pela mão da inflação ficou por conta dos que não tinham plano consistente de governo e faziam da inflação a falsa idéia de que fosse banco de fomento. Por enquanto, apesar de predisposta a viver a hora histórica, a classe média não foi convidada, pelas pesquisas, a se situar no dilema eleitoral — daqui até 2010 — confinada entre desenvolvimento e inflação. Atrás de instituições corporativas, empresários defendem um mínimo de inflação para o máximo de desenvolvimento que, sem ela, fugiu-lhes ao controle. Querem financiamento fácil e cinto desapertado.

Se o pequeno-burguês disfarça seu medo da inflação, sem coragem social de declarar-se contra, o presidente Lula pode contar com gente das letras D e E, recém-chegada ao consumo, se for preciso apelar para massa de manobra. Atenderia, de olhos fechados, ao pedido de ajuda presidencial. Quanto ao burguês real, não há dúvida de que os efetivamente do ramo e devotos da eficiência, fieis da economia de mercado, não precisam esperar pelas pesquisas, para considerar a inflação presença indesejável. O cuidado é com os políticos.

Como não se trata ainda da campanha presidencial e, não sendo Lula candidato, pelo menos por vontade própria, a questão não precisa passar por pesquisas de opinião pública. Foi Lula quem melhor entendeu que a inflação não tem o contorno de paraíso perdido e o governo do PT pode, graciosamente, considerá-la persona non grata. Depois da inflação, a era dos eletro-domésticos deixou bens duráveis ao alcance do pessoal socialmente localizado nos níveis D e E do consumo. Basta o toque de reunir.

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